Diálogo

Como conversar com alguém que propaga informações falsas sobre o coronavírus

Avaliar a situação pode ajudar você a decidir se vale a pena ou não começar uma conversa para corrigir a desinformação

  • PorEmma Frances Bloomfield*
  • The Conversation
  • 19/03/2020 14:52
Avaliar a situação pode ajudar você a decidir se vale a pena ou não começar uma conversa para corrigir a desinformação
| Foto: Christina/Unsplash

A evidência médica é clara: a ameaça global do coronavírus não é fake news. Não foi Bill Gates quem criou o coronavírus para vender mais vacinas. E óleos essenciais não têm qualquer eficácia na proteção contra o vírus. No entanto, informações falsas continuam circulando, online e offline.

Seja qual for o assunto, as pessoas geralmente ouvem informações conflitantes e decidem em quais fontes confiam. A internet e a velocidade frenética das notícias fazem com que as informações viagem muito rapidamente, deixando pouco tempo para a checagem dos fatos.

Como pesquisadora interessada nas ciências da comunicação e no papel das controvérsias, estudo como a desinformação científica se espalha – e como corrigi-la. Tenho estado muito ocupada. A desinformação é enorme, quer em relação ao coronavírus, às mudanças climáticas, a vacinas ou a vários outros assuntos. Talvez você mesmo tenha compartilhado algo no Facebook que acabou se revelando falso, ou retuitado uma informação sem checar a fonte. Isso pode acontecer com qualquer um.

Também é comum encontrarmos pessoas que estão mal informadas e, no entanto, ainda não sabem. Checar as informações que eu mesma estou propagando é uma coisa, mas qual a melhor maneira de conversar com outra pessoa sobre o que ela acha que é verdade – mas que não é?

Vale a pena?

Antes de tudo, considere o contexto da situação. Há tempo o suficiente para uma boa conversa? A outra pessoa parece interessa e aberta a dialogar sobre o tema? Você tem uma conexão pessoa com ela, de maneira que ela valorize a sua opinião?

Avaliar a situação pode ajudar você a decidir se vale a pena ou não começar uma conversa para corrigir a desinformação. Às vezes, interagimos com pessoas que têm a mente muito fechada e não estão dispostas a ouvir. Não há problema nenhum em não interagir com elas em relação a esses assuntos.

Em interações interpessoais, uma relação forte pode ajudar a corrigir a desinformação. Por exemplo, pode ser mais fácil corrigir informações falsas sustentadas por um parente ou parceiro, porque essas pessoas sabem que você se importa com elas e está interessado no seu bem.

Não seja orgulhoso

Uma abordagem é envolver-se em uma conversa em que ambas as partes possam expor seus pontos. Isso geralmente é chamado de uma aproximação dialógica. Isso significa que você se preocupa com a pessoa que está por trás da opinião, mesmo quando discorda dela. É importante não entrar em conversas assim com uma atitude de superioridade. Por exemplo, ao conversar com céticos sobre as mudanças climáticas, a atitude do orador em relação ao público afeta o sucesso da interação e pode fazer com que a conversa chegue ao fim antes mesmo de começar.

Em vez de tratar a conversa como uma palestra corretiva, trate a outra pessoa como um parceiro igual na discussão. Uma maneira de criar esse vínculo comum é reconhecer que para ambos é difícil localizar informações precisas. Dizer que há muita informação circulando pode ajudar alguém a se sentir confortável mudando de opinião e aceitando novas informações, em vez de resistir e seguir suas crenças anteriores para evitar admitir que estava errado.

Parte da criação do diálogo é fazer perguntas. Por exemplo, se alguém disser que ouviu dizer que o coronavírus era uma farsa, você pode perguntar: “Não ouvi nada sobre isso. Qual a fonte dessa informação?” Ao se interessar pela opinião da outra pessoa e não a rejeitar de imediato, você abre a porta para conversar sobre as informações e avaliá-las juntos.

Troquem fontes

Outra estratégia é apresentar a pessoa a novas fontes. No meu livro, falo de uma conversa que tive com um cético climático que não acreditava que os cientistas haviam alcançado um consenso de 97% sobre a existência de mudanças climáticas. Ele descartava esse número bem estabelecido referindo-se a fontes não científicas e postagens em blogs. Em vez de rejeitar seus recursos, me dispus a negociar: para cada fonte dele que eu lia, ele lia uma das minhas.

É bem provável que as informações falsas que a pessoa sustenta não venham de uma fonte confiável. Então, você pode propor uma alternativa. Se alguém com quem você estiver conversando se mostrar aberto a aprender mais, incentive essa curiosidade contínua.

Às vezes, é difícil, inconveniente ou esquisito conversar com alguém que está propagando informações falsas. Mas abrirmos para ter essas conversas pode ajudar a corrigi-las. Para garantir que a sociedade possa tomar as melhores decisões sobre assuntos importantes, compartilhe informações precisas e combata a disseminação de informações erradas.

*Professora assistente de Estudos da Comunicação na Universidade de Nevada, em Las Vegas.

©2020 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

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