Cefaleia

Fígado atacado? Veja mitos e verdades sobre dor de cabeça

  • Por Amanda Milléo
  • 29/05/2020 09:31
Dos tipos de dor mais comuns, a enxaqueca e a cefaleia do tipo tensional, há regiões específicas onde surgem os sintomas
Dos tipos de dor mais comuns, a enxaqueca e a cefaleia do tipo tensional, há regiões específicas onde surgem os sintomas| Foto: Bigstock

Achar que a pressão alta, ou hipertensão, possa gerar dor de cabeça é um mito comum entre a população brasileira, mas o que ocorre é o inverso: é quando o indivíduo tem uma cefaleia que a pressão arterial ou mesmo a frequência cardíaca podem se alterar.  Outro mito conhecido entre os neurologistas é de os pacientes acharem que uma dor de cabeça pode provir do fígado, que enviaria sinais à cabeça quando estivesse sobrecarregado.

O que acontece, na verdade, é que alguns alimentos são gatilhos para a enxaqueca, um dos tipos de cefaleia mais comuns. Muitos deles também afetam o fígado, como comidas com muita gordura. Por isso que a primeira reação das pessoas é culpar o injustiçado órgão.

Local da dor

Dor atrás da cabeça, nas têmporas ou na testa: a localização da dor não indica, necessariamente, a causa, mas pode ajudar no diagnóstico. Dos tipos de dor mais comuns, a enxaqueca e a cefaleia do tipo tensional, há regiões específicas onde surgem os sintomas.

Na enxaqueca, por exemplo, as pessoas tendem a ter dores em um dos lados da cabeça, na região frontal ou nas têmporas, e não nos dois ao mesmo tempo – embora essa situação não seja impossível. Os pacientes tendem a ter ainda náusea ou enjoo, incômodo com luz, barulhos ou cheiros, e a intensidade da dor tende a ser maior que em uma cefaleia do tipo de tensão.

As dores também podem se alternar entre os lados: se a pessoa teve um episódio de enxaqueca no lado direito uma vez, na próxima pode ser que a dor acometa o lado esquerdo da cabeça. Com relação às dores de cabeça do tipo tensionais, os sintomas tendem a atingir ambos os lados. Muitos pacientes relatam que sentem como se tivessem uma faixa de pressão na cabeça, ocupando a região frontal, das têmporas ou a occipital (na base do crânio).

Além disso, nesse tipo específico, a dor é em geral de intensidade leve a moderada e não acompanha outros sintomas. “A localização da dor nos fornece informações importantes, mas ela não define o diagnóstico. É preciso saber se há irradiação, se a dor começou na testa e foi para o lado direito ou se corre para a têmpora, nuca, pescoço. Também é importante saber a qualidade da dor, se é latejante, em pressão, em choque, bem como a duração e frequência. Todas essas informações ajudam a definir a causa", diz Paulo Faro, médico neurologista, chefe do setor de Cefaleia e Dor Orofacial do Instituto de Neurologia de Curitiba (INC).

Indicativo de outras doenças

Há 250 tipos diferentes de dores de cabeça, e o acúmulo dos sintomas – e não apenas a localização da dor – indicará o diagnóstico. Assim, a primeira reação do médico neurologista ao atender um paciente que reclama de dores de cabeça é tentar dividir a dor entre primárias e secundárias.

Conforme explica Faro, as dores primárias são decorrentes de uma disfunção bioquímica de neurotransmissores, que predispõe aos sintomas. A dor de cabeça, nesse caso, é a própria doença. No caso das dores secundárias, um dos sinais de alerta é o aparecimento súbito da cefaleia. “O principal diagnóstico é a ruptura de um aneurisma, que leva a uma hemorragia subaracnóidea. O paciente tem uma dor de cabeça súbita, explosiva, com intensidade de dor que vai a 10 em menos de um minuto”, exemplifica o médico.

“No geral, para o diagnóstico da dor de cabeça secundária, o especialista leva em consideração o aparecimento de uma causa concomitante à dor. Por exemplo, a pessoa tinha dores de cabeça esporádicas ou nunca, mas depois de cair de skate, bater a cabeça, passa a ter uma dor, ou ela piora muito. É uma dor atribuída ao traumatismo. Nesse caso, não importa onde está localizada a dor”, explica o neurologista.

Outras causas

Condições diversas podem favorecer o surgimento súbito da dor de cabeça:

  • Traumatismo craniano;
  • Traumatismo cervical;
  • Infecções do sistema nervoso ou mesmo fora dele, como uma sinusite;
  • Tumor cerebral;
  • Alteração na homeostase cerebral;
  • Uso inadequado de medicamentos;
  • Uso do anticoncepcional para algumas mulheres;
  • Mudanças climáticas,
  • Alteração de altitude, como a dor de cabeça que acomete algumas pessoas no pouso e decolagem do avião.

Atraso no tratamento

Quando a pessoa tenta achar o culpado da dor de cabeça sem recorrer ao especialista neurologista, acaba passando por diversos consultórios médicos sem receber o diagnóstico correto. E esse cenário é bastante comum, como relata Gustavo Franklin, médico neurologista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC/UFPR).

“Isso é uma verdade. A pessoa vai ao gastroenterologista achando que o problema é o fígado, ou ao oftalmologista achando que é problema na visão”, diz. Ao adiar o diagnóstico mais adequado, as dores continuam e o paciente recorre à automedicação. Poucos lembram, porém, que o uso inadequado de medicamentos analgésicos pode predispor ao surgimento da dor, visto que a pessoa vai aumentando a dosagem do remédio conforme o organismo vai se “acostumando” a ele.

Mitos

Além da associação errada com a hipertensão e o fígado, há outros mitos comuns envolvendo as dores de cabeça. Confira a lista, conforme os especialistas:

  • Dor de um lado é mais perigoso: de acordo com Gustavo Franklin, neurologista, as pessoas tendem a achar que as dores de um lado só são mais perigosas, mas isso não indica muita coisa. “No caso de tumores [na cabeça], a dor tende a ser na cabeça toda”, diz.
  • Enxaqueca + dor do tipo tensional: pessoas com enxaqueca não têm apenas enxaquecas. Podem ter, também, dores de cabeça do tipo tensional. E esse é um problema quando a pessoa tenta se automedicar sem saber exatamente qual é o tipo da dor.
  • Sinusite: dor na região entre as sobrancelhas não é apenas sintoma da sinusite. Por ser uma doença infecciosa, inflamatória dos seios paranasais, outros sinais tendem a indicar a condição, como coriza, tosse, indisposição, febre. Não se automedique achando ser sinusite.
  • “Dor” da miopia: a dor que pode ser sentida em cima ou nos próprios olhos nem sempre é um sinal de miopia, astigmatismo ou qualquer outra alteração da vista. As dores relacionadas a algum distúrbio da visão são leves, diz Paulo Faro, médico neurologista, e não são incapacitantes. “Nesses casos não há sintomas associados, como enjoo ou incômodo com barulho. Pode ter um incômodo com a luz, mas está relacionado à exposição prolongada à leitura, uso de tablets, celular ou computador, mas é uma dor leve. Uma vez que retire o estímulo, no geral, a dor melhora”, reforça o especialista.  
  • Na dúvida, procure o neurologista: no caso de uma dor de cabeça persistente, procure um médico neurologista antes de ir a outros especialistas. Evite, com isso, diagnósticos errados e a automedicação.
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