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Encontro carismático ocorrido no município de Pinhais. Movimento leva multidões aos seus eventos. (foto: divulgação)
Encontro carismático ocorrido no município de Pinhais. Movimento leva multidões aos seus eventos. (foto: divulgação)
Atualidades, Religião

Renovação Carismática Católica se organiza, conquista cargos e quer mais espaço na política

Criado no Paraná, sistema de indicação e campanha focada em grupos de oração é adotado como modelo e passa a ser copiado por outros estados

Por Jônatas Dias Lima e Felipe Koller

 

Comparados à bancada evangélica, eles estão em menor número, mas nos últimos anos os políticos pertencentes à Renovação Carismática Católica (RCC) aprenderam a se organizar, conquistaram cargos e querem mais espaço. Para isso, o influente movimento religioso criou um sistema próprio para a seleção dos candidatos que os representará. O modelo inclui até um grupo que avalia e orienta permanentemente o mandato do eleito.

Se no passado os católicos carismáticos esforçavam-se para manter-se distante do mundo político-partidário, hoje a situação mudou graças a uma bem sucedida iniciativa que nasceu no Paraná, em 2010, e que em 2014 colheu seus melhores resultados. Naquele ano, Diego Garcia foi eleito para a Câmara dos Deputados. Foi a primeira vez que um representante do movimento sem nenhum histórico na vida pública, nem fama artística, conseguiu ocupar o posto de deputado federal.  Na avaliação de lideranças da RCC no estado, a experiência deu tão certo que tornou-se o modelo a ser seguido em todas as eleições e o processo passou a ser exportado para outros estados.

Diego Garcia foi o primeiro deputado federal eleito graças ao novo sistema adotado pela RCC no Paraná (foto: divulgação).

O sistema foi desenvolvido pelo Ministério Fé e Política da RCC paranaense e consiste, basicamente, na indicação de candidatos únicos – ou poucos – para a disputa de cargos no legislativo e a posterior campanha pelos nomes indicados em todos os grupos de oração do estado. Antes, cada grupo indicava seu próprio candidato ou a apoiava algum outro político que tivesse alguma proximidade com a Igreja Católica, sendo carismático ou não. Naturalmente, isso dividia o voto carismático e não resultava em eleitos.

Quando a comunicação entre os diversos grupos de oração do estado passou a fluir melhor, e se estabeleceu regras mais rigorosas para a indicação de nomes, os resultados surpreenderam analistas políticos que viram um desconhecido ocupar a desejada vaga em Brasília.

 

História

Antes de Diego Garcia (PHS-PR), os carismáticos já contavam com representantes no mundo político, mas todos que chegaram até lá tiveram a fama de artistas como principal impulso na carreira. Foi o caso, por exemplo, do deputado Eros Biondini (PROS-MG). Antes de chegar à Câmara, em 2006, Biondini era cantor e apresentador na TV Canção Nova. Hoje está em seu segundo mandato como deputado federal e agora concorre à prefeitura de Belo Horizonte. Já o deputado Flavinho também foi eleito em 2014, mas trazia consigo os anos de exposição como músico e pregador no mesmo canal religioso.

Segundo Garcia, o impulso definitivo para a mudança de postura no Paraná partiu do falecido arcebispo de Curitiba, dom Moacyr José Vitti. Anos atrás, num encontro como movimento, o arcebispo teria feito um pedido para que a RCC se envolvesse de forma mais direta nas campanhas políticas. Os primeiros resultados vieram em 2012, quando os carismáticos conseguiram eleger vereadores em 14 municípios do estado.

Deputado Flavinho, de São Paulo, teve a eleição impulsionada pela carreira de cantor católico e apresentador de TV. (foto: Agência Câmara)
Deputado Flavinho, de São Paulo, teve a eleição impulsionada pela carreira de cantor católico e apresentador de TV. (foto: Agência Câmara)

Em 2014, já com o sistema de indicações em andamento, os carismáticos da Diocese de Jacarezinho indicaram o próprio coordenador diocesano do movimento, que era Diego Garcia, na época com 29 anos. Orientado pelo Ministério Fé e Política, que abria as portas em comunidades católicas de vários municípios, Garcia passou a visitar todos os grupos de oração que podia, fazendo pregações e tornando-se mais conhecido . Segundo o agora deputado, a ajuda financeira não veio da RCC, mas sim das doações de amigos e parentes.

Ao fim do pleito, as muitas viagens e a articulação viabilizada pelo Ministério Fé e Política lhe renderam 61.063 votos. Além dele, os candidatos carismáticos ao cargo de deputado estadual, Jura e Gessani, obtiveram votações relevantes o bastante para assumirem a posição de 1º suplente na Assembleia Legislativa. Já Evandro Araújo (PSC-PR), que tinha conquistado uma vaga de suplente em 2010, se tornou deputado estadual com a saída de Ratinho Júnior do cargo.

Conselho de mandato

Já durante a campanha, os membros da RCC que desejam se candidatar com o apoio do movimento assinam um termo de compromisso, registrado em cartório, através do qual manifestam sua sintonia com as orientações da Igreja. O termo é um dos instrumentos usados pela RCC para acompanhar o candidato e evitar episódios de contratestemunho.

O processo é blindado contra oportunistas, garantem os coordenadores do movimento. O candidato que deseja apoio da RCC precisa ter tempo de vivência na Igreja, participação em grupos de oração e escolas de formação, por exemplo. Isso evita que pessoas alheias à fé católica ou que participem da RCC de forma muito ocasional usem o movimento para se eleger.

Em 2015, os deputados carismáticos criaram o Grupo de Oração Elena Guerra que se reúne nas dependências da Câmara e do qual participam parlamentares e servidores.
Em 2015, os deputados carismáticos criaram o Grupo de Oração Elena Guerra que se reúne nas dependências da Câmara e do qual participam parlamentares e servidores.

Além disso, para evitar qualquer confusão sobre o que a Igreja espera de um político, o movimento oferece aos pré-candidatos a Escola Tomás Moro, que ensina princípios de ética, filosofia, doutrina social da Igreja e estuda o quadro da política brasileira na atualidade. Lá, o pré-candidato é orientado a jamais entrar no jogo de tráfico de influência e incentivado até a deixar o cargo, caso isso seja necessário para não envolver-se em esquemas de corrupção.

Uma vez eleito, o político é acompanhado por um conselho de mandato. Trata-se de um grupo, composto por um padre, pelo coordenador estadual e pelos coordenadores diocesanos do movimento, que se reúne periodicamente com os mandatários, aconselhando-os na tomada de decisões. Garcia, por exemplo, conta que fala constantemente com o conselho do Paraná, através do WhatsApp. “Mando minhas atividades, projetos, dificuldades e eles me ajudam a tomar posição, sobretudo em questões difíceis”, conta o deputado.

Cultura do acompanhamento

A decisão, porém, sempre cabe àquele que detém o mandato. “Expomos a nossa opinião também nas questões em que a Igreja não tem um posicionamento definido”, explica a coordenadora estadual da RCC, Maria Ivone Ferreira Ranieri. “Nesses assuntos, o mandatário é livre; mas nós também continuamos livres para apoiá-lo ou não”.

O movimento, aliás, esforça-se para que políticos ligados à sua estrutura não sejam vinculados apenas a questões polêmicas, como o aborto e união civil homossexual. A ideia, diz Maria Ivone, é que temas como esses estejam no radar do deputado tanto quanto outras questões importantes para a população.

Partido

Mesmo na escolha do partido o membro do movimento é livre, diz a coordenadora regional. A RCC não indica nenhum partido específico para seus candidatos. Isso explica porque o deputado Diego Garcia (PHS-PR) elegeu-se pelo Partido Humanista da Solidariedade (PHS), do qual, inclusive, tornou-se presidente estadual, enquanto Evandro Araújo é do Partido Social Cristão (PSC). Gessani, candidato à vice-prefeito em Foz do Iguaçu, é do Partido Progressista (PP).

Para as eleições municipais, a RCC informa que está lançando candidatos a vereador em mais de cem cidades paranaenses. Enquanto isso, as coordenações do movimento em outros estados acompanham o projeto e avaliam sua implantação. A seu convite, Garcia diz que tem visitado várias cidades do país para falar sobre a experiência paranaense.

Maria Ivone defende o modelo e diz que o acompanhamento dos mandatários é algo que deveria acontecer sempre. “Nós deveríamos fazer esse acompanhamento, como cidadãos, com todos aqueles que elegemos. No fundo, o que nós queremos é implementar uma cultura”.

Seminário sobre família e vida realizado na Câmara dos Deputados, no início de agosto. Embora não se tratasse de um evento exclusivo para católicos carismáticos, os três deputados ligados ao movimento foram os parlamentares que viabilizaram sua realização. (foto: divulgação)
Seminário sobre família e vida realizado na Câmara dos Deputados, no início de agosto. Embora não se tratasse de um evento exclusivo para católicos carismáticos, os três deputados ligados ao movimento foram os parlamentares que viabilizaram sua realização. (foto: divulgação)

 

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