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Mimi Thian/Unsplash
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Comportamento

Quando não vamos com a cara de alguém, é possível ser mais compreensivo e mudar a forma de enxergá-lo?

Qualquer relacionamento interpessoal demanda três virtudes, ainda mais quando não simpatizamos com o outro: a humildade, a compaixão e a autoestima

Situação: você tem um colega de trabalho ou de faculdade com quem antipatiza. Ele nunca te fez nada, mas o santo não bate: o jeito dele não te agrada e talvez ele tenha mesmo um comportamento difícil – muito seco e grosseiro, ou, ao contrário, alto astral além da conta. Até que um dia você fica sabendo dos perrengues que essa pessoa já viveu num passado não tão distante: quadros de depressão, situações de luto difíceis, uma família problemática, etc. Bem, se isso nunca aconteceu com você, um dia vai acontecer.

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Afinal, por que temos esse sentimento de repúdio quase que automático diante de algumas pessoas? E o que fazer para não alimentar essa percepção e ter mais empatia? “Às vezes, ao conhecermos uma pessoa, observamos características que nos fazem lembrar de outras figuras em nossas vidas, com as quais talvez tenhamos dificuldades ou experiências ruins”, explica a psicóloga Mariana Pieruccini. “Essas lembranças costumeiramente não são conscientes e podem ser suscitadas através de gestos, tom de voz, postura, uma característica física ou até mesmo o odor”.

“Além disso, tais pessoas por quem nutrimos essa antipatia automática podem transparecer traços que desejaríamos ter e não temos – ou, ainda, o que temos e negamos em nós mesmos”, completa Pieruccini. O professor de Filosofia e Ensino Religioso Matheus Cedric concorda: “Eu digo: ‘Fulano é muito orgulhoso’, mas na verdade o que me incomoda é que o orgulho dele compete com o meu. Ou acho que uma pessoa é muito grosseira, quando sou eu que tenho problemas ao lidar com a franqueza, então acho que tudo é grosseria”.

“Esse repúdio automático, portanto, diz mais sobre nós mesmos do que sobre as outras pessoas, seja no que diz respeito às nossas experiências ou às nossas faltas”, diz Pieruccini. “Ao nos depararmos com situações assim, é interessante buscarmos nos questionar sobre o que, exatamente, nos está incomodando naquela pessoa”.

Os caminhos que podemos tomar diante disso variam de acordo com a resposta a essa indagação. “Talvez a característica que nos incomoda seja simplesmente uma impressão nossa, que nada tenha a ver com a realidade daquela pessoa”, esclarece a psicóloga. “Caso a característica se comprove verdadeira, podemos nos perguntar se a antipatia é pela pessoa ou pela característica em específico. Isso implica em nos questionar por que aquele jeito de ser nos incomoda tanto, a ponto de gerar antipatia”.

Reconfigurando o olhar

Para Cedric, qualquer relacionamento interpessoal demanda três virtudes, ainda mais quando não simpatizamos com o outro: a humildade, a compaixão e a autoestima. “Ser humilde nesse sentido é perceber que aquilo que me incomoda no outro é revelador de um defeito que eu mesmo tenha e assim se perguntar o que essa pessoa me ensina a respeito de mim mesmo”, diz. “A humildade faz com que eu até possa aprender com esse outro com quem não simpatizo, mas que é sempre, em alguma medida, um espelho de mim mesmo. Posso crescer com ele, mesmo que ele não seja a imagem de mim que eu gostaria de ver retratada nesse espelho”.

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A compaixão se faz necessária diante da constatação das falhas do outro. “Assim como preciso aprender a me perdoar pelas minhas falhas e aceitar as minhas limitações, tenho que aprender a aceitar as dos outros. Não existe nenhuma relação saudável sem a capacidade de olhar para o outro e compreendê-lo como é”, sustenta Cedric. “A compaixão ajuda a compreender o outro e a não o rechaçar enquanto ser humano”.

Reconfigurar o olhar em relação a essa pessoa pode nos ajudar a lidar melhor com situações como essa quando elas voltarem a acontecer e até mesmo a sanar alguns aspectos da nossa relação com aquelas pessoas aos quais o comportamento que nos incomoda nos remete. “Se é algo que te incomoda frequentemente em diversos contextos, é possível que realizemos uma mudança de postura em relação a isso, não somente em se tratando daquela pessoa, mas também das outras que remetem a ela”, orienta Pieruccini.

“A gente já sabe que algumas experiências que temos na primeira infância marcam os comportamentos que mantemos ao longo da vida adulta. Aspectos difíceis da personalidade muitas vezes têm raízes em experiências da infância, na relação com os pais, que podem ter formado uma carapaça difícil de transpor”, explica Cedric. “Uma pessoa mais fria e seca, pouco afetuosa, possivelmente teve uma família com as mesmas características e assim não aprendeu a dar afeto. É preciso compreender isso”.

Sem sair ferido

A terceira disposição elencada por Cedric, a autoestima, é necessária para que, no intuito de ter um olhar mais empático em relação ao outro, não acabemos por nos submeter a relações abusivas. “A humildade e a compaixão não podem significar submissão e uma resiliência além da conta diante de situações que me violentam”, alerta o professor.

“Se há casos em que tais esforços não bastam, gerando mal-estar, irritação e até mesmos problemas de relacionamento, parece interessante identificar e assumir os próprios limites, e o que é passível de ser tolerado por você num relacionamento”, explica Pieruccini. “Caso a pessoa realmente apresente traços que você não suporta, por questões de valores, ideias ou comportamentos, distanciar-se e buscar compreender em si mesmo como e porquê este sentimento aparece tão forte pode ser um caminho para lidar com o problema”.

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“De qualquer modo, mesmo nessa situação, também é apresentada uma oportunidade de colocar um novo olhar sobre como você se relaciona com o outro, seja na diferença ou na afinidade”, avalia a psicóloga. O critério é enxergar quando esse esforço por reconfigurar o olhar em relação ao outro realmente nos faz crescer como pessoas, enriquecendo a nossa experiência, sensibilidade e empatia, e quando, pelo contrário, a tentativa de aproximação acaba nos fazendo mal.

É o que afirma Cedric: “A autoestima é fundamental para entender os meus limites em uma relação e saber quando é hora de dizer a si mesmo: ‘Tudo bem, eu compreendo as dificuldades do outro, aprendi muito com essa relação, mas não vou mais fazer projetos com essa pessoa, porque ela me trata de uma maneira que me fragiliza e não vou me sujeitar a isso. Eu aprecio a minha própria saúde mental e a minha felicidade e por isso vou manter uma distância segura dessa pessoa que não me faz bem’”.

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