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Felipe Koller

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Pastoral vocacional ou RH clerical?

Uma coisa é acompanhar o processo de discernimento vocacional de cada fiel. Outra é querer apenas aumentar o número de padres.

Seminaristas rezando em igreja.
Imagem: Arquidiocese de Indiana

Leigos, ministros ordenados (diáconos, presbíteros e bispos), religiosos e religiosas: todos são igualmente membros da Igreja e participam igualmente da sua missão, cada um segundo a sua vocação – que é um chamado pessoal da parte de Deus e que deve ser descoberta em um processo de discernimento. A Igreja insiste nisso há muito tempo – particularmente, redescobriu essa verdade a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965). Ainda assim, o que acontece em boa parte de nossas comunidades está longe de refletir essa consciência.

A imagem que muitos católicos ainda têm na cabeça quando ouvem falar de vocação é a de que, na grande massa dos fiéis, Deus pinça alguns privilegiados para se tornarem padres ou freiras. Os que sobrarem, o resto, casam e trabalham. Já aqueles são “homens e mulheres de Deus”, “chamados por Deus”, “consagrados totalmente a Deus” e são chamados para “servir a Igreja”, “ser operários na messe”, “evangelizadores”.

Pensar a pastoral vocacional como um departamento de RH para o clero é nocivo e contraprodutivo

Todas essas expressões estão completamente erradas se são usadas para se referir apenas a padres e freiras. Todos os cristãos são chamados por Deus, consagrados totalmente a ele no batismo e são operários na messe. E cada um precisa discernir a sua vocação específica, isto é, a forma concreta que a sua pertença a Deus e o seu serviço à humanidade assumirá.

Ter consciência de tudo isso é um pressuposto para qualquer trabalho pastoral vocacional. E não me refiro aqui apenas aos organismos específicos das paróquias ou dioceses dedicados às vocações, mas a qualquer ocasião que se toque nesse tema – seja em encontros de catequese, homilias, momentos de oração, encontros de jovens, etc.

Muitas vezes, o que se faz não é pastoral vocacional. É RH para o clero. A preocupação não está em acompanhar o processo de discernimento vocacional de cada fiel, e sim em preencher as vagas dos seminários, aumentar o número de padres (o mesmo vale para os conventos). Isso é extremamente contraprodutivo e até mesmo danoso para os jovens, que são dessa forma desestimulados a traçar a relação entre a sua vida no mundo – profissão, estudo, participação na sociedade, vida afetiva – e a sua fé.

É claro que o número de presbíteros e de religiosos precisa ser maior. Mas isso não se faz pegando os jovens desprevenidos e incitando-os ao caminho do ministério ordenado e da vida religiosa. Explico: quando se diz aos jovens que é importante pensar sobre a vocação, a ideia por trás disso não deveria ser: “Reflita se vale a pena ser padre ou freira”, mas: “Faça um caminho de discernimento para saber o que Deus quer de você” – e as possibilidades não se reduzem a duas ou três opções, como já conversamos neste blog.

Dessa forma, um trabalho vocacional sério deveria prestar os seguintes serviços aos jovens e às demais pessoas que estão em discernimento:

1. Tornar conhecidas as diversas formas de vida dentro da Igreja, ampliando os horizontes para muito além de duas ou três alternativas. Não se trata de promover um simples aumento numérico do número de opções, mas de inspirar cada pessoa a admirar a imensa criatividade do Espírito Santo: Deus propõe um caminho pessoal para cada um de seus filhos. O discernimento vocacional deve fazer emergir esse caminho e não simplesmente ajustar cada pessoa a uma caixinha pré-definida.

2. Prover os meios para um bom discernimento vocacional. Contato com pessoas que dão testemunho de sua vocação, bons orientadores espirituais e, sobretudo, uma formação integral a partir da fé, que planta os critérios para um bom discernimento. Trata-se de não ficar obcecado por descobrir a própria vocação específica, a ponto de deixar em segundo plano a vivência da fé, da relação com Deus, de modo desinteressado – viver o amor na oração, no serviço, no testemunho de vida, na celebração litúrgica. É essa perspectiva que me leva naturalmente a querer responder aos desafios que o mundo enfrenta, acolhendo para isso a vocação que Deus me oferece.

3. Contribuir com a formação de cada pessoa segundo o momento atual de vivência da sua vocação. Como viver o namoro? Como viver a vida universitária? Como viver o meu trabalho? É importante servir aos jovens para que eles encarem essas e outras situações da vida de tal maneira a transformá-las em testemunhos de amor e serviço e a ordená-las em vista do advento do Reino de Deus.

Isso é escuta sincera da voz de Deus. Isso, sim, pode gerar bons presbíteros e religiosos, e também esposos, pais, professores, estudantes, jornalistas, políticos, artistas, engenheiros, advogados, enfermeiros, operários, ativistas, empresários e profissionais de todo o tipo que contribuam, como membros do corpo de Cristo, para a transformação do mundo em um mundo de amor e de vida, segundo a vontade de Deus.

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