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Artigo, Religião

Pedofilia na Igreja: verdades e limites do filme Spotlight

O impacto devastador da revelação dos escândalos para a fé e o que deixou de ser contado pela obra, na visão de um religioso

Padre Mario Arroyo, doutor em Filosofia

Artigo publicado originalmente em espanhol pelo jornal peruano Lucidez.

***

Spotlight, filme, indicado em 6 categorias do Oscar e que acabou de receber a estatueta como melhor filme, conta, de forma muito bem contada, uma verdade incômoda para os católicos. Narra a apaixonante investigação jornalística ocorrida no começo de 2002 que descobriu os casos de pedofilia em Boston. A partir dali, como uma espécie de epidemia maldita, foram vindo a público, primeiro nos Estados Unidos e depois em muitos outros países do mundo, casos similares.

Este filme narra uma surpreendente e triste realidade. Expressa muito bem o assombro, diante desse progressivo dar-se conta das dimensões do problema por parte dos jornalistas, e o demolidor impacto que se impôs para a fé dos envolvidos e para a de muitas pessoas, primeiro em Boston, mas também, a partir dali, no mundo inteiro. Conta uma verdade triste e o faz muito bem.

Como sacerdote católico, confesso que passei um mau momento ao assisti-lo. Penso, no entanto, que ainda que não nos agrade a verdade, esta é sempre um dom de Deus, “toda verdade vem de Deus”. De fato, não é um desatino pensar que também veio de Deus este terremoto que fez a Igreja ventilar tão aberrante realidade. É lógico que foi bom que tenha vindo à luz, pois caso contrário, muito provavelmente seguiria havendo novas vítimas e impunidade para os criminosos. É impensável que esta dolorosa enfermidade permanecesse enterrada; foi necessário evidenciá-la para iniciar a terapia de cura.

Este é, a meu ver, ao mesmo tempo o valor e o limite de Spotlight. Conta a verdade, que é muito importante, e para os católicos, fundamental, pois nos ajuda a ter uma fé madura. Nossa fé está em Cristo, e na assistência do Espírito Santo à sua Igreja, porém cada domingo rezamos o “Confiteor” (ato penitencial), pois somos conscientes de ser pecadores. O limite é que não conta toda a verdade, e não se pode esquecer que “uma verdade pela metade é a pior mentira”, precisamente porque é verossímil, crível. O que falta contar em Spotlight? O que aconteceu depois: o filme termina com a crise de fé que sofreram os jornalistas e o povo americano, mas não diz o que a Igreja fez, primeiro neste país e, seguindo seu exemplo, no resto do mundo, para erradicar o problema. Não conta como depois dessa dura prova para a fé dos norte-americanos, a treze anos de distância, essa fé renasceu mais forte, não diminuiu a religiosidade desse povo, mas agora é mais madura, e, portanto, sobrenatural em seus motivos.

Hoje em dia, um dos lugares mais seguros para deixar seus filhos são as instituições católicas norte-americanas. Além disso, o prestígio, também moral, da Igreja e seus pastores nesse mesmo país foi recuperado (como confirma a recente viagem do Papa Francisco). Spotlight foi realizado, como se pode esperar de um filme hollywoodiano, para ganhar prêmios, dinheiro e contar uma estória. Mas se alguém quer conhecer “a história completa”, precisa de uma segunda parte (o que não é o objetivo deste filme nem de seus produtores), que bem poderia ser o documentário Maçãs podres do Rome Reports, o qual narra precisamente o que aconteceu depois:  a luta decidida para sanar a instituição, primeiro nos Estados Unidos e depois no resto da Igreja durante o pontificado de Bento XVI. Isto, é claro, se alguém deseja ter a perspectiva completa, pois muitos preferem ficar com a visão parcial; não buscam a verdade mas justificar seus preconceitos.

O balanço do filme é positivo, também para um católico, pois a erradicação do problema dificilmente se verificaria sem a valiosa investigação da qual este filme dá testemunho com grande qualidade artística. Fruto desta investigação, sua consequência direta, foi o necessário e improrrogável processo de purificação que viveu a Igreja norte-americana e está vivendo agora a Igreja universal. Porém, sendo positivo, não é suficiente: conta a verdade, porém não toda a verdade. Precisa-se do esforço crítico do espectador para completar o quadro, pois se ficar somente com o final do filme, com as sombras, ter-lhe-ão contado uma história verdadeira com uma conclusão falsa.

 

 

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