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Felipe Koller
Felipe Koller

Acreditamos no Amor

Onde há amor, Deus aí está.

O diálogo, atitude que nasce do encontro com Cristo: o que esse novo beato tem a nos ensinar

O bispo Pierre Claverie, que será beatificado em breve, apostou a vida toda no poder do diálogo, mas sabia muito bem que “a reconciliação não é coisa simples: ela custa caro”, como escreveu.

No último dia 26 de janeiro, o Papa Francisco autorizou a promulgação de oito decretos da Congregação para a Causa dos Santos. Foram reconhecidos milagres atribuídos à Beata Nazaria Ignacia March Mesa, que deve ser canonizada em breve, e a Alphonse-Marie Eppinger, Clelia Merloni e Maria Crucifixa do Divino Amor, que serão beatificadas. Além disso, foram reconhecidos os martírios da leiga Veronica Antal e de 19 ministros ordenados e religiosos mortos na Argélia ente 1994 e 1996. Tanto Veronica quanto esse grupo também serão beatificados em breve.

O grupo é mais conhecido pelos sete monges trapistas que fazem parte dele – a história do abade Christian de Chergé e dos outros monges da Abadia de Nossa Senhora de Atlas, em Tibhirine, foi retratada no premiado filme Homens e Deuses (2010), de Xavier Beauvois. O grupo dos 19 mártires, porém, será conhecido da seguinte forma: Beato Pierre (ou Pedro) Claverie e 18 companheiros mártires, ou Beatos Mártires da Argélia. Mas quem foi Pierre Claverie, o nome que se destaca entre os demais?

Assassinado por fundamentalistas islâmicos, o bispo Pierre Claverie poderia muito bem ter sua figura instrumentalizada por discursos contra os muçulmanos ou contra o diálogo inter-religioso. Mas assim como o mártir Jacques Hamel, o padre assassinado em sua paróquia na França em 2016 – e que era bastante empenhado no diálogo inter-religioso –, não é esse o caso. O diálogo sempre esteve no centro da vida e do ministério de Claverie.

Pierre Claverie nasceu na Argélia, de uma família francesa, em 1938. Lá pelos 20 anos percebeu que vivia em uma bolha de colonizadores que fazia dos argelinos cidadãos de segunda classe em sua própria terra. Em 1958, ele ingressou na Ordem dos Pregadores – os dominicanos –, estudando em Le Saulchoir, onde conheceu renomados teólogos dominicanos do século XX como Marie-Dominique Chenu e Yves Congar, e também no Egito, onde aprendeu árabe.

De volta à Argélia em 1967, dois anos depois de sua ordenação, Claverie esteve na direção de um centro de diálogo cristão-muçulmano. Ele também dava aulas de árabe clássico, inclusive para os muçulmanos, que conheciam apenas a versão popular do idioma. Em 1981, com apenas 43 anos, se tornou bispo de Orã, a segunda maior cidade do país, localizada no Mediterrâneo. Ao longo dos anos, se destacou pelo diálogo com o islã, chegando a ser chamado pelo povo “o bispo dos muçulmanos”.

Reconciliação

“O diálogo – já dizia ele em sua posse como bispo de Orã – é uma obra que deve ser continuamente retomada: é a única possibilidade de desarmar o fanatismo, em nós e no outro. É através do diálogo que somos chamados a expressar a nossa fé no amor de Deus, que terá a última palavra sobre todas as potências de divisão e de morte”.

Claverie era consciente, porém, de que “a reconciliação não é coisa simples: ela custa caro”, como escreveu. Ele sabia que sua vida estava sempre ameaçada pelos grupos fundamentalistas islâmicos, que o consideravam um perigo para a pureza do islã. A tensão se manteve até que uma bomba foi plantada em frente à sua casa.

“O que é mais louco do que ir ao encontro da morte sem nenhum outro equipamento do que um amor desarmado e desarmante que morre perdoando?”, dizia Claverie. Em 1º de agosto de 1996, o bispo morreu junto com seu amigo e motorista Mohamed Bouchikhi, um muçulmano – “o sangue de ambos misturado no chão: uma comunhão mais profunda que as diferenças de raça e de credo”, diz um texto publicado em um site oficial dos dominicanos.

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A morte do bispo foi uma aparente retaliação pela morte de Zitouni, o homem que disse ser o responsável pelo assassinato dos sete monges trapistas de Tibhirine. Foi uma demonstração de força, ocorrida no contexto de uma visita do ministro das Relações Exteriores da França, Herve de Charette, à Argélia, para prestar homenagem aos mártires trapistas. Zitouni foi assassinado por um grupo rival, igualmente fundamentalista.

Como os monges de Tibhirine e os demais mártires da Argélia, Claverie foi fiel ao amor até o fim. “Se permanecemos na Argélia, é para dar a nossa vida para salvar o futuro, em vez de deixar o país para salvar nossa vida”, disse ele, poucos dias antes de dar a própria vida.

Sete pessoas foram condenadas à morte pelo assassinato de Claverie, com a execução marcada para 23 de março de 1998. A Igreja católica do país, porém, pediu que a pena fosse comutada em detenção, o que foi aceito.

Seguimento

O diálogo nunca foi um obstáculo à identidade cristã de Claverie. Pelo contrário, era uma disposição que brotava de uma enraizada experiência de fé. “O efeito da ação de Deus no meio de nós é o amor fraterno, que exige paciência, bondade, interesse mútuo e confiança criativa. No nosso mundo, esse é o maior milagre do Espírito: que as pessoas possam nos olhar e dizer: ‘Vede como se amam’”, dizia.

Com o olhar límpido que a fé lhe dava, enxergava no outro o chamado à comunhão. “Só podemos compor a realidade juntos. Negando o outro, eu apago uma parte de mim mesmo, uma parte da realidade à qual não posso mais ter acesso. É como se eu me mutilasse. Sozinhos, não somos nada”, escreveu Claverie.

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É assim que ele enxergava o islã e os seus seguidores. “Eu conheço os amigos muçulmanos, que também são meus irmãos, o suficiente para entender que o islã sabe como ser tolerante e fraterno”, dizia. Para ele, os fundamentalistas pregavam um islã “desenraizado dos seus valores profundos, ao mesmo tempo humanos e espirituais, e que se tornou um fator político, que o transforma hoje em um instrumento de violência”.

Há trinta anos, Claverie já previa o cenário atual: “A Europa vai mudar de rosto. Por isso, será necessário aprender a viver juntos e, se possível, a manter um espaço que não seja monopolizado por uma religião, por uma cultura ou por uma ideologia”, disse ele. Por isso, o diálogo era para ele “uma tarefa à qual devemos voltar sempre sem descanso: só o diálogo já basta para desarmar o fanatismo, tanto o meu quanto o do outro”.

Extremismos

Ao mesmo tempo, Claverie sabia muito bem com o que estava lidando quando se tratava do fundamentalismo islâmico. Ele chegou a se opor frontalmente a uma pisada de bola da Comunidade Santo Egídio, em uma ocasião em que o movimento católico havia patrocinado um encontro de diálogo entre as facções de guerra argelinas, sem exigir anteriormente um compromisso de não-violência. Claverie e os outros bispos do país afirmaram que as negociações davam legitimidade a forças que massacravam qualquer um que defendesse um Estado não-islamista, ao mesmo tempo em que ignoravam os pequenos grupos que defendiam a democracia e a não-violência.

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Era a essa parcela da população que Claverie estava particularmente devotado: aqueles que estão no meio, empurrados de um lado por extremistas que se julgam melhores intérpretes da fé islâmica e de outro pelos progressistas estereotipados e colonizadores do Ocidente. São os pais e mães, trabalhadores, professores e até jornalistas e acadêmicos que ao mesmo tempo em que estão enraizados devotamente na tradição islâmica, fazem dela a fonte de uma postura democrática, aberta e conciliadora.

Assim, Claverie se empenhava em um trabalho artesanal de encontro, confiança e ação transformadora. Com uma visão ampla, o bispo fundou bibliotecas para estudantes e pesquisadores, centros de acolhida para deficientes e institutos de educação para mulheres.

“A reconciliação pode envolver, como aconteceu com Jesus, a possibilidade de ser despedaçado entre opostos irreconciliáveis. Um extremista muçulmano e um kafir (um infiel) não podem se reconciliar. Então qual é a escolha? Bem, Jesus não escolheu. Ele, de fato, disse: ‘Eu amo todos vocês’ e morreu”.

Companheiros mártires

Claverie foi o último de uma longa série de mártires cristãos da Argélia, 19 no total, religiosos e religiosas, que de 1994 até 1996 foram brutalmente assassinados, por sua fé e por seu amor fiel a um povo que sabiam ser amado por Deus.

Os primeiros foram o irmão marista Henri Vergès e a irmã Paul-Hélène Saint Raymond, das irmãzinhas da Assunção, mortos em maio de 1994. Em outubro do mesmo ano, foram martirizadas as religiosas María Caridad Álvarez Martín e Esther Paniagua Alonso, das irmãs missionárias agostinianas. Em dezembro, aconteceu o martírio de quatro padres da congregação dos missionários da África: Alain Dieulangard, Charles Decker, Jean Chevillard e Christian Chessel.

Em setembro de 1995, Bibiane Leclerc e Angèle-Marie Littlejohn, irmãs missionárias de Nossa Senhora dos Apóstolos, foram martirizadas. Em novembro, foi a vez de Odette Prévost, das irmãzinhas do Sagrado Coração. Em maio de 1996, aconteceu o martírio de sete monges trapistas, o abade Christian de Chergé, Luc Dochier, Christophe Lebreton, Michel Fleury, Bruno Lemarchand, Célestin Ringeard e Pal Favre-Miville.

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