Tawadros II, o papa copta, preside uma celebração litúrgica. Divulgação| Foto:

Alvos de diversos atentados nos últimos anos, os cristãos coptas têm estado em evidência no noticiário já há algum tempo. O caso mais marcante foi a decapitação de 21 fiéis homens em 2015 na costa da Líbia. Até mesmo um vídeo do ato foi divulgado pelo grupo jihadista Estado Islâmico, que reivindica todos os atentados contra essa minoria, e os mártires foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Copta apenas nove dias depois. Mais recentemente, em dezembro de 2017, um homem armado entrou em uma igreja copta, ao sul do Cairo, matando nove pessoas.

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Segundo O Globo, mais de cem coptas foram mortos entre dezembro de 2016 e abril de 2017 por conta dos ataques ocorridos no Cairo, em Alexandria e em Tanta, no Egito. Mas os coptas não se rendem: no dia 6, quando celebram o Natal, inaugurarão a nova catedral copta do Cairo, que será a maior igreja de todo o Oriente Médio. “É uma tentativa dos coptas de mostrar que eles querem seguir sua vida e que não vão se acanhar por conta da perseguição”, avalia o historiador Rafael de Mesquita Diehl.

Mas quem são os cristãos coptas? O que motiva essa perseguição?

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  1. Em todo o mundo existem cerca de 16 milhões de cristãos coptas. Quase todos estão no Egito – “copta” significa originalmente, em árabe clássico, “egípcio”. Apesar disso, eles representam só 10% dos quase 100 milhões de habitantes do país, que em sua maioria são muçulmanos. No Brasil, a Igreja Ortodoxa Copta está presente em São Paulo, com cerca de cem fiéis, que se reúnem na Igreja de São Marcos, no Jabaquara. O bispo responsável pelos fiéis brasileiros é Aghason Anba Paul.
  1. Hoje, o termo copta é usado para se referir aos cristãos membros da Igreja Ortodoxa Copta e da diminuta Igreja Católica Copta, uma comunidade em plena comunhão com a Igreja Católica Romana. Os ortodoxos coptas, por sua vez, não estão em plena comunhão com os católicos e nem com os ortodoxos de tradição grega e eslava. Isso porque, enquanto estes aceitam os sete primeiros concílios ecumênicos, os ortodoxos coptas não aceitam o Concílio de Calcedônia – motivo pelo qual, no ano 451, eles se separaram da Igreja Católica.
  1. A divisão aconteceu devido a diferenças de interpretação teológica. “Esse concílio definiu que na única pessoa de Cristo haveria duas naturezas: uma humana e outra divina. Mas os coptas preferiam a fórmula de São Cirilo, que foi bispo de Alexandria, que dizia que era somente uma natureza do logos encarnado. Cirilo não negava nem a humanidade e nem a divindade de Cristo, mas dizia que se tratava de uma natureza só”, explica Diehl. As igrejas que não aceitaram a doutrina das duas naturezas são chamadas de “miafisistas”, que significa “de uma natureza”. Além da Igreja Ortodoxa Copta, contam-se entre elas a Igreja Siríaca Ortodoxa, a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Ortodoxa Etíope.
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  1. Do ponto de vista étnico, os coptas são, em grande parte, descendentes da população anterior à conquista árabe, que aconteceu no século VII. A língua copta é do século III, usa uma versão adaptada do alfabeto grego e atualmente só é utilizada na liturgia, junto com o árabe. A liturgia, por sua vez, segue o rito alexandrino, que tem um calendário diferente baseado no ciclo agrícola do rio Nilo. “O Natal é celebrado só em janeiro, coincidindo com a Festa da Epifania para os católicos”, explica o historiador. A arte sacra copta se distingue por um estilo próprio e chegou a influenciar a arte islâmica.
  1. A Igreja Ortodoxa Copta é governada pelo papa de Alexandria – os bispos de Alexandria envergam o título de “papa” desde o século III. O papa de Alexandria é sucessor de São Marcos, considerado o primeiro bispo da cidade. “O termo papa, para os coptas, não tem o mesmo significado que para os católicos, que é o de governo universal da igreja. Ele tem autoridade só sobre a Igreja Ortodoxa Copta, e não sobre as outras igrejas com as quais tem comunhão”, comenta Diehl. Desde 2012, o papa copta é Tawadros II. A escolha do papa é feita por um sorteio, em que uma criança de olhos vendados retira o nome de uma urna que contém os nomes dos bispos em condições de serem escolhidos.
  1. A disciplina em relação ao celibato é semelhante à Igreja Ortodoxa Grega e Eslava. Assim, é possível que homens casados sejam ordenados padres, mas os bispos precisam ser obrigatoriamente celibatários. “Por isso, muitas vezes são escolhidos monges para serem bispos. Eles têm uma tradição monástica bastante forte”, diz Diehl.
  1. Em 1741, uma pequena parte da Igreja Copta se uniu à Igreja Católica. Em 1895, foi criado o Patriarcado Católico Copta, uma autoridade específica para cuidar dos fiéis católicos de rito copta, que existe até hoje. Desde 2013, o patriarca católico é Ibrahim Isaac Sidrak.
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  1. Os coptas sofreram algumas restrições entre os séculos IV e VIII, por estarem sob o domínio do Império Bizantino, que seguia o Concílio de Calcedônia. Isso restringia a liberdade de celebrações dos coptas e sua participação na vida pública. Para se ter um cargo público na época, não se podia seguir alguma doutrina que fosse considerada herética, e por não aceitarem o concílio, os coptas eram considerados heréticos.
  1. Já a partir do século VII, com a dominação islâmica, foi imposta uma condição em que era permitido praticar sua religião em privado, sem difundi-la publicamente, mediante o pagamento de um imposto que garantia sua permanência em uma religião não-muçulmana. “Havia até uma comunidade de religiosos que os representava frente às autoridades muçulmanas”, conta Diehl.
  1. Com a secularização do Egito, no século XX, essa situação melhorou um pouco. Hoje os coptas participam da vida pública do país com suas profissões e mesmo na política. As tensões com os grupos muçulmanos fundamentalistas, porém, permaneceram, com chacinas acontecendo desde os anos 1970. Com a Primavera Árabe, em 2011, e a instabilidade política muito forte, o fundamentalismo islâmico cresceu e, de lá para cá, a perseguição aos coptas aumentou. Desde 2011, houve mais de 20 atentados aos cristãos coptas.

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