Superação

Ela ficou cega aos 27 anos e entrou em depressão, mas hoje é patinadora profissional

Beatriz já competiu em mais de 30 torneios de patinação de velocidade dentro e fora do Brasil

  • Por Raquel Derevecki
  • 03/03/2020 16:50
Ela ficou cega aos 27 anos e entrou em depressão, mas hoje é patinadora profissional
| Foto: Arquivo pessoal/Beatriz de Santana

A cada volta realizada em um dos circuitos de patinação de velocidade mais famosos de Nova Iorque, a brasileira Beatriz Monteiro de Santana se aproximava das líderes da prova norte-americana e estava mais perto de realizar seu sonho: subir no pódio da competição mais antiga de sua modalidade. Só que, diferente das concorrentes, a paulista de 34 anos não podia enxergar o caminho percorrido e precisava do apoio de uma patinadora voluntária para realizar o trajeto.

“Fiquei completamente cega aos 27 anos e preciso de um guia para conseguir patinar”, conta a jovem que, apesar da dificuldade visual, conquistou o terceiro lugar da competição em setembro de 2019, superando 119 competidoras. “Foi incrível, porque eu era a única cega participando e todos achavam que eu ficaria em último lugar”.

Eu era a única cega participando e todos achavam que eu ficaria em último lugar

Beatriz foi diagnosticada com diabetes na adolescência e não teve acesso a medicamentos que evitassem o avanço da doença. “O que eu tinha era uma fitinha que, se ficasse verde em contato com a urina, mostrava que eu estava mal”, recorda. “Aí eu precisava parar de comer muita coisa e, mesmo assim, fui piorando”. Em pouco mais de dez anos, ela perdeu quase 80% das funções renais e passou a conviver com manchas pretas que prejudicavam sua visão. “Eu também dava aulas de informática e percebia tudo ficando embaçado”.

Esses sintomas fizeram com que as consultas com oftalmologistas e médicos especialistas em retina se tornassem frequentes e ela descobriu que sua única chance seria a realização de uma cirurgia de urgência acompanhada de três injeções no valor de R$ 5 mil reais cada. “Como não tínhamos esse dinheiro, fomos atrás para conseguir o tratamento gratuito e, apesar da demora, minha família estava confiante de que eu voltaria a enxergar”.

O procedimento cirúrgico foi marcado para 26 de outubro de 2013, mas, infelizmente, não aconteceu como o esperado. “Minha visão não voltou e aquilo foi um choque muito grande”, recorda a jovem, que viu o desespero de sua mãe, entrou em depressão profunda e só conseguiu forças para recomeçar dois anos depois. “Foi um período bem difícil, até que minha psicóloga começou a mostrar que eu poderia fazer o que eu quisesse”. A partir disso, “consegui mais autonomia, ouvi falar de uma moça cega que patinava e decidi fazer o mesmo”.

Começando a patinar

Conhecida pelos amigos e parentes como a garota que “morria de medo” de andar de patins na infância, Beatriz assustou todos à sua volta com a decisão repentina. E, claro, ela não entraria nessa empreitada sem auxílio. Por isso, buscou uma associação de cegos que pudesse ajudá-la em São Paulo e conseguiu uma atleta voluntária para acompanhá-la nos treinos: a fisioterapeuta Renata da Silva Melo. “Vi uma postagem no Facebook pedindo ajuda de patinadores para guiar deficientes visuais e me ofereci”, conta a paulista de 42 anos.

Com pouca experiência em patinação, dois empregos e tempo livre escasso, suas maiores dificuldades eram transmitir as orientações dos técnicos à colega cega e organizar a agenda para estar presente em todos os treinos, principalmente aqueles que tinham início ainda na madrugada, por volta das 5 horas. Mas o incentivo e persistência de Beatriz a motivavam e, em três anos, ela viu a evolução gigante de Beatriz. “A patinação devolveu a independência dela e também a vontade de cuidar melhor da sua saúde”, afirma. “Isso para mim foi a maior vitória”.

Além disso, a dupla começou a participar em competições nacionais nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná, e ainda conseguiu vaga em eventos internacionais como o NYC Skate Marathon, de Nova Iorque, e no Berlin Skate Marathon, Alemanha. “Esse torneio europeu é o mais importante do mundo e eu fui a brasileira mais rápida a competir”, comemora Beatriz, que agora se esforça para tornar a patinação mais popular entre deficientes visuais no Brasil.

“Quero que eles conheçam o prazer da patinação, como eu conheci”. Afinal, “tudo é possível quando você deixa de enxergar as coisas como problema e passa a ver somente desafios que podem ser conquistados”, finaliza.

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