Quer feliz, quer triste, mãe lamenta o tempo que “passa rápido” e, entre melancólica e pesarosa, sente principalmente saudade.| Foto: Bigstock
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Mãe invariavelmente lamenta. Quer feliz ou quer triste, mãe lamenta o tempo que "passa rápido", o filho crescido "de repente". Então adolescente, filho parece virar fonte de suspiros. Entre melancólica e pesarosa, mãe sente principalmente saudade.

Saudade de filho pequeno em que a relação era como que simbiótica, o convívio, pleno, a sintonia, "perfeita". Saudade da fase em que mãe e filho desfrutavam harmoniosamente da experiência de crescerem mutuamente juntos. O avanço à fase seguinte, à adolescência, a dinâmica familiar muda e o cenário idílico também.

Inesperadamente mães passam a suspirar por qualquer motivo relacionado a filho adolescente: "Aaai, saudade do meu filho!". "Ué... para onde foi? Viajou? Mudou?", reagiu a amiga. " Tá doida? Não! Foi à uma festa com os amigos...", esclarecia sem notar o peso escondido naquele lamento.

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A crônica saudade de filho

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Mãe de adolescente irremediavelmente lamenta. Ao menor sinal de desapego de filho adolescente reage taciturna. Do orgulho nutrido e evidenciado até bem pouco tempo, pouco resta: filho crescido e em franco desenvolvimento de liberdade e autonomia, vai desbravar caminhos enquanto mãe geme.

Primeiro nos lamuriamos do tempo passado; depois, criticamos e reclamamos de filho: a pouca atenção, a surdez seletiva, a incompreensão, a desobediência. De repente, enxergamos o filho vertiginosamente diferente de antes e a o relacionamento, missão quase impossível a ambos.

Mudanças visíveis e invisíveis despertaram saudade de filho de outrora. Apegada à criança do passado, passei a lamentar o filho do presente. Com olhos ainda fixos exclusivamente nele, esqueci de olhar para mim e ver que, ao contrário dele, estagnara no tempo.

Saudade de filho que estagna

Mãe sente saudade de filho e, dominada por nostalgia tóxica, renega o esperado desenvolvimento de filho se ressentindo das naturais – ainda que às vezes difíceis – mudanças trazidas pela nova fase de vida. Apegada a um passado de intenso despertar para o mundo, fácil compreender o porquê da controversa saudade de filho agora adolescente.

Mãe sente o "descolar" de filho como que o "perdendo" para o mundo e se angustia por isso. Fisgada por uma ótica distorcida de sua missão de dar bom fruto ao mundo, sente-se então roubada de algo precioso do passado.

Cega, cai no fundo de um poço de melancolia incapacitante que a impede de continuar vivendo junto de filho... de outra forma. Filho cresceu? Mudou? A vida segue seu fluxo naturalmente. E eu? E você, mãe de adolescente? Também está seguindo seu curso natural de adulto em contínuo aperfeiçoamento? Ou estagnou-se a ponto de viver do passado que não volta?

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Filho do passado

Mães são naturalmente saudosistas. Afirmamos reiteradamente a imagem de um tempo em que tudo parece ter sido bom e feliz...bem diferente do presente que parece virar pesadelo. Ser mãe de criança também é difícil. É trabalho físico assumido sob pressão diária de lograr na missão de cuidadores e formadores de outro ser.

Para mim, também foi exercício psicológico de viver a dicotomia de uma relação exaustiva e, ao mesmo tempo, revigorante. Lembro de sofrer tanto com a escassez de tempo quanto do excesso de trabalho da feliz e proporcionalmente exaustiva fase infantil de filho. Mas, muitas vezes sufocada pelos deveres da função de mãe de criança, lembro também ainda me encantar com seu desenvolvimento e conquistas diárias.

Mãe saudosista crônica

Lamentar a adolescência nos torna mães melancólicas. Soamos tristes, parecemos ressentidas com a vida. Perdemos a alegria de continuar participantes do desabrochar que é da família e assumimos o pesar de uma constante reclamação do ser que, um dia, parecemos ter amado mais.

A nova dinâmica vivida com filho adolescente, de fato, assusta e, muitas vezes, irrita. Sem dúvida consome nossa melhor parte e mina nossa disposição de ser mães melhores. Às vezes, desanimada e, neste fluxo alterado, boicota nossa missão: de repente, ser mãe parece virar fardo.

Parte deste desterro se deve ao apego à criança do passado que nos transforma em mães de adolescente saudosistas crônicas. Desconectadas de filho, nos distanciamos do potencial que esta fase igualmente transformadora pode nos proporcionar de benefícios.

O convite à mudança

Privar-se das experiências – boas e ruins – com filho adolescente nos leva à lamuriosa saudade de filho do passado que nos cega ao incrível potencial do presente. Em vez de participar ativamente das mudanças junto com filho, mãe lamenta o "sumiço" do menino ou menina de amor explícito, de carinho irrestrito, de companhia incondicional; se admira com o rápido espicho, reclama dos lábios cerrados, dos olhos ariscos, do semblante retesado. Em suma, lamenta...ser mãe de adolescente.

Por uma lente mais realista e pragmática finalmente despertei desta condição perversa e injusta. Deixei o retrovisor e assumi o hoje com lente limpa dos habituais clichês sobre o adolescente. Enfim enxerguei filho sob extraordinária fase de onde também eu sou – senão exigida – convidada a me aprimorar. Descobri, com isso, não só o valor e a importância de continuar vivendo junto de filho mas também a beleza da transformação que dura a vida toda.

De um jeito diferente, passei a viver a nova relação com filho livre da idílica imagem da fase anterior. Descobri parte de um caminho que se abre a cada passo, a cada dia de transformação, para nos aprimorar.

O prazer de ser mãe

A valiosa experiência de amadurecer junto com filho adolescente me devolveu a alegria de ser mãe. De novo em movimento, descobri o prazer de ser mãe agora de adolescente. De fato, filho cresceu, mudou; eu também. Já não lamento mais por isso. Enfim, agradeço. Nutrida de um passado memorável e de um presente que se renova... todo dia... a todos nós.

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*Xila Damian é escritora, palestrante e criadora do blog Minha mãe é um saco!, espaço em que conta as situações cotidianas e comuns que vive sendo mãe de adolescentes, buscando desmistificar clichês sobre essa fase dos filhos, para transformá-la em um tempo de aprendizado.