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O corpo está cansado e a mente precisa de uma boa noite de sono para se recuperar após um dia exaustivo. No entanto, basta a estudante de Direito Ana Carolina de Almeida deitar na cama e apagar a luz do quarto para pensar em tudo o que aconteceu na semana, lembrar dos compromissos marcados para o dia seguinte e buscar soluções para os problemas do trabalho, família e faculdade. “Aí levo quase duas horas para dormir, isso quando consigo”, conta a moradora de Foz do Iguaçu, que já chegou a passar até quatro noites seguidas em claro.

Segundo ela, as crises de insônia começaram em 2017, quando precisou dividir seu tempo entre dois empregos e o curso universitário. “Comecei me atrasando para ir dormir, não tinha mais aquelas oito horas de sono que estava acostumada e senti o resultado no meu dia a dia”, conta a jovem.

Habituada a ter tudo sob controle e a alcançar os melhores resultados no que fazia, ela se esforçava para cumprir suas responsabilidades no pouco tempo que tinha, mas era difícil fazer tudo com precisão e isso prejudicou sua saúde emocional. “Sempre fui muito perfeccionista, então esses fatos afetaram de forma significativa minha vida”, afirma a estudante de 19 anos. “E o pior é que toda noite eu me preocupava com o que tinha para resolver e acabava perdendo meu tempo de repouso”.

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Ainda que não seja o único motivo a desencadear quadros de insônia, a característica de personalidade citada pela jovem é uma das principais responsáveis pelas noites mal dormidas, de acordo com o psicogeriatra Almir Tavares. “Pessoas com traços perfeccionistas e aquelas com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ficam pensando em como consertar as coisas, e esse esforço impede o sono”, explica o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  

Nas situações descritas pelo especialista, a pessoa tem dificuldade para lidar com a frustração quando não atinge os objetivos propostos, e isso desencadeia problemas como ansiedade, depressão e TOC. Nesse último transtorno, por exemplo, o paciente passa a sofrer com pensamentos e impulsos indesejados, tem dificuldade para controlar emoções e, em alguns casos, se preocupa demais com limpeza ou tem comportamentos repetitivos na tentativa de deixar objetos sempre em ordem perfeita e com simetria.

Para a iguaçuense Ana Carolina, o perfeccionismo excessivo – ligado a traços de personalidade como timidez – fizeram com que a garota apresentasse dificuldade para se relacionar com outras pessoas, sofresse bastante com os problemas que a rodeavam, e fosse diagnosticada com ansiedade e depressão. Além disso, ela não conseguia dormir facilmente e tinha pesadelos frequentes. “Cheguei a ter uma crise de pânico enquanto dormia e acabei estragando objetos do meu quarto e machucando meu braço”, conta. “No sonho, eu lembro que estava com muito medo e tentava fugir. Só que eu me machucava na realidade, e não só dentro do sonho”.

Na tentativa de evitar situações como essa e descansar melhor durante a noite, a estudante começou a tomar chás antes de ir para a cama, ouvir músicas tranquilas para relaxar e até a desligar o celular 30 minutos antes de repousar. “Só que minha insônia estava relacionada a problemas psicológicos, então nada disso funcionava”, lamenta.

Principais causas da insônia

Segundo o psicogeriatra Almir Tavares, as atitudes colocadas em prática pela jovem são aconselhadas para casos de insônia que ainda não se tornaram crônicos, ou seja, que ocorrem uma ou duas vezes por semana e duram menos de três meses.

No entanto, situações mais graves que envolvam problemas mentais ou doenças como asma, refluxo, artrite e disfunções neurológicas precisam do acompanhamento de especialistas. Afinal, “o único modo adequado de detectar doenças físicas é buscar um médico, enquanto as doenças emocionais exigem a busca pelo psiquiatra”.

Pacientes que realizam tratamento para o coração, tireoide ou depressão também podem apresentar quadros de insônia devido à composição dos medicamentos, assim como pessoas que consomem muitos produtos com cafeína tendem a apresentar dificuldade para dormir quando ingerem chás, chocolates, refrigerantes e café após as 16 horas.

Além disso, o professor da UFMG afirma que há muitos casos de insônia desencadeados pelo simples fato de dormir tarde. Por isso, a orientação é desenvolver bons hábitos de sono desde a infância por meio da regularidade de horários para deitar e levantar. “Lembrando que a criança de três a cinco anos precisa de 10 a 13 horas de sono, e esse valor vai diminuindo até chegar ao adulto, que deve dormir de sete a oito horas por noite”.

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Fique atento!

Outra boa dica para ajudar no desenvolvimento de costumes saudáveis de sono desde cedo é evitar que os filhos tenham televisão, computador ou celular no quarto. “E, claro, procurar fazer refeições mais leves à noite também vai ajudar”, garante Tavares, que pede atenção especial nos casos em que crianças ou idosos têm todas as circunstâncias adequadas para uma boa noite de repouso – como ambiente seguro, escuro, sem ruídos e com conforto –, mas não conseguem pegar no sono.

“Se os pequenos apresentarem dificuldade para dormir sem alguma intervenção dos pais ou o idoso precisar de um cuidador para isso, será necessário buscar um especialista”, aponta Tavares. 

Outros sinais que mostram um quadro de insônia em qualquer idade são dificuldades para iniciar o repouso e mantê-lo. Também é comum o paciente despertar mais cedo do que o desejado, apresentar queixas a respeito da qualidade do sono e passar o dia cansado. Isso sem contar outros sintomas que prejudicarão o desempenho profissional e a capacidade de socialização, como “irritabilidade, alteração do humor, comprometimento da memória, atenção e concentração”.

Ainda segundo o psicogeriatra, pessoas que desenvolvem insônia crônica podem sofrer alterações de comportamento relacionadas à hiperatividade e impulsividade, apresentar desmotivação no dia a dia e falta de iniciativa. Além disso, elas têm maior propensão para erros e acidentes, o que, no caso de pessoas perfeccionistas, pode agravar ainda mais a dificuldade para dormir. “Afinal, apesar do corpo exausto, é como se os problemas me impedissem de descansar”, comenta Ana Carolina, que já procurou um médico psiquiatra e iniciou o tratamento com a esperança de dar adeus às noites em claro.

Sintomas do Transtorno de Insônia Crônica

  • Dificuldade para dormir
  • Problemas para manter o sono
  • Despertar mais cedo que o desejado
  • Sentir-se cansado durante o dia
  • Apresentar irritabilidade e alterações de humor
  • Comprometimento da memória, atenção e concentração
  • Dificuldade para realizar atividades sociais, ocupacionais ou acadêmicas
  • Problemas de socialização
  • Sonolência diurna
  • Alterações de comportamento: hiperatividade, impulsividade e agressões
  • Redução na motivação, energia e iniciativa
  • Maior propensão para erros e acidentes