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Religião

A coragem e as controvérsias de dom Paulo Evaristo Arns

O empenho do cardeal pelos direitos dos menos favorecidos é a principal marca de sua trajetória, mas sua proximidade com a esquerda política o deixa longe de ser uma unanimidade entre os católicos

Com a morte de dom Paulo Evaristo Arns, ocorrida nesta quarta-feira (14/12), o Brasil não perde apenas um dos cardeais mais famosos de sua história, como também um dos principais articuladores da redemocratização do país. O arcebispo emérito de São Paulo, que esteve à frente da Igreja Católica na capital paulista de 1970 a 1998, se destacou pela atuação corajosa durante os anos da ditadura militar e pela preocupação com os direitos mais básicos das pessoas desfavorecidas da periferia paulistana. Apesar disso, sua proximidade com grupos socialistas e o fato de ter se tornado um dos defensores da teologia da libertação no país,  fizeram com que seu nome esteja longe de ser uma unanimidade entre os católicos do Brasil.

Arns nasceu em Forquilhinha, no sul de Santa Catarina, em 14 de setembro de 1921 – o quinto de treze filhos, entre os quais se contava Zilda Arns, a fundadora da Pastoral da Criança. Em 1934, entrou na Ordem dos Frades Menores, os franciscanos, realizando os primeiros estudos em Rio Negro (PR) e o noviciado em Rodeio (SC). Estudou filosofia em Curitiba e teologia em Petrópolis (RJ), onde foi ordenado padre, em 1945.

O frei Paulo. Foto: Arquidiocese de São Paulo.
O frei Paulo. Foto: Arquidiocese de São Paulo

Dois anos depois, partiu para Paris, onde se doutorou em letras pela Universidade de Sorbonne, especializando-se em literatura antiga. Segundo o frei Clodovis Boff, teólogo e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o estudo dos Padres da Igreja – os bispos e teólogos dos primeiros séculos do cristianismo que desenvolveram a doutrina da Igreja – impulsionou a luta de Arns em favor dos necessitados. São Jerônimo, por exemplo, tema da tese doutoral do então frade, dizia que “a opulência é sempre fruto do roubo”.

Boff era uma das 8 mil pessoas que lotaram a Catedral da Sé no dia 31 de outubro de 1975, quando Arns, já arcebispo de São Paulo, se uniu a outros líderes religiosos, como o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright, para um ato em memória do jornalista Vladimir Herzog. “A polícia estava na porta e fotografava todos que entravam e saíam”, conta o teólogo. Herzog tinha sido torturado e morto dias antes pelo regime, que divulgou a versão de que ele teria se suicidado. Para muitos, o ato foi o início do fim da ditadura.

Foi logo após assumir a Arquidiocese de São Paulo que Arns se tornou uma das maiores vozes contra a prática da tortura no regime, denunciando-a no Brasil e no exterior. Um padre e uma assistente social da cidade haviam sido presos e o arcebispo foi visitá-los no Presídio Tiradentes. “Foi vestido de bispo, sem pedir licença a general nenhum”, conta Boff. “Ele os encontrou torturados. Ficou indignado. Escreveu um texto curto e forte de denúncia, que pediu que fosse lido no lugar da homilia em todas as paróquias no domingo seguinte”.

A Catedral da Sé lotada em outubro de 1975, no ato em memória de Herzog. Foto: Confederação Israelita do Brasil
A Catedral da Sé lotada em outubro de 1975, no ato em memória de Herzog. Foto: Confederação Israelita do Brasil

Arns chegou a ir a Brasília, entregar ao general Médici um documento escrito pelos bispos paulistas, em que se pedia o fim da tortura contra os dissidentes. O presidente, irritado, deu um murro na mesa e disse ao arcebispo: “O senhor fique na sacristia, que da ordem pública cuidamos nós!” Até mesmo o padre Zezinho, famoso por suas composições musicais, diz que foi salvo da prisão por Arns duas vezes. “Eu tinha dito que queria os jovens votando, porque nenhum país é livre se sua juventude não é chamada a votar”, conta o padre.

Em 1998, Arns deixou a liderança da arquidiocese, renunciando por causa da idade. Desde 2012, ele era o cardeal mais antigo de todos ainda vivos, tendo sido nomeado pelo papa Paulo VI, em 1973. Com a sua morte, o último cardeal nomeado por Paulo VI que ainda está vivo é o papa emérito Bento XVI, que completa 90 anos em abril.

Arns vivia retirado em Taboão da Serra (SP), junto de religiosas da congregação fundada por ele, as Irmãs Franciscanas da Ação Pastoral. Em julho, havia recebido uma carta do papa Francisco, saudando-o pelos 50 anos como bispo. “Quem não conheceu a tua grande dedicação na promoção dos direitos dos pobres, na defesa da vida digna para todos, na ajuda às famílias e aos oprimidos!”, escreveu o papa.

 

Reprodução/YouTube
Arns, em evento do MST (Reprodução/YouTube).

Controvérsias

Em 1989, o jornal do Partido Comunista Cubano, Granma, publicou uma carta de Arns ao ditador Fidel Castro em que o arcebispo dizia que “a fé cristã descobre, nas conquistas da Revolução Cubana, os sinais do Reino de Deus que se manifesta em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor”. A carta é motivo de escândalo até hoje entre aqueles que denunciam os assassinatos praticados pelo regime de Fidel. Influentes articulistas conservadores, como Olavo de Carvalho, Percival Puggina e Júlio Severo, são alguns dos que relembraram em textos o que apontam ser uma das maiores contradições na vida cristã do cardeal Arns

Chamado de “bispo vermelho” por seus detratores, Arns é acusado de ter ajudado, inclusive financeiramente, na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e no lançamento de Lula como liderança nacional. Somente duas décadas depois, em 2005, é que o cardeal chegou a dizer que estava “decepcionado” com o escândalo do mensalão.  “Depois que ele disse que todos os partidos costumam ter essa mesma prática, ficamos inteiramente convencidos de que o Lula sabe da coisa e não toma as iniciativas que deve tomar”, disse, em entrevista para O Globo.

O entusiasmo de Arns pelas chamadas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) também o distaciava dos bispos mais tradicionais. Isso por que esses grupos, que diferenciavam-se das pastorais comuns principalmente por seu foco na atuação política e social, tendendo à interpretação bíblica inspirada na chamada teologia da libertação, que mescla elementos do marxismo – como a luta de classes – coma  fé cristã. Vários aspectos dessa vertente teológica foram condenados pela Igreja Católica em 1984, num documento entitulado Libertatis Nuntius, publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida na época pelo cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornaria o papa Bento XVI.

O historiador irlandês Eamon Duffy, em seu livro “Santos e Pecadores: uma história dos papas”, chega a dizer que as predileções políticas de Arns e o uso da estrutura eclesial para difundir suas ideias foi uma das razões que motivou o papa João Paulo II, em 1989, a subdividir a arquidiocese de São Paulo em cinco novas sés, sem o consentimento de Arns, e entrega-las a bispos mais fiéis ao ensino tradicional da doutrina católica.

Esse suposto embate oculto com João Paulo II, diz Duffy, foi um momento decisivo no qual a influência de Arns foi “neutralizada” e a teologia da libertação passou a perder força no país, pouco a pouco.

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