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Crédito: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Crédito: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Religião

Fazem falta as músicas religiosas com crítica social, diz padre Zezinho

Aos 75 anos, o sacerdote considerado pioneiro da música católica no Brasil recebeu o título de Doutor Honoris Causa da PUCPR

Qualquer religioso que visite uma livraria católica hoje tem dezenas de opções quando o assunto é música popular com mensagens religiosas, mas isso dificilmente seria uma realidade se não fosse pela persistência de um padre. José Fernandes de Oliveira, o padre Zezinho, foi o pioneiro no Brasil no uso de canções originais como instrumento de evangelização, alcançando a impressionante marca de 300 obras de sua autoria, entre CDs, DVDs e livros. Contudo, todo esse reconhecimento que hoje recebe estava longe de ser sua pretensão há quase cinquenta anos atrás, quando o então jovem padre dehoniano de Taubaté, São Paulo, começou a cantar para os fiéis.

Neste mês, a relevância histórica do sacerdote lhe rendeu mais uma homenagem. A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) concedeu ao padre Zezinho o título de Doutor Honoris Causa, em cerimônia que fez parte das comemorações de 57 anos da universidade.

Em sua visita à Curitiba, o sacerdote concedeu uma entrevista com exclusividade ao Sempre Família:

 

SEMPRE FAMÍLIA: Como pioneiro da música católica no Brasil, o senhor se alegra daquilo que ajudou a construir?

PADRE ZEZINHO: Eu não imaginava que seria assim. Como padre novo, eu simplesmente queria trabalhar com os jovens, não pensei que haveria uma repercussão tão grande. Mas já que aconteceu, eu fico feliz sim, porque eu noto que não só cheguei aos jovens, como ajudei a muitos leigos e padres a usar a arte como maneira de fazer catequese. Fez bem para mim e fez bem para os outros. É uma graça e um dom de Deus. Eu não percebi isso, apenas caiu na minha mão.

 

Crédito: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Crédito: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

SF: O que o padre Zezinho ouve quando está em casa?

PADRE: Eu escuto muita música clássica, muita música folclórica e tento conhecer um pouco a música do mundo. Desde a Europa, África, Estados Unidos, América Latina. Por muito tempo eu busquei essas fontes. Estou terminando agora uma opereta, um musical dedicado à Nossa Senhora, para o ano de 2017, a pedido de Aparecida. Para eu fazer essas músicas tenho que sentir um pouco de América Latina. Então, eu me inspiro com essas canções e também com os livros. Eu leio muito sobre a história dos povos e sobre sociologia. São assuntos que mexem muito comigo. Isso favorece o meu trabalho de compositor.

 

SF: Como compositor, em muitas de suas canções o senhor fala de política, de problemas sociais. Recentemente nós tivemos a maior manifestação de rua da história do país. Como o padre Zezinho vê a situação política do Brasil hoje?

PADRE: No Facebook, os jovens e adultos que se correspondem comigo perguntam se eu sou um padre político e eu digo que sou. Eu não sou partidário, mas sou político. O fundador da minha congregação, padre Dehon, um francês, era sociólogo e também trabalhava muito como historiador, teólogo e filósofo. E entendia que nós tínhamos que ouvir e sentir a cultura do povo. Ele queria, dos padres dehonianos, gente que fosse capaz de ir ao povo. Ora, não dá para ir ao povo sem fazer política, e isso eu faço. No entanto, minha preferência é o diálogo entre operários e patrões, entre jovens, adultos e entre partidos.

Se alguém não quiser o diálogo o problema é dele, porque eu quero. E se alguém me agredir porque eu ajudo os dois lados, eu fico feliz com isso. É exatamente o que Jesus fazia e o que o papa faz.

Eu quero ouvir os dois lados, e se alguém errar eu vou criticar. Mas se acertar em alguma coisa eu vou elogiar. Então eu não tenho inimigos. Aquele que acerta, não importa de que partido, eu elogio. Aquele que erra e machuca o povo, não importa de qual partido, eu discordo e falo.

Então, para mim, isso é ser um padre político. Eu quero sentir como é que vamos administrar esse povo, chamado Brasil. Quero saber quem é sincero e quem não é. Baseado no que eles falam e escrevem, eu faço minha crítica. E minha crítica não é só negativa, também é positiva se isso ajuda o povo.

 

SF: Embora muitos tenham seguido o seu exemplo produzindo música religiosa, não foram tantos os cantores católicos que seguiram sua forma de compor.  Poucos usam a crítica social em suas letras. O senhor sente falta disso?

PADRE: Sinto. Veja, eu não sou necessariamente contra o governo, mas em algumas coisas sou. Nas minhas canções eu busco diálogo com a sociedade. Se outros padres não fazem, ou outros leigos, imagino que é porque eles não tiveram a mesma formação que eu, não leram os livros que eu li, não cursaram a mesma faculdade que eu cursei. Lá eu aprendi a ser crítico social, a valorizar o que é do povo e para o povo, e também o que é das lideranças, mas que deve chegar ao povo.

 

SF: O papa Francisco completou três anos de pontificado há poucos dias. Como o senhor avalia esse pontificado?

PADRE: Eu conheci vários profetas na minha vida. Dom Helder, dom Paulo, Irmã Dulce, dom Luciano Mendes, e também tive a alegria de estar junto do papa João Paulo II, então eu posso dizer que no momento a Igreja Católica tem um profeta na ativa. Para mim, mais do que papa ele é um profeta. E ele não pediu para ser profeta. A Igreja o escolheu e disse para ele: vai profetizar, e ele foi. Então ele não pediu para ser profeta, mas é. Então estamos vendo um profeta em ação no Vaticano.

 

SF: Para os leitores que são seus fãs, o que o senhor pode contar sobre a sua saúde?

PADRE: O câncer está controlado, mas sei que pode voltar a qualquer momento. O diabetes é fácil controlar, depende do que eu como, mas eu sou bem disciplinado. E o AVC não voltou, então, enquanto isso Deus me deu a graça de escrever muitos livros, ler muitos livros, falar no rádio, dar entrevistas e diminuir um pouco as atividades. Eu trabalhava aproximadamente 17 ou 18 horas por dia. Agora eu trabalho só oito. Voltei a ser um operário com regularidade. Mas estou indo bem, graças a Deus, que está me dando essa oportunidade de continuar aos 75 anos a ser um propagador da fé.

 

SF: Projetos e planos para o futuro?

PADRE: Oito livros. Estou terminando dois CDs e um deles é a opereta musical sobre Nossa Senhora, a qual mencionei antes. Há também o projeto de um novo CD para crianças, e a produção para o público infantil exige mais tempo do que os outros, porque a linguagem da criança tem que ser muito estudada. Então, eu vou fazer, mas é fruto de muito mais pesquisa, pois trata-se de pedagogia.

 

7 Comentários
  1. é ironico ver que a igreja sempre apoiou o poder em todos os ambitos,apoiaram ditadores e assassinos como Stalin na Italia ,Hitler na Alemanha, aqui no Brasil sempre estiverem com esse atual governo apoiando e Lula e Dilma .A igreja sempre esta do lado do poder,seja ele quem for,e isso nunca mudara, pois é do governo que vem as benesses como não pagar impostos,isençoes fiscais,isentos de iptu,etc , e a permanente presença da religiosidade na politica com seus padres (e pastores)deputados.Somente teremos um pais melhor o dia que isolarmos a religião de vez do estado politico.Religião é para o espirito,politica é vida real.

  2. Pe. Zezinho! Sou sua fã há mais de 40 anos. O senhor pode opinar sobre o que quiser e tenho certeza de que o faz com propriedade. Mas, por favor, não deixe de nos passar a boa doutrina e o amor a Deus como fez em Maria de Nazaré, Amar como Jesus amou, “Se ouvires a voz do vento”, Jesus Cristo me deixou inquieto, Oração da familia, Nos rios da Babilônia, A Goteira, e tantas outras músicas que marcaram a minha infância e adolescência e se tornaram apoio nos momentos em que Deus me pedia algo mais. Obrigada!

  3. Padre Zezinho, por favor vá ler O Caminho da Perfeição de Santa Teresa D’Ávila, ou A Imitação de Cristo de Tomás de Kempis, ou a Escada do Paraíso de São João Clímaco e verás que a preocupação não é com esse mundo. O senhor deveria estar preocupado com as almas e não com o corpo. A teologia da libertação é marxista e é a antítese do cristianismo. Leia João 12:8. Leia a Bíblia!

    • “Toda a atividade da Igreja é manifestação dum amor que procura o bem integral do homem: procura a sua evangelização por meio da Palavra e dos Sacramentos, empreendimento este muitas vezes heroico nas suas realizações históricas; e procura a sua promoção nos vários âmbitos da vida e da atividade humana. Portanto, é amor o serviço que a Igreja exerce para acorrer constantemente aos sofrimentos e às necessidades, mesmo materiais, dos homens.” (Bento XVI, Deus Caritas Est, 19).

    • Sobre Tomás de Kempis que você citou: “A Devotio moderna se caracteriza fundamentalmente pela busca séria da vida interior, centrada no encontro e no diálogo com Cristo, focalizando especialmente sua cruz, paixão e morte. Essa espiritualidade separava fortemente Deus e o mundo, espirito e matéria, tempo e eternidade, interior e exterior, vida secular é vida religiosa com forte depreciação do mundo, de suas atrações e dos seus prazeres. Tais realidades são colocadas sob suspeita, de modo que influenciaram a piedade cristã posterior. Importa reconhecer que Deus não quis que amássemos somente a Ele, mas todas as criaturas, especialmente todos os seres humanos e de modo especial os pobres e esquecidos (Jesus histórico)…. Hoje a teologia, seguindo as Escrituras e a fé cristã, oficialmente reconhecida na esteira do Vaticano II (1962-1965), não separa, mas articule essas realidades que Tomás de Kempis tão fortemente contrastara. Hoje as entendemos como momentos diferentes do mistério da criação e do único grande projeto de Deus, que é seu Reino feito de amor, de solidariedade, de irmandade, de compaixão, de perdão e de ilimitada abertura ao mistério de Deus. Esse Reino se realiza tanto no espaço religioso quanto no espaço secular. Ele está em permanente confrontação com o antirreino, que representa a negação dos valores do Reino”. Leonardo Boff sobre o autor explicitado em sua obra: Imitação de Cristo e seguimento de Jesus.

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