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Felipe Koller

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Quem foi Roger Schütz, o fundador da comunidade ecumênica de Taizé

Morto em 2005, Irmão Roger fez da própria vida um testemunho eloquente da unidade dos cristãos.

Cluny, na França, foi uma das maiores abadias da história da Igreja. Antes da construção da atual Basílica de São Pedro, sua basílica foi a maior igreja do mundo e chegou a ser o lar de 10 mil monges simultaneamente. Desativada desde a Revolução Francesa, a abadia hoje fica a apenas 12 minutos de carro de uma outra comunidade de irmãos fundada 1030 anos depois, que se tornou conhecida entre cristãos do mundo todo durante o século XX. Como Cluny, a comunidade é conhecida pelo nome da cidade em que está sediada: Taizé.

A história de Taizé começou em plena II Guerra Mundial, quando o suíço Roger Schütz resolveu fazer o mesmo que a sua avó fazia durante a I Guerra: dedicar-se a acolher feridos e refugiados. Nascido em 1915, o filho de um pastor calvinista seguiu os passos do pai e estudou letras e teologia. Em 1940, depois de pedalar por 170 quilômetros desde Genebra, encontrou no vilarejo de Taizé, bem perto da fronteira com a zona da França ocupada pelas tropas alemãs, uma casinha barata e apropriada para receber refugiados, sobretudo judeus. Foi o que fez durante dois anos, ao lado de sua irmã Geneviève.

O irmão Roger com algumas crianças em oração.
O irmão Roger com algumas crianças em oração.

Eventualmente a Gestapo ficou sabendo de suas atividades e os dois precisaram fugir para Genebra. Em 1944, porém, Roger voltou a Taizé e deu início a uma comunidade de estilo monástico, aberta a homens cristãos de qualquer denominação que quisessem viver em comunidade, de forma simples, comprometidos com o celibato e em oração. A pequena comunidade tornou-se, nos anos seguintes, sem qualquer intenção de seus membros, meta de peregrinação de milhares de jovens do mundo todo e um verdadeiro luzeiro no caminho ecumênico das igrejas cristãs.

Testemunho

Roger morreu aos 90 anos de um modo trágico – foi esfaqueado por uma mulher romena com problemas mentais, durante a oração da noite em Taizé, em 16 de agosto de 2005, diante de 2,5 mil pessoas. A celebração de suas exéquias foram o testemunho do caminho de unidade que ele constantemente promoveu e viveu com todas as fibras do seu ser: na eucaristia presidida pelo cardeal Walter Kasper, então presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, a primeira leitura foi lida por um bispo anglicano, a segunda por um ministro reformado e um luterano e o rito da encomendação foi presidido por ministros ortodoxos.

Roger e Santa Teresa de Calcutá, com quem escreveu três livros.
Roger e Santa Teresa de Calcutá, com quem escreveu três livros.

Mas para se ter uma ideia ainda mais concreta do testemunho de Roger, basta ouvir o testemunho de seu sucessor, o irmão Alois: “Nós o vimos regressar de uma viagem a Calcutá com um bebê ao colo, uma menina que a Madre Teresa lhe tinha confiado com a esperança de que ela pudesse sobreviver na Europa, o que de fato aconteceu. Nós o vimos acolher e instalar no vilarejo de Taizé viúvas vietnamitas com vários filhos, que ele tinha encontrado ao visitar um campo de refugiados na Tailândia”, conta o monge. Santa Teresa de Calcutá, de fato, foi uma amiga próxima de Roger – os dois até mesmo escreveram três livros juntos.

“Muitos jovens tinham a imagem dele como um homem que estava sempre disponível para os escutar, todas as noites depois da oração, se fosse preciso durante horas. E quando o cansaço se tornou demasiado grande para que ele conseguisse escutar cada um, mesmo assim ele permanecia na igreja e dava a todos os que se aproximavam dele uma simples bênção, pondo a sua mão na testa deles”, relata Alois, acrescentando que a crescente convicção de Roger de que “Deus só pode amar” encontrava eco em seu hábito de sempre evitar palavras duras e julgamentos definitivos.

O túmulo do irmão Roger em Taizé.
O túmulo do irmão Roger em Taizé.

“Ele sabia que um dos maiores obstáculos era a imagem de um Deus considerado um juiz severo que provoca o medo. Houve uma intuição que se tornou nele cada vez mais clara e ele fazia todo o possível para a transmitir com a sua própria vida: Deus só pode amar. Ainda recentemente, o teólogo ortodoxo Olivier Clément recordava que esta insistência do irmão Roger sobre o amor de Deus marcou o fim de uma época onde, nas diferentes confissões cristãs, se receava um Deus que castiga”, diz Alois.

Roger e os papas

No dia seguinte à morte de Roger, durante a audiência habitual das quartas-feiras na Praça de São Pedro, o Papa Bento XVI recordou o fundador de Taizé. “Hoje de manhã recebi uma notícia muito triste, dramática”, disse. O hoje papa emérito contou que no mesmo dia havia recebido uma carta do irmão Roger, assegurando a comunhão com o papa e com os participantes da Jornada Mundial da Juventude daquele ano, que se realizou em Colônia dias depois.

São João Paulo II em visita a Taizé, em 1986.
São João Paulo II em visita a Taizé, em 1986.

“Nessa carta ele me escreveu que tem o desejo de vir o quanto antes a Roma para se encontrar comigo e para me dizer que ‘a nossa comunidade de Taizé deseja caminhar em comunhão com o Santo Padre’. Depois, escreveu pelo próprio punho: ‘Santo Padre, asseguro-lhe os meus sentimentos de profunda comunhão’”, afirmou Bento XVI, acrescentando que o irmão Roger “está nas mãos da bondade eterna e do amor eterno, pois chegou à alegria eterna”.

Bento voltou a recordar Roger durante a Jornada Mundial da Juventude, dias depois, chamando-o de “pioneiro da unidade”. “Conhecia-o pessoalmente desde há muito tempo e mantinha com ele uma relação pessoal de amizade”, disse. “Agora visita-nos do alto e fala-nos. Penso que deveríamos ouvi-lo, ouvir a partir de dentro o seu ecumenismo vivido espiritualmente e deixar-nos conduzir pelo seu testemunho de um ecumenismo interiorizado e espiritualizado”.

Bento XVI com o sucessor de Roger como prior de Taizé, o irmão Alois.
Bento XVI com o sucessor de Roger como prior de Taizé, o irmão Alois.

O Papa Bento foi ainda o anfitrião de um Encontro Europeu de Jovens promovido pela Comunidade de Taizé em 2012 em Roma. “Testemunha incansável do Evangelho da paz e da reconciliação, animado pelo fogo de um ecumenismo da santidade, o irmão Roger encorajou quantos passaram por Taizé a tornarem-se pesquisadores de comunhão”, afirmou na ocasião. São João Paulo II também recebeu três edições desse encontro em Roma e chegou até mesmo a visitar Taizé, em 1986 – já tinha estado na comunidade duas vezes antes da eleição como papa, em 1964 e 1968. “Passa-se por Taizé como se passa por uma fonte”, disse, em uma frase que marcou a história da comunidade.

“Sei bem que, na sua vocação característica, original e até mesmo em certo sentido provisória, a comunidade de vocês pode suscitar surpresa e despertar incompreensão e suspeita”, comentou ainda João Paulo II durante a visita. “Mas por causa da paixão de vocês pela reconciliação de todos os cristãos em uma comunhão plena, por causa do amor de vocês pela Igreja, vocês saberão continuar – estou certo disso – a estar disponíveis à vontade do Senhor”. No ano passado, o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, também visitou Taizé, pela primeira vez – Roger tinha visitado seu predecessor, Atenágoras, já em 1962.

O Concílio Vaticano II

A relação de Taizé com o papado data de seus primeiros anos. São João XXIII recebeu o irmão Roger no Vaticano poucos dias depois de ser eleito papa, em 1958. A sintonia foi imediata, a tal ponto que Roger repetiria várias vezes que “o fundador de Taizé é João XXIII”. Foi, aliás, o próprio Angelo Roncalli, quando era núncio apostólico em Paris, que assinou a autorização para que a pequena comunidade começasse a se reunir em oração na pequena igreja católica do vilarejo de Taizé, em 1948. Roger foi recebido anualmente por João XXIII, que chamava Taizé de “uma pequena primavera”, e seus sucessores e o mesmo passou a ocorrer quando o irmão Alois o sucedeu.

Max, Roger e São João XXIII. Os dois participaram como observadores do Concílio Vaticano II.
Max, Roger e São João XXIII. Os dois participaram como observadores do Concílio Vaticano II.

Segundo o cardeal François Marty, arcebispo de Paris entre 1968 e 1981, foi o encontro com Roger e o irmão Max, que o acompanhava, que deu ao Papa João a coragem de convidar observadores não-católicos ao Concílio Vaticano II. De fato, Roger e Max se fizeram presentes em todas as sessões da assembleia conciliar. Para o irmão Alois, sucessor de Roger como prior da comunidade, “o que se vive hoje em Taizé como comunidade ecumênica seria impensável sem a realidade do concílio”.

Nos anos do concílio, Roger se transferiu com um punhado de irmãos para um apartamento em Roma em que se recriou o ambiente de Taizé de oração e acolhida. Teólogos como Yves Congar e Henri de Lubac e bispos como Hélder Câmara narram em seus diários as visitas feitas ao pequeno apartamento de quatro cômodos. A proximidade com Dom Hélder tornou possível, inclusive, que fosse fundada no Brasil em 1966 a primeira comunidade permanente de Taizé fora do vilarejo francês, hoje localizada em Alagoinhas, na Bahia.

Católico ou protestante?

A situação confessional do irmão Roger parece, à primeira vista, um enigma. Nascido, formado e ordenado pastor no protestantismo calvinista, cuja tradição nunca afirmou ter abandonado, não é nenhum segredo que ele comungava diariamente nas missas celebradas em Taizé. No funeral de São João Paulo II, recebeu a comunhão do próprio Joseph Ratzinger, que presidia a celebração – como havia recebido outras vezes das mãos de São João Paulo II.

Ratzinger dá a comunhão ao irmão Roger nos funerais de São João Paulo II.
Ratzinger dá a comunhão ao irmão Roger nos funerais de São João Paulo II.

É claro, porém, o modo como Roger descrevia o seu próprio caminho, como disse publicamente a São João Paulo II em um encontro na Basílica de São Pedro: “Encontrei a minha identidade de cristão reconciliando em mim mesmo a fé das minhas origens com o mistério da fé católica, sem ruptura de comunhão com quem quer que seja”. Por isso, Roger considerava inapropriado o uso de termos como “conversão” ou “adesão formal” para descrever seu caminho rumo à unidade católica.

O cardeal Kasper comentava que “a fé do prior de Taizé foi progressivamente se enriquecendo com o patrimônio de fé da Igreja católica. Segundo o seu próprio testemunho, é justamente referindo-se ao mistério da fé católica que ele compreendia certos dados da fé, como o papel da Virgem Maria na história da salvação, a presença real de Cristo nos dons eucarísticos e o ministério apostólico na Igreja, inclusive o ministério de unidade exercido pelo bispo de Roma”. Para Kasper, “poucas pessoas da nossa geração encarnaram com tal transparência o rosto manso e humilde de Jesus Cristo”. Ele tem razão.

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