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Opinião

Pokémon Go e as igrejas: venha pelo Pikachu, fique por Jesus

A febre Pokémon Go está literalmente tirando os jogadores de suas casas e levando muitos deles até às portas das igrejas. O que fazer com eles quando chegam lá?

Por Aaron Earls.
Texto publicado originalmente em inglês pelo jornal Washington Post.

Antes de entrar na igreja domingo passado, disse ao meu filho de 14 anos algo que nunca tinha dito antes: “Sem jogar Pokémon Go durante o culto”.

Não sou o único pai ou pastor combatendo o jogo que dominou o país. Pode não ser a prensa de Gutenberg, mas Pokémon Go é o avanço tecnológico mais recente a ter um impacto significativo na Igreja. O novo aplicativo de realidade aumentada preenche dispõe os monstrinhos no mundo real, fazendo com que os jogadores tenham que sair por aí à busca deles.

Assim, os jogadores visitam pontos de referência locais – incluindo, com frequência, igrejas, ou ao menos seus estacionamentos. Isso poderia ser uma boa notícia para as igrejas famintas de novas gerações no país todo. De acordo com o Pew Research Center, um terço dos millenials – os jovens nascidos mais ou menos entre os anos 80 e 90 – não tem religião. Essa geração, além disso, tende a ter uma visão negativa da Igreja.

Pokémon Go está, pois, literalmente tirando os jogadores de suas casas e trazendo-os às portas das igrejas. Alguns deles disseram que sua primeira visita a uma igreja em anos aconteceu devido ao jogo.

Todas as igrejas onde estive desde que o jogo foi lançado têm um PokéStop – um local no jogo onde os jogadores podem abastecer seu estoque de PokéBolas. Outras igrejas servem como ginásios, que sediam as lutas entre os Pokémons dos jogadores.

Agora, muitos pastores e líderes estão tentando achar a melhor maneira de se conectar com os jogadores sentados nas escadarias de suas portas. Algumas igrejas estão usando placas para dar boas-vindas aos jogadores ao interior do templo. Outras sinalizaram os Pokémons e as paradas localizados em seu terreno. Há igrejas que estão até mesmo usando o encanto dos presentes virtuais do jogo para oferecer presentinhos e guloseimas reais.

Alguns líderes de igrejas baixaram o aplicativo para colocar lure modules dentro do seu terreno, o que atrai tanto os monstrinhos quanto os millenials que vêm atrás deles. Seria essa uma tática de propaganda enganosa? De comprar gato por lebre? “Venha pelo Jigglypuff, ganhe Jesus”?

Esses pastores e líderes não veem dessa forma. Eles querem ser uma parte positiva em sua vizinhança e querem conhecer as pessoas que vivem à sua volta. Pokémon Go é o último meio criativo que é capaz de gerar essas conexões.

É claro que o fato de os pastores desejarem oferecer aos jogadores uma visão diferente da Igreja não significa que eles queiram transformar seu templo em um torneio Pokémon sete dias por semana. Assim como locais como o Museu Memorial do Holocausto dos EUA pediram que os jogadores não usem esses locais sagrados como playgrounds, as igrejas podem solicitar o mesmo durante os cultos.

Assim como qualquer aplicativo em um smartphone, Pokémon Go oferece uma tentadora distração aos dedos de qualquer pessoa sentada ouvindo um sermão. E nenhum pastor quer sua mensagem competindo com monstrinhos invisíveis no domingo de manhã.

Em teoria, os norte-americanos se opõem ao uso de celulares na igreja. Em uma pesquisa do Pew Research Center, 96% dos entrevistados concordam que não é certo usar o telefone durante o culto. Há mais pessoas que se opõem ao uso de smartphone na igreja do que no cinema, em reuniões ou em um jantar de família.

Mas essa oposição se dá mais na teoria do que na prática. Celulares estão com frequência nas mãos dos fiéis durante os cultos de hoje em dia – e, muitas vezes, para incrementar a experiência do culto. Milhões de pessoas usam seus smartphones durante o culto para ler a Bíblia, por exemplo. Agora ficou difícil para o pastor saber se o seu fiel está lendo a Bíblia ou capturando Pokémons.

Antes de começarmos a escola dominical, os jovens que catequizo queriam falar sobre Pokémon Go. Conversamos sobre nossas melhores capturas e nossos fracassos mais engraçados. Antes de começar o encontro, brinquei: “Não jogue durante a aula, ao menos que veja um Pokémon raro. Nesse caso, me conte, que daí eu posso pegá-lo também”.

Riram, e comecei. A maioria deixou seus smartphones longe ou no bolso e participaram do diálogo. Mas, para alguns, a tentação era grande demais. Eles não queriam perder nenhum Pokémon que poderia perambular por ali enquanto falávamos da Bíblia.

Esse é o dilema das igrejas. Elas querem encorajar os jovens a vir até elas, e o aplicativo é uma forma de fazer eles chegarem até a porta. Mas uma vez que os jogadores entrem no templo para um culto, os pregadores querem tirar deles a própria razão pela qual eles apareceram.

No culto, fico de olho no meu filho e seu telefone fica no seu bolso, mesmo que ele esteja perdendo possíveis capturas. Não é o caso daquele jovem de vinte e tantos passeando com o seu cachorro do lado de fora da igreja, que vejo pela janela. Lá pelo fim do culto, percebo ele parado, olhando seu smartphone. Os movimentos que faz com a mão são inconfundíveis: ele está jogando Pokémon Go. Provavelmente, abasteceu-se em nosso PokéStop, pegou um Pokémon e logo vai embora. Ele não parece interessado no que está acontecendo do outro lado da janela.

Mas agora, graças ao aplicativo, ele sabe onde fica nossa igreja. Talvez seja um primeiro passo para que ele faça uma visita lá dentro, ou talvez seja só o próximo passo para evoluir seu Pokémon. O tempo vai dizer.

 

Aaron Earls escreve para o jornal Washington Post sobre religiosidade e cultura contemporânea.

Tradução: Felipe Koller

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