Uma lição de amor

Casal de cadeirantes dá aulas de reforço para crianças na garagem de casa em Ribeirão Preto

O Projeto Suave Caminho já ajudou mais de 250 crianças com aulas gratuitas de português e matemática, mas o maior aprendizado vai muito além das letras e dos números

  • Por Lorena Lafraia
  • 26/01/2020 17:50
A telefonista Sônia Maria Soranzo, de 60 anos, e o aposentado Jeferson Andrade, de 55, são os criadores do Projeto Suave Caminho.
A telefonista Sônia Maria Soranzo, de 60 anos, e o aposentado Jeferson Andrade, de 55, são os criadores do Projeto Suave Caminho.| Foto: Arquivo Pessoal/Sônia Maria Soranzo

Das brincadeiras de escolinha em casa quando menina à vida real de uma sala de aula cheia de alunos e, assim como nos tempos de infância, no aconchego de casa. A telefonista Sônia Maria Soranzo, de 60 anos, não imaginava que seu amor pela educação faria com que ela, literalmente, abrisse as portas de sua casa – mais precisamente de sua garagem – para acolher e ajudar dezenas de alunos com dificuldades de aprendizagem.

Há 12 anos, ela e seu esposo Jeferson Andrade, de 55 anos, que assim como Sônia também acredita que somente a educação pode transformar o mundo, oferecem aulas gratuitas de português e matemática como reforço escolar para crianças da região onde moram na cidade de Ribeirão Preto, São Paulo. “Vendo as crianças, nossas vizinhas, com tanta dificuldade na escola, senti que precisava fazer algo. Não só para elas, mas para outras crianças também”, conta Sônia ao Sempre Família.

O casal é prova viva de que, quando se tem amor por uma causa, nem as limitações físicas são motivo suficiente para impedir que algo seja feito. Tanto Sônia quanto Jeferson são cadeirantes. A telefonista teve poliomielite aos dois meses de idade e usou aparelhos ortopédicos até os 16 anos. Só que após o insucesso de uma cirurgia na coluna, ela precisou trocar as muletas por uma cadeira de rodas. Já Jeferson, que trabalhou como vendedor e hoje é aposentado, teve uma grave meningite aos 15 anos e, como sequela, perdeu o movimento das pernas. Os dois se conheceram em um treino de basquete para cadeirantes e já estão juntos há 30 anos.

Suave Caminho

Por diversos motivos, nem Sônia e nem Jeferson conseguiram concluir seus estudos, o que despertou no casal um desejo ainda maior de ajudar crianças a serem alfabetizadas. “Não sou formada, mas amo ajudar as crianças como se fossem nossos filhos”, afirma a telefonista.

O Projeto Suave Caminho já ajudou mais de 250 crianças. As aulas na garagem da casa do casal acontecem de segunda à quinta das 17 horas até as 18h30. Hoje, cerca de 25 alunos estão divididos em duas turmas e, além de aprenderem a ler, a escrever e a fazer contas de adição, subtração, multiplicação e divisão, eles aprendem com a tia Sônia e o tio Jeferson a não desistirem de seus sonhos.

“Tem uma aluna que saiu do projeto e passou em três faculdades. Nossos alunos são sempre homenageados. Já estamos colhendo os frutos do nosso trabalho”, conta Sonia. “A maior lição não está na lousa, está na minha cadeira e na do Jeferson porque eles veem que o impossível é possível. Basta querer”.

O casal Sônia e Jeferson na sala de aula adaptada na garagem de casa. | Foto: Arquivo Pessoal/Sônia Maria Soranzo
O casal Sônia e Jeferson na sala de aula adaptada na garagem de casa. | Foto: Arquivo Pessoal/Sônia Maria Soranzo

“A essência é o amor”

O trabalho dos dois é totalmente voluntário. As crianças não pagam nem mesmo pelos materiais escolares, que são conseguidos através de doações. Mas segundo Sônia, eles ainda precisam de muita ajuda para conseguir manter o projeto. Além dos materiais, eles gastam com produtos de limpeza, copos descartáveis, água e luz. Por isso, toda ajuda é bem-vinda.

Se depender do amor e dedicação desse casal pelas crianças, o projeto Suave Caminho ainda vai muito longe. “Nosso sonho é que um dia tenhamos mais profissionais envolvidos com o projeto, como professor de Inglês, psicólogo, etc”, aspira a telefonista.

Para ela, mais do que as lições escolares, o que realmente transforma a vida não só das crianças, mas também a do casal, é o amor que existe nessa troca de conhecimento e de experiências. “A essência daqui é o amor. É o ser e não o ter. Ser amado, ser querido, ser respeitado, ser família”.

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