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Aos poucos a manipulação faz com que a pessoa que está sendo manipulada deixe de ser quem se é para ser uma extensão da pessoa que está manipulando.| Foto: Bigstock

Existem vários tipos de relações pessoais que fazem mal, mas poucos unem sutileza à nocividade de tal forma quanto uma relação de manipulação.

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Relações assim nos envolvem emocionalmente com intensidade, expondo-nos a pessoas que só pensam em si mesmas e deixando um rastro de estragos pelo caminho. Mas como identificar uma relação assim — e o que fazer depois?

Quando ocorre manipulação

Antes de qualquer coisa, é preciso entender o que caracteriza uma relação de manipulação. Em qualquer relacionamento, um dos lados pode ter uma capacidade de comunicação melhor que o outro. "Porém, ser mais eloquente e persuasivo não torna alguém necessariamente uma pessoa manipuladora”, explica o psicólogo Matheus Vieira. 

E quando acontece a manipulação, segundo ele, há uma diferença de poder, uma hierarquia. "Quem manipula detém o poder da situação e quem é manipulado fica submisso”, pontua Vieira.

“A satisfação da pessoa manipuladora é deter esse poder. Aos poucos a manipulação faz com que a pessoa que está sendo manipulada deixe de ser quem se é para ser uma extensão da pessoa que está manipulando”.

O psicólogo aponta alguns traços que ajudam a identificar um indivíduo manipulador. Confira:

  • Ele é narcisista, mas discreto. “Um manipulador é antes de mais nada alguém egocêntrico. Mas se isso fosse muito escancarado, a manipulação seria revelada”, avalia Vieira. “Então também é alguém que consegue se colocar sempre como o centro, mas disfarçando bem”.
  • Ele analisa bem a pessoa a quem quer manipular. “O manipulador conhece os pontos fracos da outra pessoa, em que ela é vulnerável, porque é desses pontos que o manipulador se aproveita para fazer dela uma espécie de refém”, explica o psicólogo. 
  • O seu envolvimento emocional é em boa medida fictício. “Uma pessoa manipuladora dificilmente se conecta emocionalmente. Se ela se envolve, perde a força de manipulação, perde seu lugar na hierarquia”, diz Vieira. “O manipulador não ama a outra pessoa: ama o poder que tem sobre ela”.
  • Ele se aproveita de um discurso vitimista. “Muitas vezes, no modo como fala, a pessoa manipuladora se coloca como vítima: fala das violências por que passou, de como foi tratada mal, etc.”, conta o psicólogo. “Ela usa esse discurso para que a pessoa com quem está agora faça diferente. Por exemplo, o manipulador diz que tem um trauma porque a sua ex não lhe permitia fazer o que ele queria no antigo relacionamento. Então ele usa esse discurso com a pessoa atual para dizer que ela precisa permitir tudo, porque do contrário vai remetê-lo àquele trauma”.
  • Ele usa e abusa da triangulação. “‘Bem que meus amigos falaram que você é esse tipo de gente’, ‘bem que sua mãe me alertou que quando você bebe você fica assim’: o manipulador usa terceiros elementos para validar a sua opinião”, explica Vieira. “Ele traz à questão outras pessoas que não podem nem explicar a sua posição real e as usa para ganhar força e fazer com que a pessoa manipulada se sinta em minoria”.
  • Ele faz o outro se sentir culpado. “O manipulador faz a outra pessoa se sentir culpada porque é através dessa culpa que ele ganha poder e obtém possibilidades de manipulação”, diz o psicólogo. “Ele nunca é o culpado, nunca é o responsável: ele é sempre uma vítima, alguém que está tentando fazer o melhor”.

Sem discussão

Uma vez reconhecido o processo de manipulação, o que fazer? A dica é se afastar, tanto quanto possível. “Não adianta discutir, porque a pessoa manipuladora cresce em cima de possibilidades argumentativas”, aponta Vieira. “Não dá para promover a conversa, porque ainda se corre o risco de entrar no jogo da pessoa”.

“A melhor coisa a se fazer quando entendemos que estamos diante de alguém manipulador é ficar longe”, aconselha o psicólogo.

É possível se afastar totalmente de alguém com quem se teve uma relação de amizade ou de namoro. Porém, e se se tratar de um pai, uma mãe, um filho, ou de outra pessoa de quem não consigamos nos afastar totalmente? 

“Aí é preciso aprender a colocar barreiras. É preciso aprender a dizer não.  O manipulador trabalha invalidando outras pessoas, então é preciso não se permitir ser invalidado”, diz Vieira.

“O processo terapêutico pode nos ajudar a reconhecer os nossos pontos vulneráveis e nos ensinar a nos posicionarmos de maneira mais assertiva diante do mundo — e, assim, a não permitimos que nossas inseguranças se tornem armas nas mãos de um manipulador”.

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