Cuidados paliativos

Crença em milagres: tema merece atenção de pacientes, familiares e médicos no fim da vida

Estudo que avaliou 291 pares de pacientes em fim da vida e seus respectivos responsáveis mostrou que 59% dos familiares acreditava que um milagre salvaria seu parente

  • Por Amanda Milléo
  • 24/01/2020 09:45
Estudo avaliou 291 pares de pacientes em fim da vida e os responsáveis para relação entre religião e espiritualidade e decisões
Imagem mostra uma enfermeira, branca, com um jaleco azul e um estetoscópio, segurando a mão de um paciente – homem, idoso, branco, deitado em uma maca. Os rostos das pessoas não aparecem, apenas as mãos.| Foto: Bigstock

Em meio ao impacto que a religião e a espiritualidade dos familiares ou responsáveis têm nas decisões sobre os cuidados médicos de um parente doente, a crença em milagres desempenha um papel à parte.

Pesquisadores do Instituto Regenstrief, do estado de Indiana, nos Estados Unidos, observaram que quando o familiar acredita que um milagre poderia modificar o prognóstico do paciente, a tendência é que ele não aceite as medidas de “não ressuscitação”, bem como recuse os serviços dos hospices e opte por tratamentos mais agressivos.

Hospices são locais voltados aos cuidados paliativos de pacientes com doenças terminais que favorecem a qualidade de vida, reduzindo as dores e outros efeitos colaterais. Esses espaços não interferem no curso da doença principalmente porque, quando os pacientes chegam até eles, não há mais tratamento que modifique o prognóstico sem causar mais danos que benefícios à pessoa.

Como o tratamento em hospices exige a aceitação de que o paciente tem uma expectativa de vida de seis meses, ou menos, essa escolha seria oposta à esperança por um milagre, de acordo com a pesquisa, divulgada no periódico Journal of Pain and Symptom Management em setembro de 2019. “Os autores apontam que a religiosidade intrínseca, quando relacionada à crença em milagres, pode entrar em conflito com a opção por cuidados no hospice, indicando que as questões religiosas nas tomadas de decisão são mais complexas do que se imagina”, diz Mary Rute Gomes Esperandio, psicóloga e pesquisadora no campo das interações entre espiritualidade e saúde, professora dos programas de pós-graduação em Bioética e em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores entrevistaram 291 pares de pacientes e os respectivos responsáveis, internados em três hospitais de uma região metropolitana. Foram também avaliados os prontuários médicos. A maioria (59%) dos familiares ou responsáveis indicou acreditar que um milagre salvaria o paciente. Os participantes, conforme aponta o estudo, eram em sua maioria cristãos protestantes.

Um milagre para fugir

O desejo dos pacientes e familiares por milagres faz parte da rotina de Rodrigo Kappel Castilho, médico paliativista, colaborador da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) e coordenador do programa de cuidados paliativos da Santa Casa de Porto Alegre. “Nós vemos muitas situações em que o paciente utiliza da expectativa em um milagre para tentar fugir do que é físico, do que é explicável e do que é o mais provável no encaminhamento do seu curso. Mas cabe ao profissional acolher o espiritual, o que é sagrado ao paciente, a religiosidade da pessoa. Não faz sentido bater de frente com o que é milagroso. Até porque milagre é aquilo que não pode ser explicado”, afirma.

Ainda assim, segundo Castilho, as decisões médicas que são tomadas apenas pela possibilidade de um milagre devem ser debatidas. “O papel do médico é entender o que é o sagrado para aquela pessoa, mas também tentar entender as dificuldades que ela tem em encarar algo que é da biologia. E quando a morte chegar, seja quando for, como essa pessoa gostaria de ser cuidada”, reforça.

O apego aos milagres também se associa ao medo da culpa, conforme explica Clarice Yamanouchi, médica cancerologista, responsável pelos serviços de cuidados paliativos do Hospital Erasto Gaertner e do Instituto de Oncologia do Paraná. “O familiar espera ou acredita em um milagre por sentir-se culpado em não fazer alguma coisa. Isso existe muito na prática, especialmente entre pessoas muito ligadas umas às outras. Por isso que sempre reforçamos que as pessoas devem expressar as próprias vontades o mais precocemente possível” , diz a médica, que também é coordenadora da pós-graduação em Cuidados Paliativos da PUCPR.

Como você gostaria de ser tratado?

Para evitar que decisões sejam tomadas sem o seu aval, ou de forma oposta àquilo que você imagina que seja a melhor escolha, converse hoje com seus familiares sobre como gostaria de ser tratado.

“Falar sobre sexo não aumenta a chance de engravidar, assim como falar sobre a morte não aumenta a chance de morrer. Mas é cultural não falar sobre a morte. A maioria dos brasileiros vai morrer com algum profissional que não tem a formação em Cuidados Paliativos e o profissional vai perguntar: o que você gostaria que eu fizesse com a sua mãe? Coloco no respirador? E a pessoa terá de decidir”, afirma Rodrigo Castilho, médico paliativista.

Melhoras com a espiritualidade

Segundo Mary Rute, há estudos que mostram que, em um contexto hospitalar, quando o paciente tem as necessidades espirituais atendidas, o tempo de internamento tende a diminuir.

“Outros estudos indicam também que essas pessoas têm menos depressão, há um melhor enfrentamento dos sintomas no contexto da saúde mental; menor dor e mais energia entre pacientes com câncer; maior adesão ao tratamento; dá menos trabalho às equipes de enfermagem, o índice de re-hospitalização é mais baixo e é reportada maior sensação de bem-estar”, lista a pesquisadora.

Com relação ao papel dos médicos e outros especialistas, os estudos mostram uma dificuldade desses profissionais em identificar as necessidades espirituais dos pacientes e, também, em atendê-las. “Em um estudo de 2010, menos de 15% dos pacientes internados tiveram suas necessidades espirituais atendidas ou receberam apoio psicológico. Em geral, não há avaliação do sofrimento espiritual por parte da equipe, que acaba confundido com religiosidade e, portanto, avaliado como de natureza privada”, explica Mary Rute.

Dos motivos que os profissionais trazem, muitos alegam a falta de formação. “Há muita literatura sobre o tema, apresentando, inclusive, recomendações sobre como integrar essa dimensão de forma adequada, sem fazer proselitismos e sem ‘prescrever religião’”, diz a pesquisadora, que sugere aos profissionais:

  • Pedir ajuda a “cuidadores espirituais” de referência;
  • Levar a questão à equipe multiprofissional;
  • Encaminhar os casos aos Comitês de Ética em Pesquisa do hospital.
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