"Dinheiro não traz felicidade"

Aprender, em vez de obter recompensas, pode ser a chave da felicidade, diz estudo

  • PorBastien Blain* e Robb Rutledge**
  • The Conversation
  • 16/02/2021 13:54
O que aprendemos sobre o mundo ao redor de nós pode ser mais importante para como nos sentimos do que recompensas que recebemos.
O que aprendemos sobre o mundo ao redor de nós pode ser mais importante para como nos sentimos do que recompensas que recebemos.| Foto: Brooke Cagle/Unsplash

Nossa obsessão pela felicidade não é tão moderna quanto parece. De Aristóteles a Jeremy Bentham, uma série de filósofos defendeu que o bem-estar do sujeito é crucial. Bentham até mesmo sugeriu que “a maior felicidade do maior número de pessoas é a medida do certo e do errado”. Essa abordagem está presente nas políticas públicas de muitos países que dispõem de medidas em relação ao bem-estar de suas populações.

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Porém, a meta de melhorar a felicidade da sociedade tem se provado difícil de atingir. Isso acontece em parte porque é difícil determinar quais fatores são mais relevantes em relação à felicidade. Por exemplo, muitas pessoas creem que seriam mais felizes se tivessem mais dinheiro, mas estudos indicam que eventos como ganhar na loteria ou receber um bom aumento frequentemente têm um impacto apenas temporário na felicidade. Já em nosso estudo mais recente, sugerimos que o ganho em aprendizado pode ter um papel mais significativo e duradouro neste sentido.

Outro estudo recente sugere que o principal fator ligado à felicidade quando a entendemos em termos de recompensa não é a recompensa em si mesma, e sim o quanto a recompensa bate com a expectativa. Ganhar um aumento fará você mais feliz apenas se esse aumento for maior do que você esperava. Essa diferença entre a recompensa esperada e a real é chamada de erro de previsão de recompensa.

Erros de previsão de recompensa desempenham um papel crucial no aprendizado. Eles nos motivam a repetir comportamentos que levem a recompensas inesperadamente grandes. Além disso, eles também podem ser usados para atualizar nossas crenças sobre o mundo, o que pode ser recompensador por si mesmo. Por exemplo, se você ganha um aumento acima do esperado porque se esforçou muito para negociar com seu empregador, vai reconhecer que esse tipo de abordagem é muito útil e vai desejar mantê-la. Você também pode sentir que mereceu muito esse aumento.

Pode ser, então, que erros de previsão de recompensa estejam associados à felicidade não por causa das recompensas, mas, em vez disso, porque nos ajudam a entender o mundo um pouquinho melhor?

O experimento

Em nosso estudo, testamos essa ideia. Elaboramos uma tarefa em que a propensão a receber uma recompensa não estava relacionada ao tamanho da recompensa, permitindo que separássemos as contribuições do aprendizado e as da recompensa em proporcionar felicidade.

Os 75 voluntários participaram de um jogo que envolvia escolher entre dois carros qual deles ganharia uma corrida, sem prévio conhecimento sobre os veículos. Na condição “estável”, um dos carros tinha sempre 80% de chances de ganhar. Na condição “volátil”, um carro tinha 80% de chances de ganhar nas 20 primeiras tentativas. O outro tinha 80% de chances de ganhar nas 20 tentativas seguintes. Os voluntários não conheciam essas probabilidades previamente, mas precisavam adivinhá-las por tentativa e erro enquanto o jogo se desenrolava.

A cada rodada, os voluntários conheciam as recompensas que receberiam se o carro que cada um escolheu ganhasse. Possíveis prêmios em dinheiro eram atribuídos aleatoriamente a cada carro. Fazer boas escolhas exigia considerar tanto as recompensas disponíveis quanto a probabilidade de vencer (você preferiria, obviamente, ganhar os melhores prêmios e o máximo possível). Mas o valor dos prêmios não era útil para aprender qual carro tinha a maior possibilidade de vencer no futuro.

Após algumas rodadas, os voluntários deveriam mover um cursor que indicava o seu nível atual de felicidade. É claro que os voluntários se diziam mais felizes depois de ganhar do que depois de perder. Em média, eles também se diziam menos felizes na condição volátil em comparação com a estável. Isso se mostrou ainda mais verdadeiro para voluntários que reportaram sintomas de depressão.

A maior surpresa foi que a felicidade não dependia, em nenhum sentido, do valor das recompensas. Na verdade, a felicidade momentânea se relacionava à relação entre os resultados e as expectativas: se os carros tinham uma performance ainda melhor do que a prevista pelos participantes. Isso ajudava os voluntários a atualizar as suas percepções, enquanto as informações sobre o valor das recompensas eram cada vez mais ignoradas. Em outras palavras, foi o processo de aprender como o jogo funcionava que fazia as pessoas se sentirem melhor, em vez do tamanho da recompensa que ganhavam.

Os benefícios do aprendizado

Esses resultados indicam que o que aprendemos sobre o mundo ao redor de nós pode ser mais importante para como nos sentimos do que as recompensas que recebemos. Isso faz sentido se você considerar que o aprendizado é frequentemente tido como recompensador por si mesmo.

Pode ser um idioma, fatos históricos, sudoku ou um jogo de computador: as pessoas buscam por oportunidades de aprender e gostam do processo mesmo se ele não resulta diretamente em ganho material. Isso é reforçado pelo fato de que ninguém gosta de jogar jogos muito fáceis ou jogos insolúveis: em ambos os casos não há ganho em termos de oportunidade de aprendizado. Nós gostamos é de jogar jogos desafiadores, que podemos aprender até nos tornarmos craques.

Encontrar oportunidades regulares de aprendizado pode ser, portanto, muito importante para o bem-estar. De fato, pesquisas mostram que a motivação para realizar uma atividade intrinsecamente recompensadora, como solucionar um problema, pode ser sabotada quando uma recompensa, como um pagamento, é introduzida na jogada. No mundo real, recompensas são frequentemente incertas e raras, mas a boa notícia é que aprender sempre é possível e tem todo o potencial para aumentar a felicidade.

*Bastien Blain é pesquisador associado em Neurociência Cognitiva na UCL
**Robb Rutledge é professor assistente em Psicologia na Universidade de Yale

©2021 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

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