Pioneiro das comunidades terapêuticas, Padre Haroldo Rahm deixou um rastro de bem por onde passou

  • Por Felipe Sérgio Koller
  • 09/12/2019 16:05
Divulgação/Instituto Padre Haroldo
Divulgação/Instituto Padre Haroldo| Foto:

É possível que você nunca tenha ouvido falar do Padre Haroldo Rahm. O jesuíta texano, no Brasil desde 1964, morreu no dia 30 de novembro, aos 100 anos, em São Paulo. Mas é difícil que nunca tenha ouvido falar da Renovação Carismática Católica (RCC), do Treinamento de Liderança Cristã (TLC) ou de comunidades terapêuticas voltadas a dependentes químicos. Na raiz da presença de cada uma dessas obras no Brasil, está o trabalho do Padre Haroldo.

Harold Joseph Rahm nasceu em Tyler, em 1919, e entrou na Companhia de Jesus em 1937. Ordenado em 1950, passou os primeiros anos de seu ministério em El Paso, em uma paróquia a dois quarteirões da fronteira com o México. O seu trabalho junto aos jovens na prevenção da criminalidade, com a fundação do Our Lady’s Youth Center, se tornou um dos mais reconhecidos dos Estados Unidos.

Devolver o gosto pela vida, pois a droga já maltratou demais: como atua essa comunidade terapêutica

“Lá ele fez um trabalho de tirar os jovens das gangues. As crianças e adolescentes de 8 a 13 anos que ele acolheu se tornaram as lideranças à frente da cidade. Ele mudou completamente a realidade local”, conta Geraldo Rossi, de 62 anos, que trabalhou ao lado do padre nos últimos 15 anos e é membro da diretoria do Instituto Padre Haroldo, que coordena os projetos sociais fundados pelo jesuíta.

O padre foi o pioneiro das comunidades terapêuticas no Brasil, tendo fundado a primeira delas, a Fazenda do Senhor Jesus, em 1978, em Campinas. Foi o início da Associação Promocional Oração e Trabalho (APOT), que Rahm dirigiu até 2009. No ano seguinte, o órgão foi rebatizado com o seu nome. Nesses mais de 40 anos de trabalho, pelo menos 100 mil pessoas em tratamento para a dependência química passaram pelas casas mantidas pelo instituto.

Sabedoria

“Conheci o Padre Haroldo em 1995, aos 37 anos, quando, procurando respostas para uma depressão que me devorava a alma, participei de um retiro dirigido por ele. Só quem viveu uma depressão sabe como ela tira a motivação de viver”, conta Rossi. “No final do retiro fui me confessar com o Padre Haroldo. Eu estava feliz e em paz, e queria que aquilo perdurasse”.

“Falei: ‘Padre, você me fez um bem indescritível. O que eu posso fazer para te ajudar?’ Ele respondeu: ‘Me ajude a cuidar dos meus jovens’. Perguntei: ‘Como?’ ‘Venha aqui contar histórias para eles’. ‘Mas eu não tenho histórias para contar. Meu quadro de depressão não ajuda muito’, respondi. Ele orientou: ‘Pega uma passagem da Bíblia, estuda um pouquinho e transmite o que você entendeu dela’”, relata Rossi.

“Todas as vezes em que pude estar e conversar com ele, me sentia extremamente privilegiado pela sabedoria que ele transmitia”

Rahm pediu que ele começasse o voluntariado no dia seguinte, uma segunda-feira. “‘Padre, mas eu trabalho’, disse a ele. Ele respondeu: ‘Que horas você trabalha? Aqui a gente começa o dia às 6 horas da manhã. Você pode vir aqui amanhã às 6 horas?’ Eu não tinha desculpa para falar que não ia”. Desde então, Rossi faz um momento de espiritualidade com os acolhidos pelo instituto todas as semanas.

“A ideia que eu tinha de um dependente químico é a de um cara perigoso, que você deve evitar. Minha família falou que eu iria encontrar lá um monte de bandidos e ladrões. Eu fui preocupado com isso – deixei carteira, relógio e celular em casa”, conta. “Quando entrei na capela e fiquei diante daqueles jovens, eles pareciam os meus filhos e os amigos dos meus filhos. Eu realmente comecei a amar aquelas vidas”.

O padre aprovou o trabalho de Rossi e a depressão desapareceu. “Todas as vezes em que pude estar e conversar com ele, me sentia extremamente privilegiado pela sabedoria que ele transmitia”, afirma. “Foi uma obra voltada ao coração do marginalizado. Ele era o amor ao próximo em pessoa”.

Humildade

Foi um convite de Rossi para colaborar com as obras fundadas por Rahm que aproximou Julio Borges, hoje com 36 anos, do padre. O jovem, que deixou as drogas em 2008, deu seu primeiro testemunho sobre a experiência em um momento de espiritualidade conduzido por Rossi no instituto. “Aquilo me tocou profundamente e me apaixonei pela obra do padre”, conta Borges.

Reprodução/ Facebook Julio C Borges Reprodução/ Facebook Julio C Borges

Desde então, ele conviveu de perto com o padre. Teve o seu segundo livro, “Eu escolho Deus todo dia”, revisado e prefaciado por Rahm. “Recentemente, eu o encontrei e lhe disse que o amava muito. Fazia onze anos que ele estava na minha vida. Ele carinhosamente disse que também me amava e perguntou: ‘E o terceiro livro?’” Era o jeito do padre: a todo o tempo, promover quem ele encontrava pela frente e fazer a roda girar para espalhar o bem.

“Aproveitei muito a companhia dele nesse tempo todo. Me confessava, conversava, pedia conselho, abraçava, aprendi muito. Tive a honra de conviver com esse homem, que para mim é santo. Teve seus defeitos, é humano como todo mundo, mas é um santo”, garante Borges.

“Viveu de forma extremamente humilde. O quarto dele era extremamente simples. Praticamente uma cama montada em cima de caixotes. E muitos livros, todos muito estudados e rabiscados”, acrescenta Rossi. “Uma vez perguntei a ele: ‘Padre, o senhor não cansa de ler a Bíblia?’ ‘Cada vez que eu abro a Bíblia é como se fosse a primeira vez’, respondeu”.

Pioneirismo

Em Campinas, assim que chegou ao Brasil, o jesuíta fundou ainda o Centro Social Kennedy, voltado ao ensino profissionalizante, e iniciou um trabalho junto a mulheres em situação de prostituição, que hoje é o Centro de Promoção para um Mundo Melhor (Cepromm). Em 1969, começou a organizar os primeiros retiros de cunho carismático – foi através deles que Jonas Abib, fundador da Comunidade Canção Nova, teve contato com a RCC.

Em 1984 iniciou o movimento Amor Exigente, focado na prevenção ao uso de drogas, e em 1990 fundou a Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract) para qualificar e certificar o trabalho dessas organizações pelo país. Foi também o cofundador da Federação Latino-Americana de Comunidades Terapêuticas (FLACT), da Federação Mundial (WFTC, na sigla em inglês) e da Pastoral da Sobriedade.

Programa de apoio às famílias de dependentes atua há 31 anos com foco em testemunhos

Marcelo Fortunato, de 45 anos, fundador da Comunidade Terapêutica Perpétuo Socorro, em Quatro Barras (PR) – que foi tema de uma reportagem recente do Sempre Família –, conheceu o Padre Haroldo justamente em um congresso do Amor Exigente, 16 anos atrás.

“Minha família já participava e eu não. Conseguiram me levar. Era um congresso muito grande com muita gente. Quando o Padre Haroldo chegou lá, eu estava por acaso do lado de fora, fumando. Ele olhou para mim e falou: ‘Você. Venha aqui’. Fui até ele. Vi que era padre, pois estava de clergyman. Ele me disse assim: ‘Você vai conseguir parar de usar drogas e vai ajudar muita gente ainda. Hoje você vai ficar encarregado de ser meu assessor’. O padre me deu a pequena mala preta que carregava e me fez andar do lado dele onde quer que ele fosse”, relembra Fortunato.

Divulgação/Instituto Padre Haroldo Divulgação/Instituto Padre Haroldo

“Depois desses três dias, ele me deu o número de telefone dele e pegou o telefone da minha família. Ele passou a ligar regularmente para ver como estávamos. Depois daquilo, consegui ir para um grupo de apoio e ficar seis meses sem usar drogas. Mas recaí e me perdi mais dois anos usando drogas. Ele continuava ligando, mas eu tinha vergonha”, conta. Depois disso, Fortunato foi acolhido numa comunidade terapêutica e, ao sair, decidiu se dedicar à causa. Rahm deu uma bolsa para ele fazer um curso da Febract e nunca faltou com a sua orientação e ajuda na fundação de uma nova comunidade.

“Foi uma pessoa que me marcou bastante, por quem eu tenho um carinho muito especial, por ter feito tudo o que fez por mim”, diz Fortunato. É difícil imaginar quantas pessoas pelo Brasil podem dizer o mesmo – que devem muito daquilo que são ao Padre Haroldo. A sua fecundidade foi impressionante. “Nem sempre ele mesmo tocava essas ideias adiante, mas ele dava início e escolhia as pessoas certas para dar continuidade”, explica Rossi. “Ele era como o pai da parábola do filho pródigo, sempre esperando pela volta do filho”.

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