Sono

Febre, celular no quarto e agitação favorecem o sonambulismo

Embora possa assustar os pais, o sonambulismo das crianças não afeta a saúde, mas pode interferir na qualidade do sono

  • Por Amanda Milleo Almeida
  • 27/12/2019 14:00
Alguns gatilhos favorecem as crises de sonambulismo entre as crianças
| Foto: Bigstock

Levantar-se da cama, caminhar até os pais ou outro ambiente da casa e até falar, mas não interagir com outras pessoas. Esses são os sinais mais clássicos do sonambulismo, um distúrbio do sono que acomete crianças a partir dos quatro anos de idade e que desaparece conforme o crescimento.

Benigno, o sonambulismo não deve ser temido pelos pais, segundo os especialistas em medicina do sono, principalmente por ser algo comum. De acordo com Márcia Assis, neurologista da Associação Brasileira do Sono, a literatura médica indica uma frequência do sonambulismo que varia de 5% a 10%, mas reduz a 1,5% de incidência na fase adulta.

“Esse é um fato que coloca o sonambulismo como algo benigno, porque pode ser, e é em muitos casos, algo temporário na vida. Começa a partir dos quatro anos de idade e tende a diminuir muito e até a desaparecer na vida adulta”, explica a médica.

Por que acontece?

O despertar abrupto de um sono profundo é como se define o sonambulismo, nas palavras de Gisele Richter Minhoto, psiquiatra com atuação em Medicina do Sono e professora da PUCPR.

“É como um despertar não total ou um despertar abrupto durante o sono profundo, mas sem que a pessoa realmente acorde. Um descompasso entre estar dormindo e acordado, e é mais frequente na infância pelo desenvolvimento e imaturidade das crianças”, reforça a médica. Acontece com mais frequência no começo da noite, nas primeiras horas depois de a criança ir deitar, porque é justamente quando atingimos o sono mais profundo, o REM 3.

Sinais de atenção

Dos sinais mais comuns de que a criança está em estado de sonambulismo, os pais devem ficar atentos quando o filho passa a:

  • Caminhar sem acordar totalmente;
  • Sentar na cama, embora pareça estar dormindo ainda;
  • Falar, mas não fazer muito sentido e nem interagir com outras pessoas;
  • Abrir portas e se locomover a outras partes da casa nesse mesmo estado;
  • Pegar objetos, derrubá-los.

“Às vezes, uma crise de sonambulismo é mais fraca e em outra noite pode ser mais forte. Algumas crianças têm uma pequena manifestação, apenas se sentam ou falam. Enquanto outras têm movimentos mais complexos e precisam ser protegidas, pois podem até sair de casa ou pegar objetos que sejam cortantes”, alerta Marcia Assis, neurologista.

Cuidado com os gatilhos

Casos de sonambulismo na família favorecer o surgimento do evento, especialmente entre parentes próximos como irmãos ou primos. Ainda assim, alguns gatilhos colaboram para o aparecimento da crise, e os pais podem controlar. Confira as orientações das especialistas:

Barulhos. Desde uma batida de carro na rua durante a noite até uma notificação no celular que quase acorde a criança podem servir de gatilhos para o sonambulismo, pois fragmentam e deixam o sono mais superficial.

Dias agitados. Se a criança teve um dia muito corrido, com muitas atividades ou fontes de estresse, a agitação acaba se traduzindo em maior risco para o distúrbio do sono.

Febre. Crianças com febre devem ser mais supervisionadas à noite pelos pais, porque a chance de sonambulismo aumenta nesses casos.

Privação do sono. Se não houve horas de sono suficientes na noite anterior, há um aumento na chance de sonambulismo também. Vale sempre manter uma rotina e a higiene do sono em crianças com histórico.

Outros distúrbios do sono. A criança com apneia do sono e que ronca também precisa de um olhar especial para o sonambulismo.

Cafeína. Alimentos ricos em cafeína, como alguns refrigerantes e chás industrializados, devem ser tomados durante o dia e nunca muito próximo da hora de dormir.

Temperatura do quarto. Os pais devem também ficar atentos à temperatura do quarto da criança. Se estiver elevada, pode influenciar no sonambulismo.

Em geral, mudança nos hábitos é suficiente para o controle dos eventos. Medicamentos são indicados apenas em casos específicos, em que as crianças coloquem a própria saúde em risco. “A criança com sonambulismo deve ter o horário de dormir cuidado, ainda mais em épocas de férias e festas de fim de ano, quando os pais acabam fugindo da rotina. A mudança nos horários pode favorecer as crises”, alerta Márcia Assis, neurologista.

Entre os adultos, o uso de alguns medicamentos, como os hipnóticos, também está relacionado ao surgimento do sonambulismo. Se houver o diagnóstico de ansiedade e depressão, esse adulto também deve ficar atento.

Devo acordá-la?

Não se deve acordar a pessoa que estiver em um estado de sonambulismo. Isso não significa que ela vá morrer, nem nada do tipo, conforme orienta Gisele Minhoto, médica psiquiatra.

“A pessoa acordará confusa, porque não sabe onde está. O ideal é orientar e induzi-la a ir para o quarto, com calma, e colocar na cama novamente. Geralmente, como ela não chega a despertar totalmente, ela volta a dormir e nem se lembra do que aconteceu. Em geral, não acontece mais de um episódio por noite”, explica a médica.

Terror noturno

Embora sejam dois distúrbios de sono, terror noturno e sonambulismo não são a mesma coisa. Conforme explica Gisele Minhoto, psiquiatra, o terror noturno também tende a acontecer mais durante a infância e no início da noite, mas ao invés de a criança sair da cama, ela acorda gritando por socorro e ajuda.

“Em geral ela não sai da cama, não sai andando, mas grita e chora. E se os pais tentam acalmá-la, ela não os percebe. Nessa tentativa de acalmar, os pais podem até agitar mais a criança”, explica a médica. O risco à saúde é também baixo, e a tendência é que, assim como o sonambulismo, os eventos desapareçam até a adolescência. Como parte do tratamento, vale a mesma orientação de cuidados com o sono

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