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Madre Teresa e a princesa Diana, em 1992.
Madre Teresa e a princesa Diana, em 1992.
Religião

Santa e “empoderada”: como Madre Teresa se tornou uma das mulheres mais influentes do mundo

Mesmo sem nunca ter ocupado cargos na cúria romana, ela tinha mais poder do que muitos bispos e cardeais

Há grupos feministas que dizem que “mulheres comportadas raramente fazem história”, mas esse não parece ser o caso de Madre Teresa de Calcutá, a religiosa proclamada santa pelo papa Francisco no último domingo. É bem verdade, porém, que não se pode dizer que a madre foi “comportada” no sentido mais negativo – e menos santo – da palavra. Isso por que a figura frágil e pequenina, de terço nas mãos e que distribuía medalhinhas de Nossa Senhora onde quer que fosse, é a mesma mulher que tratava com papas, presidentes e princesas de igual para igual, chegando a ter atitudes facilmente enquadradas como “petulantes” por quem não está acostumado com franqueza. Qualquer estudioso da vida da religiosa conclui, sem nenhum exagero, que apesar de estar muito distante dos estereótipos do feminismo, Madre Teresa foi uma mulher “empoderada” e sem dúvida a mais influente na Igreja Católica em todo o século XX.

Madre Teresa e o papa João Paulo II, em 1986 (foto: Luciano Mellace/Reuters)
Madre Teresa e o papa João Paulo II, em 1986 (foto: Luciano Mellace/Reuters)

Um exemplo dessa influência estaria em declarações pouco conhecidas dos dois antecessores de Francisco, feitas na década de 90. Certa vez, quando ainda não respondia pelo nome de Bento XVI, o cardeal Joseph Ratzinger chegou a mencionar a uma jornalista italiana que, em tese, mulheres também poderiam ser cardeais e que “a primeira deveria ser Madre Teresa”. Outro cardeal, o agora arcebispo de Nova York, Timothy Dolan, fez menção à mesma possibilidade num programa de TV, acrescentando inclusive que a sugestão chegou a João Paulo II, o qual teria respondido: “eu perguntei para ela, mas ela não quer”.

História

As ações de caridade de Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, nome de nascimento da religiosa, que é natural da Macedônia, começaram no final dos anos quarenta. Ela pertencia à congregação de Nossa Senhora de Loreto, onde assumiu o nome de Teresa, e era diretora de uma escola em Calcutá, na Índia, onde vivia há quinze anos. Em 1946, um massacre entre facções hindus, muçulmanas e sikhs agravou severamente a miséria da população da cidade. O enfrentamento deixou, em questão de três dias, mais de quatro mil mortos e cem mil desabrigados. Profundamente incomodada com a situação, Teresa pediu para se desligar da congregação para passar a cuidar dos necessitados.

Madre Teresa e a princesa Daiana, em 1992 (foto: Domenico Stinelus/Reuters).
Madre Teresa e a princesa Diana, em 1992 (foto: Domenico Stinelus/Reuters).

A religiosa deixou o hábito e passou a endossar um sari, a veste típica da mulher indiana. Fez um treinamento de enfermagem em um hospital e passou a cuidar dos “mais pobres entre os pobres”, aliviando suas feridas, limpando-os e dando-lhes de comer. Ela mesma precisava mendigar para se sustentar. Em pouco tempo, o seu serviço reuniu seguidoras e, em 1950, a congregação das Missionárias da Caridade foi reconhecida pela Igreja.

Madre Teresa começou a ficar cada vez mais conhecida no Ocidente a partir de 1969, com o lançamento do documentário Something Beautiful to God, de Malcolm Muggeridge. O reconhecimento mundial se consolidou em 1979, com o Prêmio Nobel da Paz. A essa altura, Teresa circulava pela Cúria Romana e pelos palácios de governos com a mesma liberdade com que perambulava pelas favelas de Calcutá.

Quando morreu, em 1997, a congregação que fundou e dirigia tinha mais de quatro mil membros e estava presente em 123 países

 

Críticos reclamam de sua oposição ao aborto e de “caridade primitiva”

Como qualquer líder de carisma e personalidade marcante, a madre não atraía apenas admiradores, mas também críticos. As mais famosas vêm, sobretudo, do médico indiano Aroup Chatterjee e do jornalista e ateu militante Christopher Hitchens, falecido em 2011, e foram popularizadas pelo documentário Anjo do Inferno, de 1994. Hitchens se referia a Teresa como “fundamentalista religiosa, agente política, pregadora primitiva e cúmplice dos poderes mundanos”. Tanto ele quanto Chatterjee foram convidados pelo Vaticano como testemunhas críticas no seu processo de beatificação.

Madre Teresa e Hillary Clinton, em 1994. (foto: Reuters)
Madre Teresa e Hillary Clinton, em 1994. (foto: Reuters)

Boa parte das críticas são focadas na aguerrida oposição que Madre Teresa fazia ao aborto e à contracepção, que a religiosa não fazia questão de disfarçar. “Sinto que o grande destruidor da paz hoje é o aborto”, dizia. “Se aceitamos que uma mãe possa matar até o seu próprio filho, como poderemos dizer às pessoas que não se matem umas às outras”. Teresa chegou a expor argumentos como esse no seu discurso por ocasião do recebimento do Nobel da Paz, em 1979, e um evento em 1994, nos Estados Unidos, diante de Bill e Hillary Clinton, ambos favoráveis ao aborto livre. A rede de clínicas de aborto Planned Parenthood, a maior dos Estados Unidos,  chamou Madre Teresa, em 1986, de “pesadelo das mulheres”.

Há críticas também à falta de transparência na administração financeira da congregação, à precariedade dos recursos oferecidos aos enfermos e ao envolvimento de Teresa com personalidades controversas, como o ditador do Haiti, Baby Doc, de quem aceitou doações. “As pessoas têm o direito de fazer doações de caridade. Não é diferente com milhares de pessoas que ajudam os pobres diariamente. Não tenho direito de julgá-los. Só Deus tem”, respondeu Teresa ao seu biógrafo, Navin Chawla.

Do outro lado da trincheira, católicos tradicionalistas também criticam as atitudes da religiosa, sobretudo no que diz respeito à sua relação com as outras religiões. Ao ser perguntada se convertia as pessoas, Madre Teresa respondeu: “Sim: eu converto você para que você seja um hindu melhor, ou um muçulmano melhor, ou um protestante melhor, ou um católico melhor, ou um sikh melhor, ou um budista melhor”. As irmãs de sua congregação aprendiam até mesmo a realizar os rituais funerais de outras religiões para executá-los quando um doente morria, de acordo com a crença de cada um.

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