Imunidade e idade

Imunidade dos idosos é menor. Como isso interfere na eficácia das vacinas?

  • Por Amanda Milléo
  • 06/02/2021 13:50
Estudos clínicos de vacinas incluem idosos como voluntários porque a imunidade deste grupo é menor, em comparação a de adultos
Estudos clínicos de vacinas incluem idosos como voluntários porque a imunidade deste grupo é menor, em comparação a de adultos.| Foto: Bigstock

No fim de janeiro, um dia antes da Agência de Medicamentos Europeia recomendar o uso emergencial da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca, o comitê de vacinas da Alemanha havia anunciado que não a aplicaria em idosos acima de 65 anos. O motivo para tal decisão foi a falta de dados da ação do imunizante para este público.

Nos resultados de eficácia e segurança dos estudos clínicos de fase 3 da vacina, publicados na revista científica Lancet no início de dezembro, os pesquisadores destacam que, realmente, os dados de eficácia para os idosos ficaram incompletos porque os voluntários desta faixa etária foram incluídos mais tarde e não havia dado tempo de acumular informações suficientes para chegar a essa resposta.

Isso seria motivo para excluir todo o grupo populacional da vacina aprovada? A resposta curta dos especialistas ouvidos pelo Sempre Família é: não.

Primeiro porque a vacina se mostrou eficaz, como lembra a médica imunologista Ana Maria Caetano de Faria, professora titular de Imunologia na Universidade Federal de Minas Gerais e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia. 

"Não é que a vacina foi testada e não se mostrou eficaz. Ela é. O que aconteceu foi que alguns países consideraram que o número de idosos incluídos na fase 3 era muito pequeno e não daria para dizer que a eficácia seria a mesma para os idosos. Mas os pesquisadores estão incluindo mais participantes e, conforme a vacinação acontece, surgem mais dados que mostram que as vacinas têm eficácia, sim", explica.

Segundo a especialista, há várias medidas que indicam a eficácia de uma vacina e, embora o imunizante mais desejado seja aquele que conseguir impedir a infecção pelo vírus, os que prevenirem o agravamento da doença já terão um impacto significativo contra a pandemia – e é o que tem sido visto.

"O que as vacinas estão mostrando é que todas elas, tanto a da AstraZeneca, Coronavac, da Pfizer e até a Sputnik V, previnem 100% os casos graves. Isso é muito importante ter em mente porque um dos problemas dos idosos é que eles são o grupo de risco mais suscetível à internação e morte pela Covid-19. Como elas previnem os casos graves, as internações e a doença fatal, isso é fundamental nesse momento", explica Faria.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a subrepresentatividade dos idosos em estudos clínicos é uma realidade conhecida, inclusive em testes de outras vacinas, como a Influenza H1N1, de 2009. Porém, ao pensar no princípio da complacência, ou na indicação com base em evidências indiretas, os especialistas argumentam que a vacinação contra a Covid-19 deve ser indicada aos idosos.

"(...) condutas são prescritas aos pacientes mais velhos por concluir-se que nos cenários de maior risco absoluto de desfechos negativos é onde há maior impacto na redução de danos mesmo que se estime menor eficácia."

No Brasil, até o início de fevereiro, duas vacinas receberam a aprovação de uso emergencial pela Anvisa: a vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca/Fiocruz e a Coronavac, da Sinovac e Instituto Butantan. Ambas têm indicação de serem aplicadas em idosos, que estão na lista de prioridades do Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19, do Ministério da Saúde.

Imunidade menor

A maior vulnerabilidade dos idosos à Covid-19 – e a variação na eficácia das vacinas – se explica porque o sistema imunológico também envelhece, tal qual a idade. É a chamada imunossenescência, de acordo com José Mário Tupiná Machado, médico geriatra, doutor em Gerontologia, e professor da Escola de Medicina da PUCPR.

"A imunossenescência, ou o envelhecimento do sistema imune, é uma alteração na capacidade de resposta a estímulos infecciosos. Quanto mais eu vivo, menos eu tenho capacidade de responder de forma rápida, e de boa qualidade, a uma agressão, seja ela qual for", explica o especialista.

Um dos órgãos mais importantes do sistema imunológico é o timo, uma glândula localizada no centro do peito, entre os pulmões e na frente do coração. É lá que os linfócitos T amadurecem – células do sistema imune que se adaptam aos invasores externos. Com a idade, o timo atrofia, reduzindo a capacidade de amadurecer as células de defesa. Logo, uma quantidade menor de células fica disponível para a defesa do organismo.

Isso não significa que o idoso sempre vá ter uma resposta imune ruim, segundo explica a médica imunologista Ana Maria Caetano de Faria. "Existe hoje toda uma linha de pesquisa do envelhecimento saudável que mostra que algumas pessoas com longevidade maior, que alcançam 90, 100 anos muito saudáveis, elas têm mecanismos naturais de compensar os defeitos imunológicos do envelhecimento, e acabam tendo uma resposta imune muito boa", destaca.

No caso das vacinas contra a Covid-19, a presença dos idosos entre os grupos participantes dos estudos clínicos é importante para verificar se o imunizante gera uma reação no sistema imunológico afetado pela idade. "É importante testar [nos idosos] por isso. Com certeza o sistema imune é diferente, e a preocupação existe, mas vemos que, pelo menos para as doenças graves, as vacinas que temos hoje estão prevenindo, e isso é sensacional", completa a imunologista.

A orientação da SBGG sobre a vacinação é que os idosos sejam imunizados de forma ampla e imediata, especialmente "os mais expostos e suscetíveis às graves formas da Covid-19, suas complicações e a morte: idosos frágeis, portadores de doenças crônicas (incluindo demência) e moradores de ILPI [Instituições de Longa Permanência para Idosos]".

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