Pandemia

Brasil concentra mais de 77% das mortes de grávidas por Covid-19 em todo o mundo

    • Estadão Conteúdo e Equipe Sempre Família
    • 30/07/2020 17:44
    Brasil concentra mais de 77% das mortes de grávidas por Covid-19 em todo o mundo
    | Foto: BigStock

    A grande maioria das grávidas mortas por Covid-19 em todo o mundo é brasileira. De acordo com estudo publicado na International Journal of Gynecology and Obstetrics, das 160 mortes registradas entre o início da epidemia e 18 de junho nada menos que 124 (ou 77,5%) ocorreram no Brasil. O segundo colocado neste trágico ranking são os Estados Unidos, com 16 óbitos.

    "São 188 territórios afetados pelo coronavírus em todo o mundo e o Brasil tem mais mortes maternas do que a soma de todos esses países", resumiu a obstetra Melania Amorim, professora da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, e uma das autoras do estudo. Para a pesquisadora, falhas graves no atendimento das gestantes brasileiras explicam o número tão elevado.

    O estudo, publicado no último dia 10, é assinado também por especialistas da Unesp, UFSCAR, IMIP e UFSC. Chamado de "A tragédia da Covid-19 no Brasil", o trabalho foi feito com base em dados divulgados pelo Ministério da Saúde.

    Das 978 grávidas ou mulheres no pós-parto diagnosticadas com Covid-19 entre os dias 26 de fevereiro e 18 de junho no país, 124 morreram - um número 3,4 vezes superior ao total de mortes maternas relacionadas ao novo coronavírus em todo o mundo no mesmo período.

    Os números indicam também que a taxa de letalidade da doença entre as grávidas no Brasil é de 12,7%, ou seja, a mais alta do mundo. Para se ter ideia, nos Estados Unidos, no mesmo período, 8 mil gestantes foram diagnosticadas com o novo coronavírus. Deste total, 16 morreram, uma grande diferença.

    "Quando os primeiros casos surgiram no Brasil, começamos a pensar se nossa população seria diferente, mais suscetível", explicou Melania. "O que constatamos foi que houve algumas mortes com fatores de risco associados, como problemas cardiovasculares e obesidade, mas houve mortes entre grávidas completamente saudáveis."

    Para o presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Agnaldo Lopes, o número de mortes de grávidas no Brasil por Covid-19 é muito significativo. "Há várias lacunas de conhecimento ainda sobre a Covid-19 e uma delas é a relação entre a doença e a gravidez", disse.

    Possíveis causas

    A alta mortalidade por Covid-19 entre grávidas no Brasil pode ter várias explicações, segundo os autores do estudo. Eles mencionam problemas crônicos dos serviços obstétricos que afetam as gestantes, como baixa qualidade de cuidado pré-natal, recursos insuficientes para administrar cuidados de emergência, disparidades no acesso aos serviços de maternidade, violência obstétrica, e ainda, as barreiras ao acesso à saúde impostas pela pandemia.

    Os pesquisadores destacam que 22,6% das mulheres que morreram não foram internadas em uma unidade de tratamento intensivo, e que 36% não foram entubadas, o que indica que as gestantes enfrentam dificuldade de acesso aos cuidados intensivos. "Essa não é uma questão nova do sistema de saúde brasileiro", relatam. "Falta de prestadores de serviços de saúde e falta de recursos para cuidados intensivos são desafios crônicos bem conhecidos nos serviços de maternidade no Brasil".

    Até o momento da pesquisa, as mortes de mães pela Covid-19 representavam quase 10% das mortes maternas anuais no Brasil.

    Vítima

    A paulista de Macatuba Larissa Blanco, 23 anos, grávida de gêmeos, foi diagnosticada com a Covid, no dia 12 de junho. A jovem gestante apresentou sintomas de gripe, mas só precisou ser internada no dia 26.

    No dia seguinte à noite, ela foi transferida para um hospital particular de Botucatu e entrou em trabalho de parto. Em uma cesariana de emergência, nasceram com saúde, livres do vírus, os pequenos Guilherme e Gustavo, mas a mãe não resistiu. "Os dois pequenos vão precisar muito de mim e eles vão ouvir histórias e saber da mamãe que tiveram", disse o marido, o inspetor técnico de qualidade Diego Rodrigues, de 24 anos.

    Os médicos disseram que Larissa teve uma hemorragia e precisou de transfusão de sangue. Por causa da Covid-19, o corpo não respondeu bem à necessidade de conter a hemorragia e ela sofreu uma parada cardíaca.

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