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Cardeal Gianfranco Ravasi (foto: Pedro Serápio)
Cardeal Gianfranco Ravasi (foto: Pedro Serápio)
Cultura, Entrevista

Cardeal Ravasi: o cristianismo não pode sacrificar sua identidade para ser aceito

De música clássica à Amy Winehouse, o prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura fala do diálogo da Igreja Católica com a cultura contemporânea

Nessa semana, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) sediou o Átrio dos Gentios, uma iniciativa da Santa Sé, por meio do Pontifício Conselho para a Cultura, órgão responsável pelo diálogo com a cultura contemporânea. O evento surgiu em 2011, como resposta à proposta de Bento XVI de criar um espaço de diálogo entre crentes e não-crentes, e aconteceu pela primeira vez no Brasil, depois de ter passado nesses cinco anos por cidades como Paris, Cidade do México, Estocolmo, Berlim, Washington e Buenos Aires.

O evento central da programação foi um diálogo entre o astrofísico Marcelo Gleiser e o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. Já antes do cardinalato, Ravasi era um conhecido teólogo, especialista em Bíblia, mas seu interesse nunca se limitou aos textos sacros. Em seus discursos, Ravasi faz uso frequente de citações de filósofos, escritores e outras personalidades de relevo das mais diversas crenças. O Sempre Família conversou com o cardeal Ravasi sobre a importância do cristianismo na cultura contemporânea e sobre a educação dos filhos para o amor.

 

Na cerimônia de abertura do Átrio dos Gentios, o senhor falou que a tradição judaico-cristã e a cultura clássica, greco-romana, são os fundamentos da cultura ocidental. Quais são as principais contribuições do cristianismo para a nossa cultura?

Crédito: Pedro Serápio/Gazeta do Povo
Crédito: Pedro Serápio/Gazeta do Povo

As principais contribuições são, pelo menos, de três tipos: a primeira é ter oferecido à cultura ocidental um imenso e grandioso arsenal, uma espécie de grande horizonte de imagens, símbolos, ideias e temas, sobretudo através desse grande código que foi a Bíblia. Essa primeira contribuição é decisiva para a história da arte. Não dá para entrar em uma pinacoteca no Ocidente se não se conhece a Bíblia: 70% a 80% das obras expostas seriam incompreensíveis.

A segunda contribuição é no âmbito primariamente ético. É verdade que existia uma ética, uma moral, também no mundo grego clássico, mas a moral hebraico-cristã tem uma qualidade mais forte e mais alta. Penso, por exemplo, no decálogo. Mesmo que não sejam considerados um texto sagrado desde o ponto de vista da sociedade atual, os dez mandamentos são como as estrelas fundamentais no céu da vida moral, ética, social, comum. Veja, por exemplo, o diretor polonês Kieślowski, com a sua série O Decálogo. Ele não acreditava em Deus, mas fez uma das interpretações mais altas dos dez mandamentos.

O cristianismo também oferece a categoria do amor, que é mais do que a filantropia grega. “Ama o teu próximo” está no hebraísmo, mas “ama o teu inimigo” já é outra categoria. Por consequência, há uma concepção diversa do direito. É verdade que a moral e o direito não são a mesma coisa, mas têm pontos de contato. Refiro-me, por exemplo, à dignidade da pessoa, à eliminação da escravidão. Para isso influi fortemente a concepção cristã.

Isso me leva à terceira contribuição. A visão, a concepção da pessoa como relação. Na prática, sublinha-se o relacionamento com o outro como definição da pessoa. Os relacionamentos são constituídos por um núcleo, que é a liberdade inicial. Às vezes o cristianismo histórico não respeitou isso, mas na base permaneceu a dignidade livre de toda pessoa, da sua vida, da sua integridade, da liberdade religiosa e tudo o mais. Essa é a dimensão antropológica-social. Então temos essas três contribuições: a dimensão artístico-cultural, a dimensão ética e essa última.

E que contribuições o cristianismo ainda pode oferecer à cultura contemporânea?

Estou convencido de que um dos erros fundamentais que geralmente se faz, mesmo na pastoral, é não ser capaz de comunicar a própria identidade histórico-clássica – a primeira contribuição que descrevi. Não quero ser polêmico, mas um cristianismo que busca ir ao encontro do máximo que puder, que busca achar um mínimo denominador comum e que, na prática, concede quase tudo à sociedade e ao estilo contemporâneo para poder ser aceito, é no fim uma estrada destinada à derrota, porque o cristianismo, com dois mil anos de cultura e de história deveria ser capaz de conservar a sua identidade – não de maneira conservadora, mas com uma linguagem, um modo de comunicar, que leve em conta também a cultura digital. O cristianismo deve oferecer as verdades últimas – as grandes verdades, as grandes perguntas – a vida, a morte, o além, o verdadeiro, o falso, a justiça, a injustiça, o amor, o sexo, o eros. Há tantos problemas na vida – também as questões de bioética, por exemplo – que não se pode dizer simplesmente: “façamos o mínimo, para sermos aceitos”.

A questão então é não deixar a própria tradição, a própria herança.

Isso mesmo. Eu prefiro dizer a própria herança, porque se costuma associar a tradição aos tradicionalistas e eu, ao contrário, sou bastante atacado pelos tradicionalistas. O que eu sustento é que é uma perda para a humanidade deixar de lado esse patrimônio cultural.

O cientista Marcelo Gleiser e o cardeal Ravasi. (crédito: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)
O cientista Marcelo Gleiser e o cardeal Ravasi. (crédito: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Hoje podemos ver na cultura elementos diferentes no que diz respeito à fé. De um lado, se vê aquela busca de Deus, de sentido, de verdade e de amor que sempre está no coração do homem. Mas, por outro, o cristianismo é muitas vezes visto como uma mitologia ou um sistema moral opressor. Como os cristãos podem agir na cultura de maneira a mostrar que essa busca de Deus pode encontrar uma resposta na fé cristã?

Essa é uma pergunta muito importante, porque na prática é a base de uma nova pastoral, de uma nova evangelização. Ou seja, não se deve partir da ideia de que o mundo é já indiferente, superficial, não tem mais desejos nem perguntas, etc. – ainda que isso seja verdade muitas vezes. Mas o ponto de partida deve ser aquela verdade expressa em uma frase de Pascal: l’homme passe infiniment l’homme – o homem supera infinitamente a si mesmo. Mesmo que se dê alimento, se dê o que vestir, no fim permanece sempre uma busca. É o que diz Platão, pela boca de Sócrates: “Uma vida sem busca não vale a pena ser vivida”.

Kierkegaard, famoso filósofo do século XIX, oferecia essa imagem: o navio agora está nas mãos do cozinheiro e o megafone do comandante não transmite mais a rota, mas o cardápio de amanhã. Esse é um dos riscos de hoje.

Então o que devemos fazer contra essa tentação? Reviver a ideia da rota, do sentido da vida e buscar fazer isso atingindo essa busca que ainda existe, naqueles que não se contentam em ser apenas servidos pelo cozinheiro. Quando um rapaz ou uma moça – superficial, talvez banal – se apaixona, começa a ter uma outra sensibilidade. Quando é atingido por uma doença grave ou pela morte de uma pessoa querida, naquele momento deve estar presente alguém que oferece respostas. E isso em todos esses momentos fundamentais: o amor, a morte, a alegria, a dor.

Nesse sentido, creio que a pastoral não deve estar ausente nesses campos nem dizer coisas obsoletas. No que diz respeito à família, por exemplo, deve dizer algo significativo, e não apenas repetir fórmulas.

E além da pastoral, na vida de um cristão leigo: muitas vezes é um desafio que aquele que crê produza uma cultura autenticamente cristã e que ao mesmo tempo seja autenticamente cultura, isto é, não seja uma mera propaganda da sua fé, mas que consiga dialogar com o mundo e também com os que não creem.

Sim, uma apologética.

Convidados durante o principal momento do Átrio dos Gentios, na PUCPR. (crédito: Pedro Serapio/Gazeta do Povo)
Convidados durante o principal momento do Átrio dos Gentios, na PUCPR. (crédito: Pedro Serapio/Gazeta do Povo)

Como responder a esse desafio?

Bem, eu posso responder com as atividades que desenvolvo há algum tempo como presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. Demonstrei que é possível tocar os temas fundamentais da cultura contemporânea, a partir de uma instituição religiosa, católica, com o envolvimento e o interesse também de quem não crê.

Por exemplo, eu não conhecia Marcelo Gleiser, nunca o tinha encontrado, mas aqui imediatamente estabeleci um contato de simpatia, de sintonia, com ele. E isso é possível. Basta falar sobre os principais setores em que eu trabalho: economia, onde discuto questões como economia e gratuidade, economia além das finanças; fé e ciência, com tudo que isso envolve, como neurociência e medicina regenerativa; a arte, um setor onde você pode entrar com a sua visão, tanto que estive na Bienal de Veneza com uma exposição da Santa Sé; as mulheres, visto que tenho um conselho feminino, formado por 35 mulheres de diversas formações, crentes, não-crentes, muçulmanas, judias, etc., que entram em diálogo sobre diversos temas que vivemos.

O Pontifício Conselho para a Cultura foi o primeiro dicastério do Vaticano com esse tipo de consulta feminina, não é?

Exato, e ainda é o único. Há também o âmbito da cultura juvenil, a música jovem. Eu fiz certa vez uma reunião com todos os cardeais e bispos que estão de alguma forma ligados ao tema da cultura dos jovens e abri o encontro com um show de rock, porque se você não entende a sua linguagem, não consegue entendê-los.

Eu sou de formação musical clássica, um apaixonado, frequentei por vinte anos o teatro La Scala, de Milão, como amigo do maestro Riccardo Muti, mas procurei escutar também o que os jovens escutam. Quando David Bowie morreu, tuitei sobre isso. Tentei escutar – com muito esforço, é verdade – Amy Winehouse. Mas é necessário. E há ainda o próprio Átrio dos Gentios. Enfim, não é um exercício fácil. É preciso ter respeito pelo outro e ser fiel à própria identidade.

O senhor falou sobre aquela experiência do apaixonar-se, que aponta algo maior. O amor entre homem e mulher está presente na cultura de todos os tempos, nas diversas formas de arte. Mas também é fácil banalizar esse amor e assim cair na pura imanência, num amor fechado em si mesmo. Como o senhor vê a cultura contemporânea a esse respeito?

Aqui seria possível fazer um tratado, mas me limito a fazer essa consideração: a experiência humana do amor compreende sempre três anéis, três estágios. O primeiro é a sexualidade, sem dúvida; é basilar. É o componente fundamental da vida, porque está até mesmo nas plantas. Mas o homem é capaz de um nível superior, o eros, que é a descoberta da beleza dos rostos, da ternura, dos sentimentos, da delicadeza, da paixão. É um outro elemento que faz parte da experiência humana. O terceiro anel é o amor, ou seja, a doação total.

No eros, o outro ainda é um objeto que se vê, se admira. Já o amor é bem descrito pelo Cântico dos Cânticos, talvez o símbolo da união desses três anéis: o meu amado é meu e eu sou sua e eu sou do meu amado e o meu amado é meu. Há aqui a reciprocidade. Eu não sou e não vivo completamente se não tenho aquele outro e vice-versa. Esse enamoramento me dá identidade.

O que aconteceu na cultura de hoje? Para chegar a viver esses três estágios, é preciso viver uma verdadeira humanidade, uma riqueza pessoal. A sociedade contemporânea, sempre com pressa, o que fez? Rompeu os três anéis. E a sexualidade, a mais fácil, a mais instintiva, prevaleceu. Assim, arruinou-se a própria relação. O contato entre os jovens, infelizmente, é um contato de pele. E depois, se há algum tipo de sentimento, talvez se continue. Por isso tudo acaba: não é a construção de uma relação.

É difícil para os pais educarem os filhos a partir dessa visão sobre o amor, diante de uma cultura como a de hoje – como diz o papa Francisco, uma cultura do provisório, uma cultura do descarte. Na exortação Amoris Laetitia, o papa diz que a formação moral dos filhos deve ser indutiva, ou seja, que eles mesmos possam descobrir a importância de certas atitudes e valores. Como os pais podem ajudá-los nesse caminho?

Devemos partir de uma consideração que é justamente o outro lado da questão. Infelizmente, os pais lavaram as mãos. A educação exige muito esforço. Educar é diferente de instruir. Em latim, instruere carrega o prefixo in-: “pôr dentro”. Educar – educere – é o contrário: levar para fora. Educar é cansativo. É fazer com que as coisas emerjam de dentro, e não impor, não instruir.

Não é preciso instruir sobre a sexualidade. Os jovens aprendem sozinhos. Em vez disso, é necessário que você seja capaz de fazer com que eles encontrem aquelas respostas que estão dentro, ajudando-os com a sua experiência a torná-las autênticas, completas e maduras. Essa ajuda não é subjugar os filhos – que é uma outra tentação, além do ausentar-se –, não é ser a mãe que não corta nunca o cordão umbilical nem ser o pai patrão.

Infelizmente, parece que, hoje, para ser possível que os pais sejam capazes de educar, é preciso educar os pais. Educá-los desde o momento em que procuram se casar, fazer com que eles entendam que ser pais não é ser apenas aqueles que geram, assim como quem ensina não pode apenas ter um diploma, precisa ser realmente um mestre. Assim, uma das grandes tarefas que temos é tornar os pais capazes de educar, no próprio sentido da palavra.

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Leia também a entrevista concedida pelo cardeal Ravasi ao blog Tubo de Ensaio, da Gazeta do Povo.

 

 

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