Coronavírus

Cientista por trás de vacinas revolucionárias foi alvo de descrédito por anos

    • Estadão Conteúdo
    • 27/12/2020 16:55
    Katalin Karikó em entrevista à CNN
    Katalin Karikó em entrevista à CNN| Foto: Reprodução/CNN

    A tecnologia que propiciou o desenvolvimento de vacinas altamente eficazes contra a Covid-19 em tempo recorde é novidade para a maioria de nós, leigos, mas já faz parte da vida da bioquímica húngara Katalin Karikó há décadas. A cientista que hoje é aclamada internacionalmente como uma das pesquisadoras que pavimentaram o caminho para os imunizantes contra o coronavírus foi, por anos, alvo de descrédito daqueles que achavam que a técnica pesquisada por ela não tinha futuro.

    Estudiosa do chamado RNA mensageiro (mRNA), plataforma utilizada nas vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna, Katalin, hoje com 65 anos, passou a maior parte da sua carreira recebendo recusas de financiamento para os seus projetos.

    O mRNA é um material genético sintetizado em laboratório que tem a função de "levar instruções" para as células agirem. No caso da vacina contra a covid-19, ele induz as células a produzirem uma proteína do vírus que será reconhecida pelo sistema imunológico como uma ameaça, o que levará à produção de anticorpos.

    A descoberta do mRNA, na década de 1960, foi recebida com entusiasmo pela comunidade científica, mas sua possível aplicação em pesquisas com humanos foi perdendo força por dois problemas: sua instabilidade e sua toxicidade, como explica Luís Carlos de Souza Ferreira, responsável pelo laboratório de desenvolvimento de vacinas do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. "É um material que se degrada muito fácil e é muito reativo, causa uma reação inflamatória exagerada. Naquela época, você aplicava em animais e eles morriam. Então, era arriscado testar em humanos", explica o pesquisador.

    Apesar dos desafios no uso da tecnologia, Katalin decidiu migrar da Hungria para os Estados Unidos em 1985, na esperança de encontrar um ambiente científico mais propício a seus estudos inovadores. A descrença, no entanto, se repetiu. Sem recursos para suas pesquisas, ela foi ameaçada de deportação por desentendimentos com um dos seus chefes, na Universidade Temple, na Filadélfia.

    Em seguida, foi trabalhar na Universidade da Pensilvânia, mas sua insistência em um tema de pesquisa considerado fracassado fez com que ela fosse rebaixada de cargo em 1995. "Geralmente, nesse ponto, as pessoas simplesmente dizem tchau e vão embora, porque é muito horrível", disse ela ao site Stat News. "Eu ganhava menos do que o técnico do laboratório", contou Katalin, que na época já era pós-doutora.

    Mas a cientista não desistiu. Estava empenhada em descobrir uma forma de driblar os problemas de instabilidade e toxicidade do RNA mensageiro e tornar seu uso viável em humanos.

    Nos anos 2000, conseguiu se associar a Drew Weissman, um renomado imunologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia. Juntos, eles descobriram qual nucleotídeo (conjunto de moléculas do RNA) provocava a reação inflamatória exagerada e o substituíram por uma molécula sintética sem o mesmo potencial tóxico.

    Nos testes em animais, não houve reação inflamatória significativa, o que indicava que a dupla finalmente havia descoberto uma forma de usar o potencial do mRNA sem causar dano. A instabilidade do RNA foi solucionada com o encapsulamento do material em uma camada de lipídios (células de gordura). Os achados foram publicados em revistas científicas a partir de 2005, mas demorou até que outros pesquisadores dessem a devida atenção ao tema.

    Nova fase

    Somente a partir de 2010, duas biotechs fundadas por acadêmicos, uma na Alemanha e outra nos EUA, decidiram apostar na ideia. Seus nomes? BioNTech e Moderna, justamente as primeiras empresas a apresentarem resultados extraordinários de eficácia de uma vacina contra a covid-19 (95% e 94%, respectivamente).

    Em 2013, Katalin, perto dos 60 anos, foi convidada a trabalhar na BioNTech, que testava a tecnologia de RNA em tratamentos contra o câncer. Com a chegada da pandemia, a húngara, já no cargo de vice-presidente da empresa, participou do desenvolvimento da vacina feita em parceria com a Pfizer. Não havia nenhum imunizante registrado no mundo usando a tecnologia do RNA.

    Redenção

    Os resultados de eficácia acima de 90%, anunciados em novembro, surpreenderam até mesmo cientistas envolvidos no projeto. "Foi uma surpresa para todo mundo. A gente esperava uma vacina de 60% a 70% de eficácia, o que já é um índice excelente, mas ter mais de 90% foi muito gratificante, o que, até anos atrás, seria impossível se não fossem esses estudos de biologia molecular", diz Cristiano Zerbini, diretor do Centro Paulista de Investigação Clínica e pesquisador principal do estudo da vacina da Pfizer/BioNTech em São Paulo.

    Para Jorge Kalil, professor titular da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), a história das vacinas de RNA demonstra a importância do investimento em ciência básica.

    "As pesquisas de Katalin e de outros colegas, que avançaram no conhecimento do RNA mensageiro, foram fundamentais para que conseguíssemos chegar tão rápido a uma vacina eficaz. É comum que temas disruptivos gerem desconfiança da comunidade científica porque vão contra os conhecimentos que existem na época. Como aconteceu com ela, acontece com muitos cientistas. É preciso ser perseverante", diz ele.

    Próximos passos

    Mesmo após participar da descoberta que pode ser uma das mais importantes do século, Katalin continua na missão de ampliar o uso da tecnologia. "Estou esperançosa de que, agora, que há tanto interesse e entusiasmo por esta pesquisa, será possível desenvolver e testar a tecnologia para prevenção e tratamento de outras doenças", declarou ao site da Universidade da Pensilvânia. Ela disse ainda que só conseguirá comemorar a conquista quando a pandemia for controlada. "Vou celebrar de verdade quando todo esse sofrimento humano e esses tempos terríveis acabarem", disse.

    Ao menos uma luz no fim do túnel já começa a aparecer. Em menos de um mês, 3,2 milhões de pessoas no mundo foram imunizadas com a vacina da Pfizer/BioNTech. No último dia 18, a própria Katalin entrou para esse grupo. Ao lado de Weissman, seu parceiro de pesquisa, ela recebeu a vacina que ajudou a criar. "Estou feliz e honrada. Sou mais uma cientista básica, mas sempre quis fazer algo para ajudar os pacientes." Depois de tanta espera, Katalin finalmente conseguiu.

    Outras vacinas beneficiadas

    Não foram apenas as vacinas de RNA mensageiro que tiveram seu desenvolvimento acelerado por pesquisas prévias, feitas anos antes do primeiro caso de covid-19. Outros imunizantes com eficácia já anunciada ou que estão na fase final dos testes clínicos foram beneficiados por estudos iniciados para outros fins.

    "Como já tínhamos tido outros dois surtos de coronavírus no mundo, o de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2002, e o de Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), em 2012, isso permitiu que fossem feitas pesquisas na área que adiantaram algumas descobertas, como a de qual proteína é responsável por se ligar ao receptor da célula humana. Isso é fundamental para descobrir a forma de neutralizar o vírus", explica Jorge Kalil, professor titular da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).

    A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca - que no Brasil será produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - usa uma tecnologia criada para responder a outras doenças que assustaram o mundo: MERS e ebola. Trata-se da plataforma de vetor viral, quando um outro vírus, com menor potencial de causar doença, é usado como vetor para levar o material genético do novo coronavírus para dentro das células humanas, passando as instruções para produção de uma proteína que vai provocar a resposta imune.

    A mesma técnica é usada na vacina Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, da Rússia. Em ambos os casos, o vetor é o adenovírus, causador de resfriado comum.

    Os testes de uma vacina contra a Mers utilizando essa plataforma já haviam sido iniciados anos atrás pelos pesquisadores de Oxford, mas não foram finalizados porque o vírus praticamente desapareceu, tornando difícil, portanto, a comprovação da eficácia.

    "Como a Mers é causada por um coronavírus, foi muito fácil aproveitar a plataforma e inserir o SARS-CoV-2 (causador da covid-19) nessa plataforma para se chegar à vacina. Muitos estudos de fase pré-clínica já estavam feitos", explica Sue Ann Costa Clemens, coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil e diretora do Instituto para a Saúde Global da Universidade de Siena.

    A Coronavac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã, foi colocada rapidamente em testes com humanos também graças a estudos prévios feitos pela companhia asiática de um imunizante contra o coronavírus causador da Sars. Na época do surto, entre 2002 e 2003, a companhia chegou a realizar a fase 1 de testes clínicos do imunizante, o que acelerou as pesquisas de uma vacina contra a covid-19.

    Investimento

    Além das pesquisas prévias, foi fundamental no processo um investimento pesado nas pesquisas de covid-19 e em estudos anteriores que já previam o surgimento de novas doenças.

    Uma das iniciativas foi a criação, em 2017, da Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi). A organização, criada por governos, fundações e empresas, tem como objetivo financiar pesquisas para novos patógenos que podem representar uma ameaça global. No caso da covid-19, já foi investido US$ 1,1 bilhão para o financiamento de pesquisas de dez vacinas. "Esse investimento foi crucial porque pesquisa custa caro", diz Sue Ann.

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