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Felipe Koller
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O que “Viva! – A Vida é uma Festa” pode nos ensinar sobre escatologia cristã

Embora à primeira vista a concepção de vida após a morte do filme destoe da fé cristã, ela nos lembra de algo fundamental para a nossa fé.

Miguel e sua bisavó, Mamá Inés, personagem central de "Viva! - A Vida é uma Festa". Divulgação
Miguel e sua bisavó, Mamá Inés, personagem central de "Viva! - A Vida é uma Festa". Divulgação

O novo filme da Pixar, Viva! – A Vida é uma Festa (Coco, no título original), conta a história de Miguel, um garoto que sonha em ser músico, mas vive em uma família em que a música é absolutamente proibida, porque seu tataravô deixou a esposa para se dedicar à carreira artística. A produção explora as tradições mexicanas do Día de Muertos – segundo a crítica, com grande fidelidade à cultura do país.

O filme conta que, no Dia de Finados, os mexicanos acendem velas e fazem oferendas aos seus antepassados falecidos, diante de um altar com suas fotografias. Isso permite que os mortos visitem os vivos nesse dia. Se algum familiar for esquecido, sem fotos nem oferendas, ele não pode fazer a travessia do mundo dos mortos para o mundo dos vivos. E se nenhuma pessoa viva se lembrar mais de um falecido, ele deixa de existir também no mundo dos mortos.

É dentro dessa lógica que a história de Miguel e sua família se desenrola. À primeira vista, é claro que essa concepção de vida após a morte é bem diferente daquela que a fé cristã anuncia. Mas será que é tão diferente assim? Acompanhe a reflexão.

A memória é o elemento central da concepção escatológica do filme. (Escatologia é a área da teologia que se detém sobre as realidades últimas, como o céu, o purgatório, o inferno e a segunda vinda de Cristo). Permanece vivo após a morte aquele que é lembrado ou, dito de outra forma, a memória nos mantém vivos após a morte.

Afinal, o que é que pode nos salvar?

Concordemos ou não com isso, é uma ideia muito bonita, porque sublinha o fato de que não podemos nos conceber como indivíduos isolados – estamos sempre em relação. Esse é um dado antropológico fundamental, que a fé cristã também sublinha. A vocação fundamental do ser humano é a comunhão, não apenas com Deus, mas com os outros. A fé cristã é tão clara sobre isso que não titubeia em compreender que a comunhão com Deus sem comunhão com os irmãos é falsa.

Poderíamos até ousar dizer que a lógica do filme é muito semelhante à lógica cristã, se não fosse por um elemento fundamental. No mundo dos mortos reproduzido no filme, quando alguém é esquecido, deixa completamente de existir. Mas o anúncio cristão tem a dizer precisamente isto: ninguém é esquecido.

A fé cristã testemunha que Deus, em sua natureza mais íntima, é amor – e que a identidade mais profunda de cada um de nós, não importa o que tenhamos feito, é que somos amados. Deus nos ama com um amor apaixonado, nos deseja e se recorda sempre de nós – é significativo mencionar que “re-cordar” significa precisamente “trazer de volta ao coração”. “Pode uma mulher se esquecer do filho que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Ainda que ela se esquecesse, eu jamais te esqueceria” (Is 49, 15).

E mais: é nesse “jamais te esqueceria” que reside a nossa esperança da vida eterna. “A imortalidade não é fruto da impossibilidade natural do ser indivisível de não poder morrer, e sim da ação salvadora do amante que tem o poder de fazê-lo: o ser humano já não pode findar totalmente, porque é conhecido e amado por Deus”, escreveu Joseph Ratzinger, o atual papa emérito Bento XVI, em Introdução ao cristianismo.

Não há lugar para “mas” no anúncio da misericórdia

É um tema que ele desenvolve em seu livro Escatologia, em que mostra que a esperança de vida além da morte do fiel do Antigo Testamento é fundamentalmente a confiança de que Aquele que nos ama não nos deixará perecer. Não se sabe como, não se sabe o que acontece, mas se sabe de uma coisa: Ele nos ama e não se esquece de nós. A novidade cristã se insere nesse contexto, revelando de maneira insuperável o amor de Deus por nós: “Estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o futuro, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8, 38-39).

Claro, que Deus sempre se lembre de nós e nos ame não nos isenta de lembramo-nos uns dos outros e amarmo-nos uns aos outros. Pelo contrário: “é amando que se anuncia Deus-Amor”, como disse o papa Francisco – o amor que Deus tem por cada pessoa se faz concreto e palpável através do nosso amor por cada pessoa.

Permanece, porém, a novidade fundamental do anúncio cristão: se formos esquecidos por todos, o nosso Pai – em uma bela imagem legada por João Paulo I – sempre mantém junto de si, ao lado de sua cama, a fotografia de cada um dos seus filhos. É o seu amor que nos mantém vivos.

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