Reprodução/ Facebook Ilê Mulher| Foto:
Agência RBS, por Alberi Neto
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Duas vezes por semana, numa sala da Associação Cultural e Beneficente Ilê Mulher, reúnem-se membros de uma orquestra onde a afinação mais evidente está no sorriso dos participantes. Compartilhando o espaço no prédio do bairro Floresta, na região central de Porto Alegre, estes músicos são, na verdade, aprendizes guiados pelo violinista Roberto Mauro Oliveira. O músico ministra oficinas de música e rádio para pessoas em situação de vulnerabilidade social – albergados ou moradores de rua – há cerca de dois anos.

Estas pessoas procuram no Centro de Convivência e Fortalecimento de Vínculos um momento de lazer dentro do cotidiano pesado das ruas. E espairecer por meio da música é um dos trabalhos oferecidos no Ilê Mulher. Além das oficinas de violino, violão, teclado e percussão, os frequentadores podem escolher outras áreas. Entre estas, estão a dança, pintura, artes plásticas, capoeira e inclusão digital.

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Assistente social que atua na coordenação do Ilê Mulher, Vanessa Ribeiro conta que a associação tem 19 anos de atuação voltada ao auxílio das mulheres vítimas de violência e da população adulta em situação de rua.  O trabalho no bairro Floresta faz parte de uma parceria relacionada com as políticas públicas da capital gaúcha, sob coordenação da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc).

“Temos foco em dar protagonismo social e fortalecer a convivência destas pessoas. Damos oportunidades para que elas aprendam aqui e tenham condições, caso queiram, de deixar a situação de vulnerabilidade”, explica Vanessa, ressaltando que a opção de estar na rua também é um direito.

Instrumentos

Querendo ou não o ambiente incerto da falta de um teto, é deixado de lado no momento das oficinas. Os alunos buscam manter a sinfonia das risadas acima do tom das preocupações. A reportagem acompanhou um dos encontros ministrados por Roberto e pelo professor de violão Diogo Domingos.

“O que eu quero é que todo mundo passe duas horas aqui e saia se sentindo leve, sorrindo”

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Os participantes chegam e escolhem os instrumentos com os quais têm mais afinidade. Tomam um assento e põem-se a tocar, como se fossem crianças que usam pela primeira vez um brinquedo novo. Para ouvidos desatentos, é uma epopeia de sons desencontrados que chegam a causar um desconforto de início.

Porém, em poucos minutos, o som vai se alinhando, um seguindo a música do outro. Ao pé do ouvido e com ajustes dos movimentos de cada um, Roberto e Diogo vão dando o norte que coloca todos sob a mesma nota. Logo, orquestrados, eles tocam todos a mesma melodia, como numa boa roda de música. “O que eu quero é que todo mundo passe duas horas aqui e saia se sentindo leve, sorrindo” explica Roberto.

Aprendizado e muitos sorrisos

Antes de conhecer a oficina de música, cinco meses atrás, Itamaragiba Oliveira,55 anos, não tinha acesso a um violão havia mais de 30 anos. Albergado no bairro Floresta, ele conta que passou por problemas pessoais que o levaram à situação de rua. Encontrou na associação um momento de respiro, ainda mais quando pôde novamente encontrar o instrumento que era amigo de longa data.

“Só aqui tenho acesso ao violão, então é um momento em que possa relaxar, aprender mais e tocar minhas músicas”, diz ele. Maria Edilamar Silva Flores e Geison Soares dos Santos, ambos de 43 anos, preferem o instrumento no qual o professor Roberto é especialista. Empunhando os violinos, os dois praticam em busca do domínio da difícil arte que é extrair sons harmonizados das cordas.

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“É um acesso raro que temos à cultura e à arte. São elementos que não costumam fazer parte da nossa realidade”, conta Geison. Maria conta que está há mais de três anos frequentando o espaço e, desde o início das aulas de música, vem ao local. Para ela, o violino é uma paixão.

Mas, além da prática musical, também é uma das apresentadoras do programa A Rua Como Ela É, feito por alunos da oficina de rádio coordenada por Roberto e disponibilizado na rádio online da associação Ilê Mulher.

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