Infância

Criança não tem namoradinho: por que brincadeiras assim não são inofensivas

Comentários assim contaminam o mundo da criança com imagens de relacionamentos próprios da vida adulta

  • Por Felipe Koller
  • 12/03/2020 10:28
Comentários assim contaminam o mundo da criança com imagens de relacionamentos próprios da vida adulta, fazendo com que ela se sinta insegura diante de outra criança com a qual, inicialmente, teceu uma relação amistosa com a maior naturalidade.
| Foto: Torsten Dederichs/Unsplash

“Vocês vão acabar se casando” – “quem é o seu namoradinho?” – “com essa roupa você vai impressionar as meninas”. É bem possível que você tenha ouvido frases como essas quando era criança, diante da mínima menção a um amiguinho do sexo oposto. Brincadeiras como essas, porém, não são tão inofensivas quanto parecem.

“É preciso lançar um olhar mais atento para a situação e entender as brincadeiras sobre namoros e relacionamentos fictícios ou futuros – feitas diretamente às crianças ou na presença delas a seus pais – como uma invasão do mundo infantil com conteúdos e concepções que não são da criança, mas do adulto que fala”, explica a psicóloga Claudia Weigert.

Na medida em que esses comentários contaminam o mundo da criança com imagens de relacionamentos próprios da juventude e da vida adulta, eles podem fazer com que a criança se sinta insegura e desconfortável diante de outra criança com a qual, inicialmente, ela teceu uma relação amistosa com a maior naturalidade.

“O estímulo que os adultos dão com comentários como esses se reflete na naturalidade com que a criança vive as relações e no desenvolvimento da sua maturidade afetiva”, diz a bioeticista Daiane Priscila Simão-Silva. Essa naturalidade, tão característica da infância, é um elemento de fundamental importância no desenvolvimento de uma afetividade segura, a partir da qual podemos nos relacionar com os outros de forma saudável.

“A forma como olhamos o outro se constrói desde a infância. Não estabelecemos vínculos de afeto sexual com a grande maioria das pessoas com quem convivemos: então por que ensinamos aos pequenos que a sua relação de amizade seria de namoro ou casamento?”, questiona Daiane. “Tudo isso tira o que é natural da infância: olhar para o outro como amigo e amiga”.

Passar pela experiência de ouvir comentários como esses pode fazer com que a criança, no futuro, não viva as suas relações com a gratuidade e a liberdade de interesse que caracterizam a amizade – uma das relações mais fundamentais que estabelecemos em nossa vida. A experiência da amizade fica distorcida.

“É uma construção de memórias que se inculcam numa fase em que estamos formando o nosso inconsciente. Nessa fase, nós criamos um modelo de relacionamento que influencia, posteriormente, as relações que se dão na adolescência e na fase adulta”, explica a bioeticista. E quando, já adultos, nos damos conta de alguns problemas na nossa forma de nos relacionar, a solução não é tão fácil, já que é difícil acessar essas memórias em nível consciente.

Sensibilidade

Uma boa dica para entender que certos comentários não contribuem para o desenvolvimento da criança é observar a sua reação. “Se ela se constrangeu em algum momento, não é uma brincadeira válida. É impositiva e desrespeitosa, uma vez que a criança não tem como se defender deste adulto”, orienta Claudia.

“É natural e saudável que a criança brinque, em seu mundo de faz-de-conta, de ‘vir a ser’, e aí, ela poderá brincar de namorar, de casar, trabalhar, ter filhos, enfim, de tudo que se lhe apresenta como uma possibilidade futura. Mas, enquanto brinca, é ela quem decide quando a brincadeira começa e quando deve acabar. Qualquer imposição desrespeitosa é nociva e pode prendê-la em conceitos ou formatos que ela não escolheu”, diz a psicóloga.

E aí cabe também aos pais não apenas evitar esses comentários, mas deixar claro aos filhos que não concordam com essa forma de ver os relacionamentos da criança, quando é outro adulto que a expressa. “Não podemos ignorar a importância do calar de alguns pais nestas situações, pois a criança pode entender que o pai ou a mãe concordam ou até validam tal brincadeira”, comenta Claudia.

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