Backup celular

Banco de células-tronco brasileiro poderá ter capacidade para cobrir 90% da população

Banco Nacional de Células-tronco de Pluripotência Induzidas para Fins Terapêuticos deve ser feito a partir de amostras de sangue coletadas de algumas centenas de brasileiros

  • PorJéssica Maes, especial para a Gazeta do Povo
  • 10/01/2020 14:35
Pesquisadores brasileiros estão criando um banco de células-tronco que, quando concluído, deve ter capacidade para cobrir 90% da população
Pesquisadores brasileiros estão criando um banco de células-tronco que, quando concluído, deve ter capacidade para cobrir 90% da população| Foto: Bigstock

Parece coisa de ficção científica, mas em um futuro não tão distante poderemos ter à disposição um banco capaz de gerar quaisquer tecidos para a maior parte dos brasileiros. Da mesma forma que funcionam bancos de sangue, como um repositório para toda a população, cientistas brasileiros estão articulando a criação de um banco de células-tronco no Brasil.

O Banco Nacional de Células-tronco de Pluripotência Induzidas para Fins Terapêuticos seria feito a partir de amostras de sangue coletadas de algumas centenas de pessoas, mas com potencial para ser compatível com mais de 90% da população. A partir das amostras, células do sangue seriam transformadas, em laboratório, nas células-tronco de pluripotência induzidas (do inglês, induced pluripotent stem cells, IPS), que podem se transformar em qualquer tecido do corpo humano.

"A IPS tem as mesmas características de uma célula-tronco embrionária, mas é gerada a partir de uma célula de um indivíduo adulto", explica o coordenador geral do projeto, Antônio Carlos Campos de Carvalho, pesquisador no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

"Como ela tem a pluripotência, pode se diferenciar em qualquer célula do organismo. Então você pode pegar uma IPS e gerar um neurônio para pacientes afetados pelo Parkinson, por exemplo. Ou diferenciá-la em um cardiomiócito para tentar curar uma insuficiência cardíaca. Ou em uma célula beta-pancreática para tratar a diabetes."

Perfil genético dos brasileiros

Para conceber o banco, a equipe comandada pelo professor analisou o perfil genético para o sistema imunológico de quase quatro milhões de brasileiros cadastrados no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). Nesta análise, foram determinados quantas e quais seriam as pessoas de quem as amostras de sangue seriam recolhidas. No momento, a equipe aguarda autorização de comitês de ética para poder entrar em contato com as pessoas selecionadas.

"Este é um projeto brasileiro, financiado pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de mapear, e depois das aprovações éticas necessárias, coletar amostras de sangue de doadores de medula óssea que estão cadastrados no Redome e que sejam triplo homozigotos e quíntuplo homozigotos", diz Carvalho. Foram identificadas pessoas que têm um perfil de sistema imunológico compatível com grandes parcelas da população brasileira. Esse aspecto é importante porque, como em qualquer transplante, há grandes riscos de rejeição de células-tronco – ou seja, o sistema imune ataca os órgãos e células transplantadas como se fossem uma doença.

"Com células pluripotentes, eu posso pegar o meu próprio sangue, transformar em IPS e, a partir delas, fazer neurônios para mim sem nenhum risco de rejeição. Mas essa terapia personalizada é demorada e muito cara", conta a professora Lygia da Veiga Pereira, chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias, da Universidade de São Paulo (USP), que também está envolvida no projeto. "Então, um grupo internacional de pesquisadores teve a ideia de procurar pelos genes pessoas que fossem compatíveis com várias outras pessoas daquela população".

Mais ou menos da mesma forma que quem tem sangue tipo O negativo pode doar para qualquer pessoa, quem tem o sistema antígeno leucocitário humano, ou HLA, dos subtipos A, B e DR é compatível com grande parte dos brasileiros. Os indivíduos com esse perfil imunológico foram os mapeados no Redome.  "O que a gente quer fazer é contatar esses doadores para saber se eles consentiriam doar para o banco", diz Carvalho.

Terapia celular

A princípio, depois de concedidas as autorizações éticas, doadores contados e coletas realizadas, os pesquisadores pretendem gerar as seis primeiras linhagens de IPS, cada uma a partir de uma pessoa diferente. Só estas seis linhagens, afirma o pesquisador, já seriam compatíveis com 15% da população brasileira.  A compatibilidade, no entanto, não aumenta de maneira proporcional à quantidade de amostras. Assim, com uma centena de linhagens, a estimativa é de que 70% dos brasileiros seriam compatíveis. Já com 550 linhagens, que é o objetivo final do projeto, esse número ultrapassaria 90% de "cobertura".

Quando concluído, o banco funcionará como um repositório para pacientes que sejam compatíveis com estes perfis imunológicos e precisem de terapia celular. Alguns exemplos de aplicações com células-tronco que estão sendo testadas e vêm demonstrando resultados positivos são no tratamento de diabetes, regeneração da retina, lesão de medula espinhal e doença de Parkinson.

"As aplicações destas células-tronco pluripotentes induzidas ainda terão que ser objeto de muita pesquisa. [O banco] é o marco-zero", aponta o docente da UFRJ. Ainda que a aplicação futurística da terapia celular sendo usada para curar uma infinidade de males esteja a décadas de distância, é preciso começar por algum lugar. "A gente não quer ficar para trás e acabar tendo que gastar um dinheirão para tratar um paciente precisando importar tudo", ressalta ele. 

Outros lugares do mundo já estão nesse caminho. Em março de 2018, por exemplo, a primeira planta comercial de IPS do mundo foi inaugurada no Japão. Neste primeiro momento, o investimento de US$ 340 milhões deve produzir apenas células para serem usadas em estudos clínicos vinculados a pesquisas científicas.

No projeto brasileiro, o objetivo é que ao menos as primeiras seis linhagens sejam geradas em até três anos. Além da UFRJ e da USP, fazem parte do projeto a Universidade Estadual do Rio de Janeiro e o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), que coordena o Redome.

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