As etapas partem da infância e abrangem todo o ciclo da vida, a partir de experiências típicas da criação de um homem.| Foto: Bigstock
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Amadurecer é um processo interno que acontece continuamente ao longo da vida de todo ser humano. Todas as experiências e situações que vivemos que demandam nossas decisões e escolhas, moldam esse processo de forma pessoal, o que justifica o porquê cada um tem um grau de maturidade. Além disso, a própria natureza humana também interfere no amadurecimento, uma vez que homens e mulheres precisam ser maduros de forma particular.

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Pensando no amadurecimento masculino, o escritor John Eldredge, em seu livro A grande aventura masculina, categorizou o processo em seis etapas, partindo da infância e abrangendo todo o ciclo da vida, a partir das experiências típicas da criação de um homem. A essas etapas ele nomeou alegoricamente de “filho amado”, “caubói”, “guerreiro”, “amante”, “rei” e “sábio”.

Cabe destacar que, embora ele também classifique por idade, essas etapas podem estar sobrepostas e podem também ocorrer tardiamente ou prematuramente. Confira cada uma delas:

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O filho amado

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Como é de se esperar, a primeira etapa, a qual ele chama de “filho amado”, está completamente interligada na relação dos pais com o filho. Nesta etapa é importante a criança saber que é amada, que tem o apoio dos pais e que eles estão próximos a ela.

Segundo Adriana Potexki, psicóloga e escritora, essa relação afetiva dos pais com o filho é fundamental no desenvolvimento emocional e psicológico, o que pesquisas chamam de apego seguro. “É necessário que na casa exista um ninho de afeto e de amor, pois uma criança que não tem um referencial quando pequena, que não sente-se segura quando chora, quando se machuca ou quando sofre, se tornará um adolescente mais propenso a delinquência, ao uso de drogas, a insegurança, aos problemas na escola e dificuldade de se desenvolver na vida profissional”, afirma Adriana.

Além disso, a própria relação entre os pais é importante nessa etapa. “Nesses últimos anos temos percebido com pesquisas e na prática clínica, que não basta apenas o afeto da mãe para com o filho e do pai para com o filho” acrescenta a psicóloga, esclarecendo que se o afeto entre os pais não é legítimo e a relação do casal não é forte, afetará o filho imensamente.

O caubói

A segunda etapa, que o autor chama de “caubói”, está vinculada com as aventuras que o menino vive. Desbravar caminhos novos numa bicicleta, acampar com os amigos ou com a família, subir em árvores, descer ladeiras de rolimã (talvez os mais antigos se identifiquem) e as situações que precisarão ser resolvidas – encontrar o caminho de volta ao se perder no caminho novo, descobrir como descer da árvore que subiu – são as situações que moldam na personalidade do homem um espírito aventureiro.

De acordo com Adriana, o desenvolvimento da autoconfiança começa nessas brincadeiras, na sensação de conseguir fazer essas atividades. “Ali você vai se sentindo autoconfiante, então começa a estabelecer dentro de si frases como: 'eu consigo', 'eu sou capaz', 'eu sou forte', 'eu sou corajoso'”, diz a psicóloga.

"Uma pessoa que vai se sentindo capaz e corajosa, quando se tornar adulto, obviamente se sentirá capaz de estar numa entrevista de emprego, de cursar um novo curso, de tentar novas coisas, porque desde criança entendeu que a vida é feita de desafios, é feita de quedas e que é necessário aprender a se levantar. O joelho ralado fará parte de uma vida com aventura, porque se escorrega e cai, mas na medida em que você se levanta aprende também a levantar nas adversidades da vida” afirma Adriana.

Ela diz, ainda, que é importante a educação na liberdade que ensina e educa, mas que é diferente de negligência. “Não é deixar a criança sozinha tentar pular de um morro, você vai estar junto nesses momentos desafiadores, pois terá consciência se o morro é muito alto ou não, se aquela árvore está segura ou velha e pode quebrar, o incentivar essa criança para novos desafios é fundamental para o desenvolvimento”, acrescenta.

Viver essas experiências com os amigos faz parte do desenvolvimento da personalidade, pois na amizade começam os primeiros desafios onde a criança passa por momentos de rejeição, por não ter jogado a bola bem ou qualquer outro motivo. “Desde que não seja bullying, não seja constante, isso fará parte da vida adulta”, esclarece Adriana, que alerta para que os pais estejam sempre presentes para saber dosar se está se transformando em bullying ou não, se esse momento de rejeição foi um fato isolado e ajudar a criança a ter recursos de como reagir nessa situação.

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O guerreiro

A terceira etapa, chamada de “guerreiro”, é quando se percebe que existem problemas no mundo e que há certas coisas na vida pelas quais valem a pena lutar. Nessa etapa é muito forte o sentimento de querer mudar o mundo, enquanto se conhecem seus atributos e suas forças, muito explorada em filmes, inclusive – principalmente depois do clímax, onde todos se juntam em prol da causa comum.

“Infelizmente eu tenho percebido que a atual geração tem perdido isso, principalmente os adolescentes que estão viciados em tecnologia”, afirma a especialista. “Eles perdem a sensibilidade de perceber a dor do outro, perdendo a empatia. Os problemas do mundo não importam para ele porque ele está isolado em seu mundo imaginário”, acrescenta, alertando que o uso de drogas também levam a isso.

Nessa etapa os pais continuam desempenhando um papel importante. Adriana esclarece que os pais podem intervir cortando a tecnologia ao máximo, principalmente nesse tempo pandêmico, e colocando a criança em contato com o mundo real. “Obviamente respeitando todas as restrições do momento, de isolamento social, mas na medida em que for possível, uma criança precisa, por exemplo, conhecer uma comunidade carente e ver a discrepância das pessoas que sofrem, as pessoas que não têm o brinquedo que ela tem e muitas vezes sobra” diz a psicóloga.

Adriana alerta, ainda, para que os pais tenham o cuidado de não destruir a essência de um filho através do descaso, quando, por exemplo, o pai ou a mãe riem dos sonhos e ideais do adolescente. “Eu gosto de fazer um comentário que lembro de uma professora que dizia assim: o filho nasce perfeito, cheio de dons, de potenciais, os pais precisam só cuidar para não estragar”, complementa a psicóloga.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

O amante

A quarta etapa é a do “amante”. Essa fase não está necessariamente se referindo à vida amorosa, embora faça parte. Segundo o autor, na fase do “caubói” o menino começa a discernir o que é certo e o que é errado, na fase do “guerreiro” ele luta pelo que é verdadeiro para ele, mas nessa etapa ele desperta o amor pela beleza. É uma paixão que demora a ser identificada, podendo ser através da música, por um livro, por uma paisagem, por viajar. E nesse contexto vem a paixão por alguém, que normalmente é a personificação dessa beleza.

“Aqui se pode retomar a questão do quanto é fundamental um referencial positivo entre os pais, para que sirva de modelo para esse filho”, comenta Potexki, acrescentando ainda que “se o pai é carinhoso e amoroso com a mãe, a criança naturalmente está aprendendo a ser um homem carinhoso, sensível, um homem que ouve a sua esposa”.

E o oposto é verdadeiro também. Se o casal se distancia de alguma forma, como, por exemplo, quando a mulher abandona afetivamente o marido após o nascimento do filho, pode, consequentemente, gerar reações de rejeição ao homem, como agressividade, alcoolismo, traição ou depressão. E, diante desse pai agressivo, deprimido, infiel, o filho pode se desenvolver seguindo esse exemplo ou buscando uma antítese, que não necessariamente será saudável.

O rei

A quinta etapa é a do “rei”. Como nos filmes épicos, quando o filho retorna da batalha como herói, o seu pai, o rei, está aguardando para entregar-lhe o reino. Portanto, essa etapa é a fase em que o homem governa, que está em alguma posição de poder ou influência.

Pode ser na empresa ou em casa, essa etapa é praticamente reflexo das etapas anteriores, “tudo o que foi vivido foi construindo um arsenal de conhecimentos”, esclarece a psicóloga. Essa etapa se resume principalmente na forma que se exerce esse poder e influência.

Segundo Eldredge, nessa fase o homem pode se prender em um refúgio egoísta, de buscar sempre o seu conforto, em detrimento das necessidades dos outros. Um exemplo é o pai que se preocupa mais com um sofá confortável e uma televisão grande do que com a família, ou um dono de empresa que se preocupa mais em comprar carros e casas de verão, enquanto deixa os problemas com os funcionários.

“Tenho observado muita imaturidade por parte dos homens, negligenciando a família, buscar outros refúgios onde ele faz a manutenção da sua juventude e não assume o filho que exige responsabilidades, a aventura de ser pai precisa ser aprendida”, salienta Adriana.

O sábio

A sexta e última etapa é a do “sábio”, onde o homem passa a ser um mentor para os outros, por meio da sua experiência e maturidade. É uma etapa que muitos não alcançaram ainda, mas que não há uma métrica. A essência está em contribuir com o desenvolvimento dos outros.

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Nem tudo está perdido!

Adriana observa que “cada vez mais nós temos observado na sociedade homens imaturos, e alguns acabam se enquadrando inclusive no que a gente chama da síndrome de Peter Pan, onde ele permanece na 'Terra do Nunca' de seus sonhos e não aprende a viver a realidade”, mas esclarece que os que não tiveram essas experiências enquanto pequeno, podem ainda buscar a se tornar um homem maduro.

“Os condicionamentos existem, os seres humanos são condicionáveis, vão se condicionando ao que acontece ao seu redor, porém eu quero salientar que a nossa essência não é condicionada”, afirma a psicóloga. “Somos condicionáveis, mas não condicionados, porque existe dentro de nós uma essência que é livre e pode sim decidir ser diferente do referencial negativo dos pais”, complementa.

A esposa pode também ajudar o homem a amadurecer enquanto homem, pai e marido, o incentivando a buscar cursos, por exemplo. “Talvez exija mais esforço, a cura de traumas, uma terapia, livros, conhecimento, mas é muito bonito quando a gente pode decidir fazer diferente, decidir fazer melhor”, conclui a psicóloga.