Amor ao próximo

Eles levaram seis moradores de rua para viver dentro de casa e ainda querem fazer mais

Liliane Rocha Nunes e Marcos Rodrigues acolhem pessoas em sua casa em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba

  • Por Raquel Derevecki
  • 22/12/2019 18:00
Liliane Rocha Nunes e Marcos Rodrigues acolhem pessoas em sua casa em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba
| Foto: Arquivo pessoal

Sentado à mesa para compartilhar o café da manhã com sua família, o paranaense Sebastião Macario da Silva sorri, comenta a respeito dos livros que começou a ler esta semana e conta diversas experiências que viveu nos últimos meses. “Agora a gente passeia, come junto e tenho abertura para contar qualquer problema, algo que eu só tinha vivido na minha infância”, relata o paranaense de 51 anos.

Natural de Paranavaí, a 70 quilômetros de Maringá, ele perdeu a mãe aos cinco anos de idade após um ataque cardíaco, mudou-se para Curitiba na tentativa de vencer o trauma, mas sofreu outro impacto ao chegar à capital do estado: “aqui meu pai teve um derrame cerebral e faleceu quando eu tinha 11 anos”, relata. Órfão e sem parentes por perto para ajudá-lo, Sebastião passava os dias na rua em busca de alimento e abrigo. “Eu engraxava sapatos, tinha a carteirinha da biblioteca pública para ler alguns livros e fazia qualquer trabalho para conseguir comida”.

Além disso, sempre que reunia valor suficiente para alugar um cômodo em algum bairro da cidade, deixava as pontes e praças para sentir-se em casa, mesmo que fosse somente por alguns dias. “Essa é a diferença entre o morador de rua e a pessoa em situação de rua”, descreve em entrevista à Gazeta do Povo. “Eu não estava daquele jeito porque queria. Minha vontade era sair dali, trabalhar, ter um lugar para viver e ter dignidade. Só que faltava oportunidade”.

Por isso, não pensou duas vezes diante do convite feito pelo casal Liliane Rocha Nunes e Marcos Rodrigues em março de 2019. “Eles falaram que tinham um projeto para acolher pessoas na casa deles, e eu vim”, conta Sebastião, que passou a viver com os paranaenses e seus dois filhos adolescentes. “Eles me tratam igual os meninos, e eu me sinto realmente parte dessa família”, conta. Só que o Sebastião que hoje conversa, ajuda nas tarefas da casa e se diverte com os garotos de 10 e 15 anos não é o mesmo que chegou à residência oito meses atrás.

De acordo com Liliane, o homem passou quatro décadas vivendo sozinho pelo Centro de Curitiba, então chegou à casa da “Família Rodrigues” muito quieto e desconfiado. “Ele não gostava de estar com outras pessoas e quase não falava a respeito da vida dele”, recorda a vendedora. “Mas foi mudando aos poucos e esses dias até emocionou todo mundo ao contar que via homens e mulheres indo para casa com a sacola de pão no fim da tarde e sonhava com o dia em que teria aquela oportunidade também”, relata a moradora de Pinhais, região metropolitana da capital.

Hoje, além de ter uma família para dividir o lanche da tarde e todas as outras refeições do dia, Sebastião conversa com desenvoltura, está preparando seus documentos para voltar a estudar e já iniciou sua busca por um emprego. “Sem contar que também espero formar minha própria família um dia”, afirma o paranavaiense, que atualmente ajuda seus padrinhos a cuidarem de outros cinco acolhidos dentro de um sobrado alugado no bairro Weissópolis.

Rotina familiar

Com idades que variam entre 21 e 48 anos, os outros homens foram acolhidos no segundo semestre de 2019 e cada um deles recebeu roupas, produtos de higiene e uma vaga na residência para descansar, aproveitar os benefícios do convívio em família e reencontrar o gosto pelas coisas simples da vida. “No meu caso, por exemplo, eu amo ler e atualmente ‘devoro’ de dois a três livros por semana”, afirma Sebastião, que também gosta de ouvir os companheiros tocarem violão e, de vez em quando, assiste a algum filme. “Não sou muito chegado à bagunça, mas como são dez pessoas morando na mesma casa, é difícil ficar sozinho aqui”, brinca.

"Eles vivem a rotina de uma família real, entendem que não precisam desistir de tudo após um conflito e aprendem valores nas atividades do dia a dia"

E os responsáveis pelo projeto fazem questão de ver essa interatividade em casa. De acordo com Liliane, todos se reúnem pela manhã para tomar o desjejum ao redor da mesa e conversam a respeito do que fizeram no dia anterior, dificuldades que passaram ou desentendimentos que ocorreram. “Quando há algum problema, nós sentamos como família e resolvemos com respeito. Aí nos perdoamos e seguimos em frente”, comenta. “Assim, eles vivem a rotina de uma família real, entendem que não precisam desistir de tudo após um conflito e aprendem valores nas atividades do dia a dia”, completa o chefe da família, Marcos Rodrigues, de 29 anos.

Segundo ele, todos colaboram com a limpeza da casa, ajudam no preparo dos alimentos e lavam a louça. Também são lembrados com frequência a respeito dos momentos de escovar os dentes, tomar banho e precisam sempre manter seus pertences organizados, pois perdem esses hábitos ao viver nas ruas. “E, claro, como a maioria deles agia de forma egoísta devido à violência, também os ensinamos a amar outras pessoas e incentivamos a compartilharem o que têm”.

Serviço voluntário

Assim, além de dividirem o alimento entre os dez membros da família, eles realizam um café da manhã semanal para quem ainda vive em situação de rua e organizam eventos com banho e cortes de cabelo para essas pessoas. “Criamos relacionamento com quem continua nessa condição para que, no momento em que decidirem mudar, nos procurem”, explica Liliane, que costuma atender de 30 a 100 homens e mulheres em cada edição do café solidário.

Só que manter o Projeto Gênesis – como foi chamado pela família – não é fácil. De acordo com Liliane, ela e o marido acompanham os acolhidos em período integral e tiveram que deixar seus empregos para isso no início do ano. “Eu trabalhava como vendedora e meu esposo era cozinheiro”, conta a mulher de 32 anos, que passou a vender balas nos semáforos da cidade em busca do valor necessário para alimentação e outras despesas da residência.

No entanto, o trabalho foi se tornando mais conhecido no decorrer de 2019 e atraiu a atenção de voluntários como a técnica em radiologia Karin Priscila Carvalho. “Quando fiquei sabendo que eles tinham largado tudo para acolher essas pessoas, nem acreditei”, comenta a curitibana, admirada pela coragem e dedicação do casal. “Aí parei para refletir no que eu estava fazendo a favor das outras pessoas e comecei a participar também com meu esposo e vários amigos”, disse. “Afinal, sei que a gente não vai acabar com a pobreza ou com os moradores de rua, mas faremos a diferença na vida dessas pessoas que foram acolhidas”.

Como ajudar?

Para colaborar, é possível doar alimentos, pães para os cafés ou disponibilizar tempo para sentar com os moradores de rua, conhecê-los e ajudá-los. “Eu já estive lá e sei como é. Muitas pessoas dão o pão, mas poucas oferecem uma oportunidade para sairmos daquela vida”, conta o ex-morador de rua Sebastião da Silva, que convida empresários para conhecerem o projeto e disponibilizarem vagas de emprego aos acolhidos.

Além disso, a equipe está à procura de médicos e laboratórios para a realização de consultas e exames, e também de dentistas que atendam os homens em tratamento contra a dependência química. “Eles perderam os dentes pelo uso de drogas, mas agora estão encontrando motivos para se alegrar e querem de novo a chance de sorrir”, finaliza Liliane, que mantém a página do Facebook “Projeto Gênesis” e atende pelo telefone (41) 99822-2243.

Tratamento contra dependência química

À medida que se desenvolvem no ambiente familiar, os ex-moradores de rua também são cadastrados nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Curitiba para iniciar o tratamento contra os vícios que adquiriram nas ruas. “Assim, recebem acompanhamento psicológico para deixar o álcool, crack e a cocaína”, explica Marcos Rodrigues.

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