Felicidade

Rir é bom para a mente e para o corpo: o que dizem as pesquisas

  • PorJanet M. Gibson*
  • The Conversation
  • 23/02/2021 17:00
O riso exige uma combinação complexa de músculos faciais, frequentemente envolvendo o movimento de olhos, cabeça e ombros.
O riso exige uma combinação complexa de músculos faciais, frequentemente envolvendo o movimento de olhos, cabeça e ombros.| Foto: Bigstock

Surpresas divertidas e agradáveis — e os risos que trazem consigo — dão mais textura ao tecido da vida cotidiana. Risadas e gargalhadas podem parecer apenas efemeridades bobas. Mas rir em resposta a eventos engraçados, na verdade, dá bastante trabalho, porque ativa diversas áreas do cérebro, responsáveis por processos motores, emocionais, cognitivos e sociais.

Quando escrevi An Introduction to the Psychology of Humor [“Uma introdução à psicologia do humor”], descobri que os pesquisadores atualmente valorizam o poder do riso de melhorar o bem-estar físico e mental.

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O poder físico da risada

Quando, na infância, começamos a rir, isso nos ajuda a desenvolvermos a musculatura e a força do corpo. Não se trata apenas da respiração. O riso exige uma combinação complexa de músculos faciais, frequentemente envolvendo o movimento de olhos, cabeça e ombros.

Tanto rir quanto ver alguém rindo ativa múltiplas regiões do cérebro: o córtex motor, que controla os músculos; o lobo frontal, que ajuda a entender o contexto; e o sistema límbico, que modula emoções positivas. Ativar todos esses circuitos juntos fortalece conexões neurais e ajuda um cérebro saudável a coordenar a sua atividade.

Ativando os caminhos neurais de emoções como a alegria e o contentamento, o riso pode melhorar o humor e tornar a nossa resposta física e emocional ao estresse menos intensa. Por exemplo, rir pode ajudar a controlar os níveis cerebrais do neurotransmissor serotonina, de forma semelhante ao que fazem medicamentos antidepressivos. Além disso, minimizando as respostas do cérebro a ameaças, o riso limita a liberação de neurotransmissores e hormônios como o cortisol, que podem desgastar os sistemas cardiovascular, metabólico e imunológico ao longo do tempo. O riso é um tipo de antídoto contra o estresse, que enfraquece esses sistemas e aumenta a vulnerabilidade a doenças.

O poder cognitivo da risada

Um bom senso de humor e o riso que daí decorre dependem, em ampla medida, de recursos de inteligência social e de memória de trabalho.

O riso, como o humor, tipicamente surge quando reconhecemos incongruências ou absurdos em uma situação. Você precisa resolver mentalmente o comportamento ou o evento surpreendente, ou não rirá e, em vez disso, apenas ficará confuso. Inferir as intenções dos outros e assumir a sua perspectiva pode aprimorar a intensidade do riso e do divertimento que sentimos.

Para entender uma piada ou uma situação humorística, precisamos ser capazes de enxergar o lado mais leve das coisas. Precisamos acreditar que existem outras possibilidades além do literal. Basta pensar no divertimento que temos ao ler tiras de jornal com animais falantes como personagens.

O poder social da risada

Muitas habilidades sociais e cognitivas atuam em conjunto para nos ajudar a monitorar quando e por que o riso ocorre em meio a uma conversa. Não precisamos nem mesmo ouvir uma risada para saber rir: surdos pontuam sua linguagem de sinais com risadas, quase como emojis em um texto escrito.

O riso cria laços e aumenta a intimidade. O linguista Don Nilsen aponta que risadas e gargalhadas raramente acontecem quando estamos sozinhos, o que sublinha o seu forte papel social. Já desde cedo, o riso das crianças é um sinal externo de prazer que ajuda a fortalecer os laços com seus cuidadores.

Quando crescemos, o riso é um sinal externo que indica que partilhamos a apreciação de uma situação. Por exemplo, palestrantes e comediantes tentam arrancar risadas para fazer com que a plateia se sinta psicologicamente mais próxima a eles, gerando intimidade.

Dando ainda que uma pequena risada por dia, aprimoramos habilidades sociais que podem não nos ser tão naturais. Quando rimos em resposta a uma situação de humor, compartilhamos nossas emoções com os outros e descobrimos, por tentativas, se as nossas respostas serão aceitas, compartilhadas e apreciadas, e não rejeitadas, ignoradas ou recusadas.

Estudos de psicólogos descobriram que homens com características de personalidade de Tipo A, como competitividade e sentido de urgência, tendem a rir mais, enquanto mulheres com esses traços riem menos. Ambos os sexos riem mais quando estão acompanhados do que quando sozinhos.

O poder mental da risada

Pesquisadores de psicologia positiva estudam como as pessoas podem viver vidas com significado e se desenvolverem. A risada produz emoções positivas que levam a esse tipo de florescimento. Esses sentimentos, como o divertimento, a felicidade, o contentamento e a alegria, criam resiliência e aprimoram o pensamento criativo. Além disso, aumentam o bem-estar subjetivo e a satisfação diante da vida. Estudos descobriram que essas emoções positivas que experimentamos junto com o humor e o riso se relacionam com a apreciação do sentido da vida e ajudam os mais velhos a manter uma visão benigna das dificuldades que enfrentaram ao longo da vida.

Rir ao se divertir é um mecanismo de enfrentamento saudável. Quando rimos, levamos menos a sério a nós mesmos, ou à situação, podendo nos sentir empoderados para resolver algum problema. Por exemplo, psicólogos mediram a frequência e a intensidade da risada de 41 pessoas ao longo de duas semanas. Níveis de estresse físico e mental também foram monitorados. O que descobriram foi que quem riu mais registrou menos estresse. A intensidade das risadas não impactou no resultado.

Quem sabe você queira agarrar alguns desses benefícios para si mesmo. Nesse caso, podemos nos forçar a rir?

Um número cada vez maior de terapeutas defende que usar o humor e o riso para ajudar seus clientes cria confiança e melhor o ambiente de trabalho. Uma revisão de cinco estudos diferentes mostrou que os níveis de bem-estar realmente aumentam após intervenções que envolvem o riso. Chamadas às vezes de “lazer de casa”, em vez de “trabalho de casa”, essas intervenções consistem em atividades diárias de humor, como cercar-se de pessoas divertidas, assistir a uma boa comédia ou pôr no papel três coisas engraçadas que aconteceram no dia.

Você pode praticar o riso até mesmo sozinho. Assuma intencionalmente uma perspectiva que aprecie o lado engraçado das coisas. A técnica do “ioga do riso” usa os músculos da respiração para alcançar respostas físicas positivas de riso natural a partir de risadas forçadas.

Uma boa parte da pesquisa atual sobre a influência da risada na saúde mental e física é baseada em medidas de autorrelato. Mais experimentação psicológica em torno do riso ou dos contextos em que ele ocorre provavelmente apoiará a sua importância ao longo do dia e talvez até sugira mais formas de aproveitar intencionalmente seus benefícios.

*Janet M. Gibson é professora de Psicologia Cognitiva na Grinnell College.
©2021 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

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