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Felipe Koller

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Quem foi o cardeal Jean-Louis Tauran, ícone da promoção do diálogo

Ele enfrentou George W. Bush com uma ferrenha oposição à Guerra do Iraque, esteve em diálogo com líderes religiosos do mundo todo e até mesmo foi o responsável por anunciar uma das notícias mais esperadas da última década.

Na foto de 2013, Tauran encontra o líder sikh Bhai Mohinder Singh na Inglaterra.
Na foto de 2013, Tauran encontra o líder sikh Bhai Mohinder Singh na Inglaterra.

Ele enfrentou George W. Bush com uma ferrenha oposição à Guerra do Iraque, esteve em diálogo com líderes religiosos do mundo todo, foi incansável em seu trabalho mesmo convivendo com uma dura doença, chefiou uma das bibliotecas mais antigas do mundo e até mesmo foi o responsável por anunciar uma das notícias daquelas que sempre estão entre as mais esperadas. Essa pode ser muito bem a síntese da biografia do cardeal francês Jean Louis-Tauran, que morreu nessa quinta-feira (05/07), aos 75 anos – uma figura que “marcou profundamente a vida da Igreja universal”, como expressou o Papa Francisco em um telegrama de condolências enviado à irmã de Tauran, Geneviève Dubert.

O rosto de Tauran talvez seja familiar para você porque foi ele quem anunciou do balcão da Basílica de São Pedro, já debilitado pela doença de Parkinson, a eleição do Papa Francisco, em 13 de março de 2013. A famosa frase “Habemus papam!” coube ao cardeal devido ao seu título de protodiácono, isto é, o mais antigo dos cardeais-diáconos – os cardeais, embora sejam praticamente todos bispos, são divididos em três ordens, a dos cardeais-diáconos, a dos cardeais-presbíteros e a dos cardeais-bispos.

Tauran, ao centro, no momento em que anunciou ao mundo que o novo papa era Francisco, em 2013.
Tauran, ao centro, no momento em que anunciou ao mundo que o novo papa era Francisco, em 2013.

Mas a trajetória de Tauran, nascido em Bordeaux em 1943, vai muito além dos seus cinco minutinhos de fama antes de o mundo conhecer Francisco. Quando tinha entre 21 e 22 anos, ele foi professor em um colégio católico do Líbano, como forma de exercer o serviço militar obrigatório. Ordenado presbítero aos 26 anos, ingressou aos 30 na Pontifícia Academia Eclesiástica, onde se formam os diplomatas da Santa Sé. Foi núncio apostólico na República Dominicana e no Líbano. Em 1983, foi chamado para trabalhar na Secretaria de Estado do Vaticano.

Em 1988, foi nomeado por São João Paulo II subsecretário para as Relações com os Estados, tornando-se o titular da seção dois anos depois – uma espécie de ministro das Relações Exteriores do papa. Simultaneamente o papa lhe conferiu a ordenação episcopal. Foi nessa função que Tauran acabou se tornando diante do mundo a voz e o rosto da firme oposição de São João Paulo II à Guerra do Iraque no início dos anos 2000.

“Nenhuma regra do direito internacional autoriza um ou mais Estados a recorrer unilateralmente ao uso da força para mudar o regime ou a forma do governo de outro Estado com base na alegação, por exemplo, de que possui armamento de destruição em massa”, defendeu Tauran, em nome da Santa Sé, na época. Para ele, dar início ou não à guerra era fazer “uma escolha entre a força da lei e a lei da força”.

Tauran foi criado cardeal em 2003, depois de treze anos à frente das relações exteriores da Santa Sé.
Tauran foi criado cardeal em 2003, depois de treze anos à frente das relações exteriores da Santa Sé.

“Muitos analistas consideram esses anos o apogeu da diplomacia vaticana recente, um período em que o Vaticano implantou a sua influência política e moral em nível global de maneira muito relevante”, afirma o vaticanista John L. Allen Jr. Depois de 13 anos na função, o papa polonês criou-o cardeal e nomeou-o arquivista e bibliotecário da Igreja Romana – um trabalho bem menos estressante para quem estava começando a viver os sintomas da doença de Parkinson.

Diálogo

Poucos anos depois, porém, Tauran estava pronto para um segundo ato. Em 2007, o Papa Bento XVI chamou-o para assumir a presidência do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Nessa posição, o cardeal era o responsável por, em nome do papa, tecer o diálogo entre católicos e, sobretudo, muçulmanos, hindus e budistas. Teve um especial papel no estreitamento das relações entre a Igreja Católica e o islã, na linha da “aliança de civilizações” que o hoje papa emérito incentivou em um discurso na Jordânia, em 2009.

Sua última viagem, em abril, foi uma visita de oito dias à capital saudita, Riad, onde encontrou o rei Salman bin Abdulaziz e o secretário-geral da Liga Muçulmana Mundial, o sheik Mohammed Al-Issa. Foi a primeira visita de um cardeal ao país em que ficam os dois grandes santuários do islã, Meca e Medina. Na pátria do wahabismo, uma das correntes mais fundamentalistas do islã, o cardeal fez discursos corajosos, pedindo que os cristãos “não sejam considerados cidadãos de segunda classe” e apostando na educação como caminho para o diálogo e a tolerância.

Sua última viagem, a Riad, foi um marco para as relações entre a Igreja e o mundo muçulmano.
Sua última viagem, a Riad, já bastante debilitado, foi um marco para as relações entre a Igreja e o mundo muçulmano.

“O que nos ameaça não é o choque de civilizações, mas o choque de ignorâncias e radicalismos”, afirmou. “A religião pode ser proposta, mas jamais imposta”. Em uma entrevista em dezembro do ano passado, explicou como ele e a Santa Sé viam com apreço o recurso ao diálogo: “Nós cremos que no fundo, não obstante as posições que às vezes possam parecer distantes, é necessário promover espaços de diálogo sincero. Apesar de tudo, estamos convencidíssimos de que se pode viver juntos”.

“Com frequência é a ignorância que fundamenta o medo”, sustentava. “A maior parte dos europeus nunca teve um encontro com um muçulmano nem nunca abriu o Corão. O contrário também é verdade: muitos muçulmanos jamais abriram a Bíblia”. Com o mesmo espírito de diálogo se movia pela Cúria Romana, sem se dar a intriguismos. “Deu exemplo de como se serve ao papa na Cúria Romana, sem protagonismos, fazendo sempre presentes as próprias objeções e sugestões, sem nunca as vazar em blogs ou entrevistas”, avalia o vaticanista Andrea Tornielli.

O cardeal morreu em Hartford, nos Estados Unidos, onde residia junto a uma comunidade de religiosas. Ele vivia no estado de Connecticut devido ao tratamento para a sua enfermidade. Figura marcada pela gentileza, pelo senso de humor e pela erudição, ele acumulava ainda desde 2014 a função de camerlengo da Igreja Romana. Nesse cargo, ele seria o responsável por dirigir o Vaticano durante a sede vacante, no caso da renúncia ou da morte do papa.

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