Estados Unidos verificaram aumento nas chamadas por intoxicação em meio a pandemia| Foto: Bigstock
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Ao ver no noticiário a necessidade de higienização de todos os mantimentos antes de consumi-los, uma mulher norte-americana encheu a pia da cozinha com uma mistura de solução alvejante a 10%, vinagre e água quente e encharcou seus produtos.

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Enquanto limpava as outras compras, ela notou um cheiro nocivo descrito como "cloro" no ambiente da casa. Na sequência, disse ter sentido dificuldades para respirar, tosse e o peito passou a chiar. Ela ligou para a emergência, que foi até o local e a transportou para o pronto-socorro.

A mulher teve hipoxemia leve (deficiência anormal da concentração de oxigênio no sangue arterial) e melhorou com oxigênio e medicamentos broncodilatadores, recebendo alta após algumas horas de observação.

O relato acima foi descrito em um estudo, realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) e divulgado no dia 20 de abril. A pesquisa identificou uma tendência alarmante: aumento significativo nas exposições acidentais a produtos de limpeza e desinfetantes domésticos.

De janeiro ao fim de março, os Estados Unidos tiveram aumento de 20,4% nas chamadas de ajuda relacionadas à exposição a esses produtos, em relação ao mesmo período do ano passado. Na comparação com três primeiros meses de 2018, o aumento foi de 16,4%.

Ao todo, nesse ano foram feitas 45.550 chamadas, sendo 28.158 ligadas a produtos de limpeza e 17.392 aos desinfetantes. O aumento foi maior em março, período no qual a Covid-19 já se espalhava pelo país.

A pesquisa foi realizada antes da recente declaração do presidente norte-americano Donald Trump, que sugeriu, como possível tratamento, uma injeção de desinfetante. A fala repercutiu entre a população e fez os casos de intoxicação aumentarem ainda mais.

O CDC diz que, embora os dados do Sistema Nacional de Dados de Intoxicações norte-americano não forneçam informações "que mostrem um vínculo definitivo entre as exposições e os esforços de limpeza da Covid-19, parece haver uma associação temporal clara com o aumento do uso desses produtos", até pelas recomendações dos órgãos de saúde pública para limpar e desinfetar o máximo possível.

No Brasil, a Associação Brasileira de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Abracit) ainda realiza um levantamento sobre a questão, mas segundo o presidente, Jucelino Nery da Conceição Filho, a tendência é de crescimento nos casos de intoxicação. "Esperamos um aumento, pois a permanência em casa é maior, inclusive com crianças. Há ainda também o aumento no uso desses produtos", diz.

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Riscos de intoxicação

A necessidade de higienizar as mãos, superfícies da casa e até produtos comprados em mercearias e supermercados para evitar a disseminação da Covid-19 eleva a preocupação com possíveis intoxicações pelo uso exagerado dos produtos de limpeza.

Não há evidências de que o novo coronavírus seja transmitido por meio dos alimentos, como avaliou a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (European Food Safety Authority – EFSA), ainda em março. Contudo, superfícies das embalagens e as cascas de frutas e verduras podem manter o vírus vivo por um determinado período de tempo, dependendo do material.

Em plásticos, por exemplo, o vírus se mantém por até 72 horas e 24 horas no papelão, de acordo com um estudo norte-americano publicado na revista científica New England Journal of Medicine. O alimento, assim, pode funcionar como um qualquer outro objeto caso tenha sido manuseado por pessoas infectadas.

Entre as possibilidades de intoxicação, destacam-se:

  • Ingestão;
  • Inalação;
  • Contato com a pele e com os olhos;
  • Uso em quantidade maior que a indicada no rótulo;
  • Mistura de produtos químicos,
  • Aplicação em áreas pouco ventiladas.

Por isso, a recomendação é sempre seguir as instruções no rótulo, evitar a mistura de produtos, usar proteção (para olhos e pele) ao manuseá-los, garantir boa ventilação e manter os produtos químicos fora do alcance das crianças.

Como higienizar os alimentos com segurança

Três pesquisadores do Centro de Pesquisa em Alimentos (Forc - Food Research Center) da Universidade de São Paulo (USP) elaboraram um comunicado para esclarecer dúvidas e destacaram as medidas seguras de higienização dos alimentos.

  • Para alimentos que serão consumidos crus: no caso de vegetais folhosos, a recomendação é remover as folhas externas ou danificadas, separá-las uma a uma, lavá-las com água tratada abundante e deixá-las em imersão, por 15 minutos, em uma solução de água sanitária (uma colher de sopa diluída em um litro de água). Depois, lavá-las com água tratada corrente novamente. O mesmo vale para vegetais não folhosos e frutas, mesmo aquelas que serão consumidas sem a casca.
  • Para alimentos que serão preparados: os alimentos preparados pelo calor, como cozimento e fritura, quando feitos corretamente, têm o vírus eliminado, caso estejam contaminados. No entanto, é preciso evitar a recontaminação depois do aquecimento, principalmente se o alimento não for aquecido novamente antes de ser consumido.
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Segundo os especialistas em microbiologia de alimentos, os produtos comerciais à base de cloro para desinfecção de vegetais são eficientes para eliminar a contaminação microbiana – e também contra bactérias e vírus. Eles alertam para não usar água sanitária com outras substâncias na sua composição, pois podem ser tóxicas para o organismo humano. Já o vinagre, para fins culinários, não tem efeito sanitizante e não deve ser usado com esse objetivo.

No caso das embalagens, é importante lavar as mãos antes de abrir e, em seguida, aplicar um sanitizante (como o álcool a 70%). A dica também serve para as refeições entregues por delivery.

Já no restante da cozinha, como bancadas, pias, louças e demais utensílios devem estar sempre limpos e secos, sem resíduos de alimentos. Geladeiras, freezers, forno, fogão e demais eletrodomésticos devem ser limpos e higienizados com regularidade, com água, sabão e sanitizantes ou água sanitária.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]
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