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Educação dos filhos

Formar “panelinhas” é natural entre as crianças, mas pode levar à rejeição

Estar em um grupo de amigos faz bem, mas se torna algo negativo quando se formam turmas muito fechadas, que são excludentes e discriminam

Agência RBS por Bruna Vargas

De Friends a Big Bang Theory, boa parte do que a cultura pop mostra sobre amizade é inspirada em um contexto real: seja por interesses ou atividades em comum, a convivência se encarrega de fazer com que algumas pessoas se tornem mais próximas do que outras, formando grupos de afinidade. E no universo infantil, não é diferente.

Na escola, as crianças se aproximam daquelas que nutrem o mesmo gosto por determinadas coisas como esportes, personagens ou brincadeiras, ou tenham um comportamento semelhante ao seu – como ser estudioso ou bagunceiro.

Mas, se os agrupamentos são consequência natural das relações sociais, há um tipo que desperta preocupação. São as chamadas panelinhas, grupos fechados que dificultam o ingresso de outras crianças ou as excluem de determinadas atividades.

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“Ter um grupo de melhores amigos faz parte do desenvolvimento e é importante para o processo de identificação e descoberta da criança”, diz Vera Ramirez, doutora em psicologia clínica e professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). “Mas pode se tornar uma coisa negativa a partir do momento em que se estabelecem turmas muito fechadas, que são excludentes, e quando surge discriminação”, avalia.

O tipo de exclusão mais comum, segundo Vera, costuma estar relacionado a características físicas e psicológicas. Uma criança fora do padrão, que tenha algum traço exacerbado ou vista-se diferente, por exemplo, pode sofrer discriminação, assim como as mais tímidas ou muito estudiosas.

Pesquisas sugerem ainda que há comportamentos que podem levar os pequenos a serem rejeitados por seus pares. Eles estão associados, principalmente, a autoritarismo, conduta perturbadora ou agressiva e à não participação, itens que compõem os chamados “indicadores de rejeição”.

O tipo de exclusão mais comum, segundo Vera, costuma estar relacionado a características físicas e psicológicas

Independentemente do que leva à exclusão, suas consequências são negativas e podem se expressar de diferentes formas, muitas vezes indiretas. É comum crianças que estão passando por problemas na escola apresentem mudanças em casa, como dificuldades para dormir, alteração nos hábitos alimentares e dores de cabeça. Não raro se isolam ou inventam desculpas para não ir à escola. Nos casos mais graves, podem desenvolver um quadro de depressão e precisar de ajuda terapêutica.

“Às vezes, as mais tímidas sofrem em silêncio por mais tempo. É importante que a escola e a família estejam atentas. Se a criança estiver muito quieta, devem se aproximar para saber o que está acontecendo”, recomenda Vera.

A importância da educação inclusiva

Outra consequência da exclusão no ambiente escolar são as alterações no rendimento em sala de aula. Uma pesquisa realizada pelo governo federal nos anos 2000 indicou que 13% dos alunos do 4º ano do Ensino Fundamental diziam sofrer rejeição de colegas ou professores. O estudo indicou que essas crianças tiveram rendimento, em média, 23% abaixo do que as que não enfrentavam esse tipo de problema no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

“Crianças que se sentem rejeitadas começam a apresentar rendimento diferente, geralmente pior. Algumas pessoas encaram a educação inclusiva como algo relacionado às pessoas com deficiência, mas é uma visão parcial”, explica Italo Curcio, coordenador do curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, reforçando que esse tipo de educação é abrangente, e envolve questões étnicas, de status econômico e religião.

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No entendimento do professor, as escolas devem trabalhar para a formação como um todo. Promover a interação entre os alunos e os pais e buscar entender as dificuldades das crianças pode ajudar a melhorar o ambiente escolar. Segundo Curcio, isso pode se dar de várias maneiras.

Há instituições, por exemplo, que realizam reuniões antes do começo do ano letivo para que os pais compartilhem eventuais dificuldades dos filhos que podem afetar suas relações ou mesmo o rendimento escolar, ajudando os professores a dedicarem um olhar mais atento à criança. Outro caminho é realizar atividades que estimulem e promovam a empatia entre os estudantes em detrimento daquelas que fomentam a competitividade.

O papel da família e o exemplo dos pais

Não é só na escola que as panelinhas merecem atenção dos adultos. Pais de crianças que participam de grupos fechados também precisam acompanhar o comportamento dos filhos, estimulando-os a interagir com os outros.

“Quem se fecha em um grupo fica sem repertório. No momento em que está no grupo sente-se forte, mas fica com repertório pobre. Quando há mudanças, não sabe como lidar”, explica Aidê Knijnik, especialista no atendimento a crianças, adolescentes e famílias.

A psicóloga destaca ainda que muitas vezes crianças fragilizadas montam grupos para sentirem-se protegidas. A discriminação promovida por panelinhas também pode ter a ver com lacunas afetivas de quem a fomenta. Segundo a professora Vera Ramirez, o bullying costuma partir daquelas que estão passando por problemas e não sabem como se expressar.

“Quando uma criança pratica bullying, em geral, é um indicador de que ela tem uma dificuldade. Não é por ser má. Às vezes está sozinha afetivamente e não tem um contato que permita perceber que algo não está bem”, diz.

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Especialistas concordam que tanto os pais de quem discrimina quanto aqueles que têm filhos vítimas de situações de exclusão precisam investir no diálogo. Primeiro, com os pequenos, acolhendo-os e estimulando-os a buscarem resoluções não violentas para os problemas – nunca incentivando-os a revidar. Posteriormente com a escola e, sempre que houver abertura, com os pais das outras crianças envolvidas no conflito. Nesses casos, a abordagem deve ser construtiva, propondo alternativas conjuntas para resolver o problema.

O castigo, destacam especialistas, está longe de ser uma resposta efetiva. Quando há dificuldades de relacionamento, o ideal é trabalhar o conceito de empatia, dando instrumentos para as crianças refletirem sobre as próprias atitudes e colocarem-se no lugar das outras.

Se as panelinhas são comuns e o contato das crianças com elas é quase inevitável, prevenir situações de discriminação está ao alcance da família. E a forma mais efetiva, segundo especialistas, é a educação pelo exemplo. “Quando os pais são pessoas que estabelecem relacionamentos sociais marcados pela compreensão, aceitação e respeito às diferenças, essa é a comunicação mais eloquente que uma criança em desenvolvimento pode receber”, completa Vera.

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