Buscar viver de forma harmoniosa com a diferença de idade é similar à forma de lidar com qualquer outra diferença no casamento.
Buscar viver de forma harmoniosa com a diferença de idade é similar à forma de lidar com qualquer outra diferença no casamento.| Foto: Bigstock

Quando Paulo e Thayrine começaram a namorar eles tinham 10 anos de diferença de idade. Casaram-se quatro anos depois e em julho completarão uma década de casamento.

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Diferenças de idade como a deles podem ocasionar diversas sensações e percepções, até mesmo críticas e estranhezas, sobre como exatamente essa diferença possa se apresentar, tanto para família dos cônjuges como para a sociedade de forma geral. A vida em sociedade cria padrões verdadeiros e falsos ao longo do tempo e, de acordo com seus padrões, enquadra as pessoas.

Contudo, assim como o Paulo e Thayrine, todos nós conhecemos outros casais que permaneceram juntos e compartilharam suas vidas superando a diferença de idade. Esta é apenas mais uma das tantas diferenças que coexistem numa conjugalidade, assim como as diferenças físicas, culturais, educacionais, geográficas, de crenças e valores.

Buscar viver de forma harmoniosa com o espaçamento de idade entre o casal é similar à forma de lidar com qualquer outra diferença, segundo a psicóloga Eloísa Feltrin, visto que homens e mulheres pensam, sentem e agem de maneira distinta. Conhecer o cônjuge e se fazer conhecer pela observação e pelo diálogo, para firmar acordos que harmonizem as muitas diferenças que possam existir, é a melhor forma de lidar com as diferenças.

Tempo diferente de amadurecimento

Assim como amadurecimento físico, que segue o curso ditado pelos bons hábitos alimentares, atividades físicas e repouso, o amadurecimento psicológico tem seu apogeu entre os 30 e os 40 anos, explica Eloísa.

É comum ouvirmos falar que as mulheres amadurecem prematuramente, ao contrário da grande maioria dos homens, que se permitem viver uma infância mais tardia, sem tantas responsabilidades. Biologicamente, segundo Carmen Simon, psicóloga de família, ambos se desenvolvem de forma muito parecida, mas o fator que mudará tudo é a sociedade que vivem e como são cobrados de suas funções.

Ao depender da educação, no início da adolescência, entre os 12 e 14 anos, é perceptível que as meninas têm interesses e conversas mais maduras do que os rapazes de mesma idade. Contudo, entre 25 e 35 anos, a diferença nos interesses e no amadurecimento entre os gêneros só é diferente para aqueles que permanecem em núcleos familiares superprotetores, nos quais os pais e mães favorecem a dependência emocional e financeira dos filhos, esclarece Eloísa.

A psicóloga acredita que acaba sendo mais fácil a convivência entre pessoas maduras e saudáveis do que entre dois jovens que estão buscando autoafirmação e autoconfiança. Na maturidade as pessoas podem até ter suas divergências, mas costumam entrar num acordo em prol do relacionamento.  

Para a servidora Paulo e Thayrine, o tempo de amadurecimento não foi impeditivo para manutenção no relacionamento. Inclusive, Thayrine acredita que, no início do relacionamento, Paulo tenha sido muito importante durante o seu desenvolvimento pessoal. “Quem sai de casa cedo ou é criado com responsabilidades e incentivado a ter autonomia e independência vai amadurecer no tempo devido e saberá construir um relacionamento satisfatório”, acrescenta Eloísa.

Como enfrentar o julgamento pela diferença de idade

Durante o relacionamento, Paulo e Thayrine enfrentaram algumas situações desagradáveis com comentários maldosos e julgamentos temerários de terceiros. Contudo, Thayrine conta que sempre enfrentaram tais dificuldades com um sorriso aberto. “Nós tentamos manter o bom humor sempre, ficarmos bravos ou nos ofender não adiantaria nada e apenas reforçaria o sentimento negativo dos outros”, complementa a servidora.

Carmen orienta aos casais que é preciso saber qual o limite em um conselho produtivo e uma palavra vazia dada por terceiros. “Quando temos concreto em nossos pensamentos para onde queremos ir e chegar, opiniões avulsas acabam não sendo tão relevantes”, diz. E o julgamento é inerente à condição humana. Segundo Eloísa, sempre haverá alguém para apontar o dedo em riste e fazer uma crítica a tudo que se diferencia do status quo. Nesses casos, é importante que o casal aprenda a lidar com os julgamentos por meio da escuta seletiva e do diálogo assertivo, quando valer a pena gastar energia.

É preciso que ambos estejam cientes sobre formas que a sociedade possa reagir ao relacionamento e se afastar se necessário, de amigos e família que não cultivam boas vivencias sobre o casal, pois isso pode ser um fator que leve ao término, orienta Carmen.

“Querer esconder ou sentir-se envergonhado sobre o relacionamento também são pontos a serem percebidos. Se existe vergonha em mostrar como você se sente no relacionamento, dentro da família ou com amigos, talvez signifique que aquele não é um bom lugar para você estar. Mas, o diálogo amigável com todos sempre é o melhor caminho, mostrando sua posição, mas aberto as opiniões de outros”, acrescenta ela.

Vantagens e desvantagens

Não existe um certo ou errado, uma balança na qual se possa medir os ônus e bônus do relacionamento. Carmen acredita que as vantagens e desvantagens trazidas pela diferença de idade irão depender do que cada um busca em uma relação.

“Existem maiores chances de acharmos mais maturidade emocional em homens mais velhos, o que facilita em muito a relação amorosa. Não existe uma competição no relacionamento, mas ambos andam juntos”, exemplifica a profissional.

Contudo, ainda que de um lado seja benéfica pela maturidade dos cônjuges, a diferença de idade também pode afastar um casal com prioridades diferentes. Carmen exemplifica que pessoas mais novas comumente estão buscando uma colocação profissional e novas conquistas, onde filhos e matrimonio não caibam tão assertivamente. Enquanto pessoas mais velhas podem buscar no outro uma construção familiar, com filhos, vida estável, priorizando saúde e tranquilidade.

No caso de haver uma grande diferença de idade (10, talvez 20 ou até 40 anos de distância entre o nascimento de um e outro) pode haver dificuldades mais evidentes na comunicação, nos hábitos, no uso da tecnologia, na disposição física, na agilidade mental e na atividade sexual, pondera Eloísa, ao explicar que tanto os hormônios cerebrais quanto os hormônios específicos da fase reprodutiva tem um declínio após a metade do ciclo vital. “Portanto, é preciso muito diálogo para que isso não possa vir a ser um empecilho, mas sim um fator que una o casal”, orienta a psicóloga.

Eloísa destaca que a construção do relacionamento com diferença grande de idade vai implicar num investimento cognitivo e emocional de ambos. “Se analisarmos logicamente, parece que há mais desvantagens do que vantagens, mas o ser humano e suas conjugalidades são capazes de fazer arranjos onde o que falta e um tem no outro. Assim fraquezas se tornam forças numa união com idades distantes”, diz.

Relacionamentos duradouros

O tempo de duração do relacionamento não será impactado necessariamente pela diferença de idade do casal, mas é preciso que ambos estejam conscientes e saibam da importância da comunicação e da assertividade, alerta Eloísa. “Ter um bom relacionamento consiste em querer fazer dar certo, buscar ajuda quando possível, ter planos conjuntos e saber filtrar todas as informações que chegam ao casal, isso faz qualquer relacionamento dar bons frutos e ter longevidade”, diz.

Ainda, Carmen acredita ser pouco provável que somente o quesito idade dos cônjuges influencie na durabilidade de um relacionamento, porque há muitos outros fatores que causam maior impacto.

Muitas vezes, o término do relacionamento é levado pelo fator do vazio existencial, explica a psicóloga. Portanto, independentemente da idade, o casal precisa estar ciente sobre o que busca no relacionamento e quais são os projetos futuros. “Acredito que o vínculo afetivo positivo, o bom humor e as habilidades sociais são fatores de maior probabilidade na duração de um relacionamento. O vínculo abusivo, o mau humor e a falta de habilidades sociais não devem ser tolerados por nenhuma pessoa e isso vale para qualquer idade”, acrescenta a psicóloga.

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