Práticas religiosas na infância e adolescência podem fortalecer bem-estar na vida adulta
| Foto: Unsplash/Ben White

Atenção à interioridade, pertença a uma comunidade, dedicação ao próximo e fortalecimento da identidade. Essas são algumas das características que acompanham a infância e a adolescência de alguém habituado a participar da vida de uma comunidade religiosa. E tudo isso pode fazer uma grande diferença anos depois, na vida adulta, tendo um impacto positivo sobre a sensação de felicidade e de bem-estar.

É o que sugere um estudo assinado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard publicado em 2018. A pesquisa apontou que pessoas que frequentaram cultos religiosos ou tinham práticas diárias de oração ou meditação na juventude reportaram maior positividade e satisfação em relação à vida entre os 23 e os 30 anos – além de serem menos propensas a ter sintomas depressivos, a apresentar infecções sexualmente transmissíveis e a consumir cigarro e drogas ilícitas –, quando comparadas com pessoas com menos hábitos religiosos regulares na juventude.

Uma das pesquisadoras envolvidas no estudo, Ying Chen, afirmou na ocasião da publicação do artigo que as descobertas contribuem tanto para uma melhor compreensão da saúde como para um melhor entendimento das práticas de parentalidade. “Muitas crianças são educadas religiosamente e nosso estudo mostra que isso pode afetar poderosamente seus hábitos de saúde, sua saúde mental e a felicidade e o bem-estar em geral”, disse Chen.

O estudo analisou dados de saúde relacionados ao período entre os 8 e os 14 anos de idade de mais de 5 mil jovens e de suas mães. Segundo os resultados, pessoas que frequentavam cultos religiosos na infância e na adolescência são cerca de 18% mais propensas a reportar alto nível de felicidade na fase inicial da vida adulta – entre os 23 e os 30 anos – do que pessoas que nunca iam a serviços religiosos. Elas também são 29% mais propensas a assumir serviços de voluntariado e 33% menos propensas a fazer uso de drogas ilícitas.

“Muitos outros estudos mostram que tanto a religião quanto a espiritualidade são fatores muito mais benéficos do que maléficos para a saúde e o bem-estar”, comenta o psicólogo Gabriel Resgala. O teólogo Jefferson Zeferino, professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PPGT/PUCPR), concorda: para ele, a participação em uma religião ou em práticas de espiritualidade realmente tende a auxiliar os jovens a enfrentarem a vida.

“As religiões são com frequência também espaços de educação para a interioridade. Essa capacidade de olhar para dentro de si pode levar a um melhor autoconhecimento, domínio próprio, disciplina no dia-a-dia, entre outras atitudes avaliadas de modo bastante positivo em distintas religiões”, diz Zeferino. “Também é comum que a espiritualidade leve a uma visão de mundo menos consumista, fazendo com que o jovem questione modos de vida que valorizam mais o ter do que o ser. Nesse sentido, a busca pela felicidade se torna algo mais valioso do que a busca pelo sucesso financeiro. Existe uma percepção de que há algo mais na vida e de que este algo está relacionado a uma espiritualidade e a relacionamentos saudáveis”.

Nuances

O teólogo, porém, aponta que é necessário o cultivo do senso crítico, de modo a ficar de olho em formas de engajamento religioso que podem acabar prejudicando a própria saúde mental e contribuir de modo negativo no espaço público. “Não se deve negligenciar o fato de que muitas vezes as religiões acabam sendo responsáveis por visões fechadas e fundamentalistas da realidade, fazendo com que se repliquem velhos preconceitos por vezes revestidos com uma cara jovem”, alerta.

É o que também sublinha Resgala: “Nem toda experiência religiosa é positiva. Fazemos essa diferenciação com o conceito de coping, que é a forma como a pessoa tende a enfrentar o estresse do dia a dia”, explica o psicólogo. “O coping religioso ou espiritual pode ser positivo ou negativo. Na maioria das vezes é positivo, mas é negativo quando, por exemplo, induz de forma excessiva à culpa, a restrições em relação a padrões sociais, ao isolamento social, ao moralismo, ao medo ou à agressão – como temos visto em determinados grupos religiosos. Já o coping positivo está ligado à capacidade de discernir entre aquilo que a pessoa interpreta como vontade divina e aquilo que ela acredita ser sua própria responsabilidade”.

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