Pandemia

Corrida pela imunização contra a Covid-19: em que pé estão as vacinas?

  • Por Jean Pecharki
  • 27/06/2020 13:50
Há 136 vacinas em estudos ao redor do mundo que visam a proteção contra o novo coronavírus. Dez estão nas fases mais avançadas
Há 136 vacinas em estudos ao redor do mundo que visam a proteção contra o novo coronavírus. Dez estão nas fases mais avançadas| Foto: Bigstock

Desde os primeiros registros de casos da Covid-19 na China, ainda em 2019, o mundo voltou os olhos para esse novo vírus que se alastrou de forma rápida e letal pelo país asiático e pouco mais de três meses depois, em 11 de março, foi declarado como uma pandemia mundial pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Até o momento já são mais de 9 milhões de casos confirmados em 188 países, com grandes surtos atingindo os Estados Unidos, Brasil, Rússia, Índia e atravessando diversas outras regiões da Europa, como Reino Unido, Espanha, Itália, França e Alemanha.

A extraordinária capacidade de contágio do novo coronavírus tem mobilizado laboratórios e pesquisadores de todo o planeta na busca por uma solução que seja de fato eficiente para imunizar e frear sua rápida propagação. Atualmente estão em desenvolvimento 136 vacinas no mundo, a grande maioria ainda nas fases pré-clínicas, sendo que apenas dez já estão nas etapas mais avançadas de avaliação.

Nessa corrida bilionária por uma resposta global, quem está na frente é a Universidade de Oxford, no Reino Unido, que em parceria com a gigante farmacêutica Astra-Zeneca já iniciou a terceira e última fase de testes, onde são analisadas a eficácia, segurança e a capacidade da substância em fabricar uma resposta imunológica com a produção de anticorpos.

O Brasil está diretamente ligado a esse processo, sendo o primeiro país fora do Reino Unido a participar desses testes. Aproximadamente 2 mil pessoas participarão dos exames, que serão realizados com o apoio do Ministério da Saúde. Em São Paulo, os testes serão conduzidos pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e contarão com a viabilização financeira da Fundação Lemann para o pagamento de toda a infraestrutura médica e de equipamentos necessários.

E foram dois os motivos que nos credenciaram para essa escolha: o primeiro foi a capacidade científica e técnica para a fabricação de vacinas em larga escala (o Brasil é disparado o maior produtor mundial de vacinas para a febre amarela, por exemplo). Já a segunda razão é menos nobre. Somos atualmente o novo epicentro do coronavírus no mundo. Dessa maneira, para se comprovar a eficácia do imunizante é necessário estar onde o vírus tenha maior circulação e os resultados sejam mais assertivos.

"Se é preciso fazer uma comparação entre aqueles que tomaram ou não a vacina, o melhor é que você esteja em um país onde exista grande circulação do vírus. Dessa maneira ter sido ou não testado (com a vacina) fará toda a diferença", explica o médico infectologista Artur Brito, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Mas para se chegar de fato no objetivo final, que é a imunização em larga escala, o processo de desenvolvimento, fabricação e distribuição das vacinas envolve diversas etapas antes de chegar aos seres humanos. Desde a fase pré-clínica, como as pesquisas iniciais, onde são avaliadas as melhores formas de composição da vacina, até os testes em animais, a aplicação em voluntários, avaliação dos resultados finais e regulação das agências de saúde, esses estágios podem levar vários anos e até décadas para serem concluídos.

Fase exploratória

Nesta etapa é definida a melhor composição da vacina. Após a identificação do agente causador da doença (nesse caso o vírus Sars-Cov-2), avalia-se o know how de cada laboratório para saber de que maneira esse vírus será manipulado. Nesse caso, são duas as opções de fabricação.

A primeira inclui a utilização de fragmentos do vírus inativado, quando uma pequena unidade de proteína é extraída e acoplada a uma célula para estimular o processo de imunização. Por não estar completa, essa proteína perde a capacidade de propagar a doença no hospedeiro. Ela pode ser feita a partir do DNA ou do RNA do vírus. Dessa maneira, ao ser inserido por meio da vacina, as células do corpo começam a produzir o mesmo tipo de proteína do vírus e deixam o sistema imunológico em alerta para fabricar anticorpos que sejam capazes de nos proteger em caso de contaminação.

A segunda opção utiliza o vírus vivo, mas enfraquecido. Nessas vacinas normalmente o vírus é suavizado após passar por várias culturas celulares de outros animais, como macacos e coelhos, para que se adapte a um corpo semelhante ao organismo humano, porém, não consiga mais gerar infecção na nossa estrutura, mas ainda assim possa nos causar uma resposta imunológica em caso de transmissão.

Fase pré-clínica

Depois de ser definido o melhor método para o processo de desenvolvimento da vacina, são iniciados os testes in vitro e em animais vivos, como camundongos e macacos. Essa etapa tem o objetivo de verificar a segurança e o potencial de imunização do produto.

Testes clínicos

Geralmente essa é a etapa mais cara e demorada de todo o processo, pois são iniciados os testes em seres humanos e avaliadas todas as respostas biológicas e seus possíveis efeitos colaterais. De maneira geral, os testes clínicos são divididos em três fases:

Fase 1 – Segurança

É nessa etapa onde são estabelecidos os estudos de segurança da vacina e avaliadas se todas as pesquisas realizadas em laboratório de fato funcionam. São escolhidos poucos voluntários, geralmente não mais que uma dezena de pessoas para receberem a dose. Nesse ponto, não é avaliada necessariamente a eficácia da vacina e, sim, se ela tem efeitos adversos graves ou não.

"Os sintomas mais comuns são os efeitos que não inviabilizam a vacina. São as chamadas reações vacinais, que pode ser um pouco de febre, mialgia, um pouco de cefaleia, náusea, vômito em algumas pessoas. Aquilo que você lê na bula de qualquer remédio que você compra", afirma Brito.

De acordo com ele, o que pode impedir a continuidade dos testes são efeitos considerados graves como atividades cardiovasculares irregulares ou reação anafilática grave que leve a um edema de glote (inchaço da região da garganta que prejudica a passagem do ar). "Essa fase geralmente é curta e não dura muito tempo, um mês no máximo. Após a aplicação da vacina, se não ocorrer efeito adverso, fica estabelecida a segurança", diz.

Fase 2 – Eficácia

Nesse momento, com a certeza de que a vacina é segura e não produz efeitos adversos graves, é ampliado o número de voluntários para que se possa avaliar se ocorre uma produção satisfatória de anticorpos em quantidade suficiente para que eles resistam no organismo por um tempo razoável. É recrutado um número maior de pessoas, em torno de algumas dezenas e até poucas centenas, que recebem a vacina e são acompanhadas e examinadas pelos pesquisadores.

"O ideal é que essa fase possa durar alguns meses, porque eu quero saber primeiro se a vacina de fato produz anticorpo nos humanos. Em caso afirmativo, preciso avaliar ainda se essa produção é satisfatória e se eles resistem no organismo por um tempo razoável. Não adianta eu produzir uma reação imunológica e daqui a três meses não estar mais protegido", explica o infectologista.

Fase 3 – Confirmação e ampliação

Essa fase é basicamente a confirmação das fases 1 e 2 com a ampliação de vacinação para centenas e até milhares de voluntários. "Tendo a comprovação pelos testes anteriores de que a vacina é segura e sabendo que ela produz imunidade, agora é preciso saber se a imunização com algumas centenas de voluntários irá se confirmar quando ampliada para milhares de pessoas", afirma Brito.

Nessa fase os grupos são acompanhados por mais tempo, em torno de seis meses ou um ano, para saber se de fato aquelas pessoas vacinadas apresentaram uma imunidade satisfatória. "O ideal, na fase 3, é ser feito o acompanhamento de um grupo que tomou a vacina e outro de controle, que é um grupo de pessoas que não tomou a vacina, e ver se além de produzirem anticorpos e não terem apresentado efeitos adversos graves, se aquelas pessoas de fato tiveram menos doença do que as que não foram imunizadas, uma vez que as duas partes estão expostas ao mesmo microrganismo", conclui.

Após a finalização da fase 3 é dado início ao processo de obtenção do registro sanitário por parte dos órgãos reguladores. Depois disso a nova vacina pode começar a ser disponibilizada para a população.

Coronavírus acelera processo de produção

A gravidade da pandemia causada pela Covid-19 tem feito com que muitas empresas farmacêuticas ou laboratórios acelerem seus processos de produção para garantir uma distribuição mais rápida aos países com focos da doença. As previsões mais otimistas são de que o registro da vacina da Oxford, no Reino Unido, ocorra ao final deste ano. Entretanto, o registro formal deve acontecer apenas após a conclusão dos estudos realizados em todos os países participantes dos testes.

De acordo com o infectologista Artur Brito, foram observadas algumas situações nessa pandemia para tentar encurtar o processo de fabricação e distribuição da vacina. Algumas pesquisas, como do Reino Unido, unificaram as fases de testes clínicos 1 e 2, que foram realizadas ao mesmo tempo. "Os pesquisadores avaliaram a segurança e a eficácia do produto aplicando a vacina em um número maior de voluntários. Dessa forma eles dosaram o anticorpo para tentar adiantar o procedimento", diz.

Ainda segundo Brito, grandes laboratórios iniciaram a construção de suas plantas industriais para produção em larga escala da vacina, mesmo sem terem sido realizados todos os testes necessários. "Vários laboratórios, com apoio de governos ou recursos privados, já estão criando plantas industriais para uma vacina que sequer existe ainda como produto final". A intenção é que a distribuição ocorra da maneira mais rápida possível.

Ele reforça, porém, que o "atalho" utilizado na produção do imunizante não interfere de maneira alguma na qualidade do produto e que o recurso já foi utilizado em outras situações de epidemia na história recente. Um exemplo foi a vacina de poliomielite que logo após ter sido aprovada nas fases 1 e 2 foi aplicada em 400 mil pessoas de uma só vez em 1954 nos Estados Unidos. "Foi uma das maiores imunizações em massa da história", ressalta.

Importância da ciência básica

O médico Artur Brito destaca a importância dos investimentos em pesquisas, mesmo para aqueles medicamentos ou vacinas que não encontram um mercado relevante atualmente. Segundo ele, se não fosse o estudo realizado pela Oxford ao longo dos últimos 10 anos, a nova vacina contra a Covid-19 poderia demorar muito mais tempo para ser desenvolvida.

"Precisamos mostrar como a ciência básica é relevante. É importante que as pessoas entendam que a ciência não se produz da noite para o dia. Se não financiarmos projetos e pesquisas contra enfermidades, mesmo que não nos causem grandes preocupações no período atual, quando ocorre um surto desses ficamos sem alternativa a não ser começar do zero. Hoje só teremos uma vacina contra a Covid-19 porque essa pesquisa não começou agora, caso contrário, enfrentaríamos um período muito mais longo de pandemia", adverte.

Outras vacinas em desenvolvimento no Brasil

Recentemente o Instituto Butantan e o Governo de São Paulo anunciaram que vão testar e produzir uma vacina inédita contra o coronavírus no país. A pesquisa acontecerá em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. O acordo prevê testagem em 9 mil voluntários no Brasil e fornecimento de doses até junho de 2021, caso a imunização se prove eficaz e segura. De acordo com o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, a vacina é promissora e poderá ser disponibilizada em tempo recorde na rede pública de saúde.

Já a Universidade Federal do Paraná (UFPR) comunicou na última semana que cientistas da instituição estão utilizando nanotecnologia para desenvolver uma vacina contra a Covid-19. A técnica consiste em produzir nanopartículas que imitam os antígenos do vírus, ativando o sistema imune contra a doença. O método escolhido proporciona baixo custo no produto final e pode ser replicado em vacinas para outras enfermidades.

O projeto tem financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

"A vantagem é que elas não causam prejuízo ao nosso organismo e são biocompatíveis, ou seja, as partículas circulantes no sangue serão degradadas pelo organismo assim que cumprirem a missão de ativar o sistema imune contra o novo coronavírus", explica Marcelo Müller dos Santos, professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFPR. Atualmente o projeto está na fase pré-clínica.

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