Apesar de as restrições sociais já não existirem mais como eram em 2020, o maior uso de dispositivos eletrônicos se tornou um hábito familiar.| Foto: Bigstock
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A presença de dispositivos eletrônicos na rotina familiar ultrapassou o patamar de utilização durante o período mais pesado da pandemia, quando eles foram imprescindíveis para o trabalho, a escola e comunicação com amigos e família extensa. Essa é uma das conclusões da pesquisa O impacto das telas na vida familiar, realizada com adolescentes e pais, no final de 2021, na Espanha. Os pesquisadores buscaram entender quais eram as principais preocupações e expectativas geradas pelo consumo digital nesse novo momento.

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Mais de dois terços dos adolescentes entrevistados (68%) e uma proporção um pouco menor de mães e pais (64%) reconheceram o aumento do consumo no caso do celular – a tela principal da casa. O mesmo acontece com o crescente uso do computador. Apesar de março de 2020 com seu o confinamento rigoroso já estar longe em nossa memória, as aulas presenciais terem retornado há algum tempo, e o trabalho presencial também, mais da metade dos entrevistados concordou que tem utilizado muito mais os dispositivos eletrônicos agora, do que durante o período de restrições sociais.

Ainda que nem os pais e nem os adolescentes considerem reduzir o tempo atual que ficam expostos às telas, os dois grupos reconhecem um relaxamento dos limites de tempo usuais antes da pandemia. “Até 2020 as crianças tinham duas horas por dia de acesso aos aparelhos, mas hoje esse prazo não é mais cumprido, é impossível”, afirma um dos entrevistados, que tem filhos adolescentes, para a quarta edição da pesquisa.

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Preocupações

A principal razão para esse grande consumo digital entre os adolescentes é a sensação de tédio e a incapacidade de superá-lo de outra forma. "Fugir da inércia tornou-se uma prioridade", explica Charo Sádaba, pesquisador europeu de crianças e tecnologia e reitor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, que aponta para a rápida capacidade dos jovens preencherem esse vazio com o entretenimento fácil trazido pelos dispositivos.

Apesar do aumento no consumo pelos dois grupos, as preocupações com esse fenômeno é diferente. Enquanto para quase 40% dos adolescentes o principal medo é o cyberbullying, mães e pais apenas colocam essa ameaça um segundo lugar. Para os adultos, a principal preocupação ao navegar na internet é a possível relação dos filhos com estranhos. Outras fontes de preocupação são a possível dependência das redes sociais ou o impacto negativo do seu uso na saúde mental.

A opinião de pais e filhos diverge ainda mais frente ao rastro digital produzido por qualquer navegação na internet. De acordo com a pesquisa, os adolescentes minimizam o que publicam, pois "não consideram algo relevante e acreditam que no futuro essa informação será diluída". Os pais, por outro lado, estão cientes das consequências da memória virtual e tentam transmitir a necessidade da responsabilidade, embora, em sua opinião, sem muito sucesso.

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Mais tempo juntos?

Fazer "planos digitais" em família não é fácil, embora teoricamente as telas ofereçam a possibilidade de escolher filmes e séries sem se submeter aos horários determinados de transmissão nos canais de televisão abertos. Um em cada quatro adolescentes entrevistados disse que as telas os ajudam a passar mais tempo com a família e três quartos dos pais entrevistados dizem que assistir séries com os filhos estimula o surgimento de assuntos para conversa. No entanto, essas afirmações acabam se tornando apenas desejos, porque nem sempre condizem com a realidade: até dois terços dos pais entrevistados admitem assistir sempre ou frequentemente a série somente com o cônjuge. Entre os adolescentes, 56% afirmam vê-los sozinhos.

Um dos indicadores dessa disparidade é o risco de isolamento que os adolescentes detectam. "Quando éramos crianças, víamos mais TV juntos e agora todo mundo está com sua tela", diz um dos participantes da pesquisa. As telas facilitam essa dispersão e, em alguns casos, até mesmo a desconexão com o ambiente familiar em determinados momentos do dia: “Meu irmão fica com o jogo, eu com o computador porque tenho que estudar, meus pais na TV”, diz um dos jovens entrevistados.

Digitalização

Um dos fenômenos que vem mudando a percepção do uso de telas ao longo das quatro edições da pesquisa tem sido a digitalização que afeta o ambiente de trabalho e, consequentemente, a forma de conceber a preparação profissional mais adequada para os filhos.

Na entrevista, 94% das mães e pais consideram que o uso das telas será crucial no futuro profissional dos seus filhos, por isso têm uma maior aceitação. “Tenho certeza que o que farão não terá nada a ver com o que é realizado hoje porque o mundo digital está transformando tudo”, aponta um dos grupos de pais.

De acordo com o relatório, mães e pais veem a necessidade de “promover seriamente a competência digital das escolas”, pois “se sentem despreparados para acompanhar seus filhos neste caminho”. De fato, a posição majoritária, tanto entre os pais quanto entre os adolescentes, é favorável a um modelo de ensino “híbrido”: uma combinação de aulas presenciais e lição de casa em tela.

Uma das experiências em que as crianças se aproveitam dos pais é no trabalho colaborativo. Dentre os adolescentes entrevistados, 60% afirmam ter participado das tarefas por meio de plataformas digitais, bem à frente do número de mães e pais que o fazem. Eles também se familiarizaram com a linguagem de programação (14%) ou procuraram tutoriais em vídeo com a ideia de aprender algo novo.

© 2022 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol.