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Felipe Koller

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O que “Toy Story 4” pode nos ensinar sobre discernimento

A difícil decisão que Woody toma ao fim do filme pode nos ajudar a entender muitas coisas sobre como se dá um caminho de discernimento.

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Já não é de hoje que filmes de animação trazem à tona situações existenciais complexas e as trabalham de modo muitas vezes mais profundo que muitos live action. O rótulo de “filme infantil”, entendido como sinônimo de animação, já deveria ter sido abandonado há muito tempo. Toy Story 4 (Pixar, 2019, direção de Josh Cooley) é um desses casos. A produção é uma narrativa impressionante sobre o tema do discernimento. A partir do próximo parágrafo, este texto contém spoilers.

Há quem diga que o filme contraria a temática de toda a franquia, já que no final Woody decide se separar de Buzz Lightyear e dos outros brinquedos que o acompanham desde o primeiro filme para viver ao lado de Betty. Até a música-tema de Toy Story perderia o seu sentido com isso – afinal, o “amigo” já não “estaria aqui”. De fato, essa ruptura existe, mas isso não significa, de maneira nenhuma, perda de profundidade. A difícil decisão que Woody toma ao fim do filme pode nos ajudar a entender muitas coisas sobre como se dá um caminho de discernimento.

Senso de responsabilidade diante do outro

Um flashback no início do filme mostra a despedida de Betty da casa de Andy. Woody cogita ir embora com a boneca, mas percebe que o menino ainda precisa dele. Esse senso de responsabilidade acaba emergindo como um fio condutor da ação de Woody – um critério de discernimento para as suas decisões. É por isso que, anos depois, já com Bonnie – a garotinha que no final de Toy Story 3 recebe os brinquedos de Andy –, o caubói se sente no dever de se esconder dentro da mochila dela para estar à sua disposição no seu primeiro dia no jardim de infância.

Pelo mesmo motivo, Woody se entende como que um guardião de Garfinho, o brinquedo que Bonnie constrói na escolinha. Ele sabe que Garfinho é importante para a menininha – e aqui a atitude de Woody se mostra amadurecida, bem diferente do brinquedo do primeiro filme da franquia, completamente enciumado pela chegada de Buzz Lightyear.

“Estar ali para uma criança é a coisa mais nobre que um brinquedo pode fazer”, diz Woody a Garfinho. Até o terceiro filme, a temática era outra: “Não há nada melhor do que ser amado por uma criança”, afirma Buzz em Toy Story 2, por exemplo. Houve, portanto, um caminho: o ser amado saiu do centro para dar lugar ao amar. Woody aprendeu a colocar o outro em primeiro lugar, a pensar primeiro no outro, a tirar a si mesmo do centro. De fato, esse autodescentramento é o movimento básico da vida cristã. “Ser cristão significa essencialmente passar do ser em prol de si mesmo para o ser em prol dos outros”, diz Joseph Ratzinger na sua Introdução ao cristianismo, de 1968.

Justamente por isso, esse é o critério fundamental para o discernimento das nossas ações e das nossas decisões, como as vocacionais. “Muitas vezes, na vida, perdemos tempo nos perguntando: ‘Quem sou eu?’ E você pode acabar passando a vida inteira procurando saber quem você é. Mas a pergunta que você deve fazer a si mesmo é esta: ‘Para quem sou eu?’”, afirma o papa Francisco. O discernimento da vocação, diz o papa, deve “enquadrar a própria vida referida aos outros” (ChV 286).

Consciência emancipada

Woody cita, em uma conversa com Buzz que dá início a um dos temas que perpassam a trama, que o seu senso de responsabilidade vem da sua consciência. O patrulheiro espacial, porém, não entende o que é “consciência”. Woody responde que se trata da sua “voz interior”, suscitando a busca de Buzz pela sua própria voz interior. Buzz acaba identificando a sua consciência com as frases que emite quando aperta os seus botões. A cômica atitude do brinquedo reflete uma consciência constituída de frases feitas, de ideias pré-fabricadas. Não é, no fim das contas, uma consciência.

No ambiente eclesial, é comum o uso da expressão “consciência bem formada”. Às vezes, há quem identifique uma “consciência bem formada” com uma consciência que se limita a repetir as indicações da autoridade da Igreja. O mínimo aparente desvio dessa autoridade, e mesmo a colocação da razão do agir em outra fonte que não a autoridade, seria indício de uma consciência má formada. Mas isso – a mera aplicação de regras exteriores a nós sem passá-las pelo crivo da nossa experiência – é tudo que uma consciência bem formada não é. Uma consciência bem formada é uma consciência emancipada, aprendiz do amor que se tornou o centro da existência para aquele que segue a Jesus.

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A constituição pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II (1962-1965), afirma que “a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Graças à consciência, revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor a Deus e ao próximo” (n. 16). Francisco também deixa claro: “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37).

A responsabilidade da consciência é intransferível: nossas ações não podem ser fundadas fora de nós mesmos. Nós mesmos é que temos que justificá-las, em primeira pessoa, sem dizer que fizemos isso ou aquilo porque assim diz o Catecismo, a Bíblia ou um líder religioso – ou o partido ou o meu grupo ideológico. Recorrer à palavra da autoridade para nos justificar é um recurso fácil, mas pode levar a caminhos enganosos – quando não nos aprofundamos na verdade de nossas ações e nos julgamos satisfeitos por cumprir uma norma.

Discernir as sutilezas, desconfiar das superfícies

A consciência é soberana porque somente ela é capaz de discernir situações concretas em sua complexidade e especificidade. Um elemento essencial no discernimento é sempre desconfiar de que algo aparentemente bom e mesmo nobre possa acabar se revelando como algo ruim. Atitudes aparentemente ou inicialmente altruístas podem se revelar ou se tornar padrões de egocentrismo. É o que acontece no filme.

O senso de fidelidade de Woody em relação a Bonnie, ainda que mantendo a sua nobreza, acaba se revelando como uma busca do brinquedo por se sentir útil – ou seja, o centro volta a ser o próprio Woody e não mais o outro, Bonnie. Isso se manifesta no momento em que, esgotado pela pressão dos outros brinquedos, Woody desabafa dizendo que se esforça tanto para proteger Garfinho “porque é a única coisa que me resta para fazer”.

É uma distinção sutil, como as situações concretas que são colocadas diante do nosso discernimento na vida real. Ninguém discerne entre opções grosseiramente opostas – do tipo: “Será que dou uma esmola a esse pedinte ou será que lhe dou um murro?” Discernimos sutilezas. “Como posso ajudar esse pedinte? De que maneira posso ser útil a ele?” Nessas sutilezas, às vezes nos demoramos a perceber que não estamos realizando um determinado gesto pelo outro, mas sim por nós mesmos – mas essa percepção é fundamental para o discernimento.

Garfinho mesmo é quem proporciona a Woody um novo insight a esse respeito. Quando o caubói fala da sensação de ser inútil, Garfinho – cujo propósito de vida é ser usado e depois jogado fora – diz: “Inútil. Tipo: o seu propósito foi cumprido”. Talvez o que falte a Woody seja a gratuidade. Quando se vive centrado na satisfação consigo mesmo por ser útil, bom e generoso, é fácil que tudo isso se torne uma idolatria e que se perca a sensibilidade diante do outro. Assim, o próprio Woody cai na armadilha das frases feitas. Em dado momento, diz a Buzz: “Um brinquedo nunca deixa outro para trás”, e sai correndo ao resgate de outro brinquedo. Buzz ironiza: “E eis que ele acaba de deixar um brinquedo para trás”.

Amor, não heroísmo

Esse tipo de coisa acontece muito. Quando ficamos à superfície e não penetramos nas consequências concretas de um princípio moral, ou quando a marginalização do papel da consciência e a ênfase indevida em normas exteriores nos torna insensíveis e anestesiados diante do outro, surgem pontos cegos. Cremos seguir com perfeita fidelidade determinado princípio quando, na verdade, o contrariamos frontalmente. O princípio, afinal, é sempre pedagógico. Sua função não é tapar a nossa visão diante de todo o resto, mas nos ajudar a enxergar. É só quando nosso olhar se descola do princípio e passa a se deter sobre o que está realmente diante de nós que o discernimento começa.

A nobreza de Woody, uma vez transformada em satisfação com a própria utilidade – ou em refúgio na própria utilidade –, o tornou engessado e cego. Woody parece se preocupar com todos, mas é incapaz de enxergar o dom, de acolher o outro e o amor que vem do outro: os seus gestos de preocupação são, no fim, gestos em favor de si mesmo e da sua autopreservação. Com esse engessamento, não entende Betty, que optou por viver como um brinquedo “perdido” e diz que “às vezes a mudança pode ser boa!” Woody pena para aprender a ver o dom e a sair, de novo, do centro – agora em outro sentido.

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Isso não significa que Woody perde o seu senso de responsabilidade: significa, sim, que a autossatisfação com o cumprimento desse sentido de responsabilidade deixa de ser o centro da vida de Woody. Tanto é verdade que esse senso não se perde que, no momento em que o caubói deve se despedir de Betty, no fim do filme, Buzz lhe diz: “Ela vai ficar bem”, como se se referisse à boneca de porcelana. Mas o patrulheiro espacial esclarece: “Bonnie vai ficar bem”. Woody só se permite caminhar em uma nova direção porque sabe que esse não é um gesto de irresponsabilidade. Seu novo caminho não significa indiferença àqueles que estavam à sua volta antes, porque sua ausência, embora sentida, não lesa ninguém.

O filme termina com um diálogo entre Rex e Buzz em que o dinossauro de brinquedo diz: “Isso quer dizer… que Woody é um brinquedo perdido?” Buzz responde: “Ele não está perdido. Não mais”. Woody encontrou a si mesmo – não apenas no amor doado, mas no amor acolhido. Bento XVI defende que “o ser humano não pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. Não pode limitar-se sempre a dar, deve também receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom” (DCE 7). Quando a dimensão oblativa e a dimensão erótica do amor “se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor” (DCE 8). O amor tem, sim, uma dimensão de oblação, mas quando o reduzimos a ela é muito fácil nos vermos como heróis e perder de vista aquilo que é central no amor: a comunhão.

Com a atenção ao senso de responsabilidade diante do outro, à soberania da consciência, à percepção das sutilezas e ao amor como comunhão, Toy Story 4 ensina mais sobre discernimento do que muitos recursos oferecidos dentro da Igreja. Woody se perguntou, retomando o texto de Francisco, “para quem sou eu?” e discerniu que ele já não era chamado a ser para Andy nem para Bonnie, e sim para Betty. Com isso, deu mais um passo de maturidade, e passou a viver a sua existência a partir do dom. É o que o discernimento nos leva a fazer: encontrar o êxodo de si mesmo, encontrar a comunhão, encontrar o amor, pois onde está o amor, Deus aí está.

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