Enxergar além

Converter-se: uma necessidade para além da religião

  • Por Felipe Koller
  • 17/02/2021 17:00
Todo homen precisa de uma metanoia, ou seja, viver a partir de uma consciência do todo.
Todo homen precisa de uma metanoia, ou seja, viver a partir de uma consciência do todo.| Foto: Bigstock

Na Quarta-Feira de Cinzas, os católicos dão início ao tempo da quaresma, um período de preparação para a Páscoa. Como na noite de Páscoa acontece a renovação das promessas do batismo, a quaresma tem o propósito de ser um período de redespertar para o próprio caminho de conversão.

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É o tema que perpassa esse tempo litúrgico, como reza a frase dita sobre cada fiel na hora em que recebe as cinzas, na celebração da quarta-feira: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Mas é também uma boa ocasião para enxergar o tema da conversão como uma experiência humana, mais ampla do que a mudança de religião ou mesmo a simples mudança de hábitos.

“A literatura grega antiga usa duas palavras para falar de conversão: metanoia e epistrophé. E é interessante que esses termos aparecem mais para falar do contexto das escolas filosóficas do que de religião”, explica Bernardo Brandão, doutor em Filosofia e professor de Grego Antigo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Isso porque a religião pagã é questão de fazer ritos. A pessoa não se convertia de um paganismo para outro. Mas as escolas filosóficas, por outro lado, apresentam um modo de vida e uma visão de mundo. Pertence-se a uma ou a outra”.

No contexto da Antiguidade, quando alguém se acercava a uma corrente filosófica, o que acontecia era tido como um processo de conversão. “Adota-se um modo de vida, estuda-se as crenças da escola e faz-se os exercícios espirituais para que de fato a pessoa chegue a viver daquela maneira e ter a vida interior proposta pela escola. Aí acontece a epistrophé, que significa literalmente um giro, o ato de virar para outra direção”, esclarece Brandão.

Já o termo metanoia indicava uma transformação do nous, um conceito que pode ser traduzido por inteligência ou intelecto, mas que ao longo do tempo ganhou a conotação de centro espiritual do ser humano. “É a mudança daquilo que é central no ser humano. Meta significa ir além: o nosso nous vai para além, se expande”, afirma o professor. “Não se trata simplesmente de mudar de sentimentos, visão de mundo ou estilo de vida, embora também seja tudo isso, mas é uma expansão: o mundo se tornou maior”.

Para além do rasteiro

É claro que uma mudança que opera naquilo que é mais central em nós tem um impacto em toda a nossa vida. E é nesse impacto que percebemos a necessidade que temos hoje de uma conversão. “No mundo de hoje estamos voltados para as coisas mais fugazes: uma notícia que hoje desperta a atenção e amanhã já foi esquecida, a opinião dos outros nas redes sociais — precisamos de uma metanoia, ou seja, viver a partir de uma consciência do todo”, avalia Brandão.

Em alguma medida, todos nós conhecemos o potencial nocivo dessa atenção dispersa em curtidas nas redes sociais, disputas políticas mesquinhas e fuga constante da própria interioridade.

“Precisamos fazer a epistrophé: o voltar a atenção às coisas permanentes, que estão aqui e agora, mas em que não prestamos atenção porque estamos preocupados com coisas um tanto inúteis. Precisamos ter uma metanoia: uma mudança de coração, uma transformação da inteligência, para viver nesse mundo mais amplo das coisas que importam”, indica o professor.

Trata-se de compreender que o poder e a influência que temos sobre os outros, ou o acúmulo de bens materiais, não são o que há de mais central. Há algo de verdadeiramente libertador em ampliar o horizonte para conseguir enxergar além daquilo que é fugaz e ancorar a nossa vida nesse além.

“Precisamos redescobrir que a lógica do mundo se faz pela realidade do dom”, aponta Brandão. “Neste mundo em que estamos inseridos, a gente sempre pensa no que vai fazer para ganhar algo em troca. Ou, pior ainda, numa atitude puramente predatória, queremos receber algo sem sequer dar algo em troca”.

“Mas o ser humano é um ser que em seu nível mais elevado quer transbordar a sua plenitude. No fundo é assim que queremos viver”, afirma o professor. “Queremos tanto ser amados porque também queremos ter permissão para amar incondicionalmente. É assim que encontramos uma felicidade humana mesmo, e não meramente um prazer ou um conforto animais, fugazes”.

Por isso, é um processo que não pode ser reduzido a uma mudança superficial no comportamento ou na compreensão teórica da realidade. “É um exercício de autoconhecimento. É algo de que temos que tomar consciência, e não só uma teoria”, explica Brandão.

“Trata-se de entender que o fundamento de uma existência humana plena é um dom, e assim nos convertermos, ou seja, começar a pensar em tudo nessa lógica, de fazer o bem, cultivar o belo e buscar a verdade sem esperar retorno”, indica o professor. “É aí que vivemos plenamente como seres humanos e escapamos da armadilha do nosso tempo”.

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