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Felipe Koller

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O padre que enfrentou a Ku Klux Klan com a educação, a legislação e até espiões

Albert Foley liderava uma ação de espionagem contra a KKK e organizava atividades de conscientização sobre o racismo.

O padre jesuíta Albert Foley Jr.
Foto: Arquivo do Spring Hill College

“A brigada do lençol e do chapéu de burro”. Era assim que o padre jesuíta Albert Foley Jr. chamava a Ku Klux Klan, o grupo terrorista norte-americano que prega a supremacia branca. Plenamente consciente da atitude que a sua fé lhe exigia, Foley foi um dos grandes personagens da luta pela integração racial no Alabama da década de 1940 em diante.

Até os seus primeiros trabalhos como padre, Foley pensava como um típico branco do sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. Nascido em Nova Orleans em 1912, ele cresceu em um ambiente em que a segregação racial ficava cada vez mais evidente conforme o tempo passava. Mas não dava muita importância a isso.

Cartaz do filme racista "The Birth of a Nation", de 1915.
Cartaz do filme racista “The Birth of a Nation”, de 1915. Imagem: Commons

Ele até achava inspirador o filme The Birth of a Nation (“O Nascimento de uma Nação”), de 1915, uma produção abertamente racista que tecia louvores à Ku Klux Klan e que contribuiu para o seu ressurgimento.

A Igreja Católica evitava levantar a voz contra o racismo. A Diocese de Mobile, onde Foley trabalhou durante a maior parte de sua vida, mantinha paróquias, escolas e hospitais separados para católicos negros e católicos brancos. O discurso da KKK incluía o sentimento anticatólico e a hierarquia da Igreja, diante disso, ficava um tanto acovardada. A segregação racial, afinal, era parte do cotidiano – “fazer o quê?, é assim que as coisas são”.

Tudo mudou para Foley quando, em 1943, ele recebeu a incumbência de dar aulas de “Migração, imigração e raça”, no Spring Hill College, uma universidade jesuíta localizada em Mobile, no Alabama. Para se capacitar para a função, o jovem padre foi a campo e entrevistou a população negra do local. Foi aí, tocando a realidade, que os seus olhos se abriram: a segregação racial é, sim, um grave pecado.

Lendo os Padres e a doutrina social da Igreja, ele compreendeu melhor o que tinha descoberto e passou a discernir o que fazer. Começou a conscientizar os seus alunos sobre o racismo e a organizar atividades estudantis unindo alunos brancos e negros.

O bispo local, Thomas Toolen, o alertou para ficar longe desse vespeiro da “igualdade social, que não traz nada além de problemas”. Foley não recuou. Quando Toolen soube que o padre estava planejando uma peregrinação com estudantes brancos e negros em 1944, solicitou à Companhia de Jesus que o transferisse. Em 1947, a sua congregação de fato o transferiu: para graduar-se e doutorar-se em sociologia, na Universidade da Carolina do Norte.

Voltando com tudo

Foley só voltou a Mobile em 1953, como professor de sociologia em Spring Hill. A essa altura, ele já era presidente do Comitê Consultivo do Alabama junto à Comissão de Direitos Civis dos Estados Unidos e da seção local do Conselho para as Relações Humanas do Alabama.

Tinha também trabalhado ao lado de nomes como Martin Luther King Jr., a quem mais tarde criticou por preferir a via dos protestos e confrontos. Foley acreditava no caminho da educação e da conscientização gradual de cada cidadão, a fim de alcançar a integração racial e social de forma mais pacífica, consistente e duradoura.

Uma cruz incendiada da KKK, em Gainesville, na Flórida, em 1922.
Uma cruz incendiada da KKK, em Gainesville, na Flórida, em 1922. Imagem: Commons

Em 1956, ele redigiu duas proposições legislativas para Mobile. Uma delas propunha a proibição de que membros da KKK se tornassem policiais e outra proibiria a “intimidação por exibição” – seu alvo eram as cruzes incendiadas, um dos símbolos do grupo supremacista. As propostas não passaram despercebidas e a KKK publicou propagandas denunciando Foley como “comunista” e “traidor de semente estrangeira”.

Para tentar deter os atos terroristas da KKK, como linchamentos, incêndios e explosões, o padre recorreu ao FBI, acreditando que era o seu papel evitar ações desse tipo. O bureau, porém, não respondeu. Então, Foley começou a pôr a mão na massa.

O jesuíta conseguiu uma lista com as placas de carro do estado e seus respectivos donos e pagou pessoas para se infiltrar em encontros da KKK e anotar o número das placas dos participantes. Foley chegou até mesmo a alugar o apartamento vizinho ao de Elmo Barnard, que coordenava a KKK em toda a costa do golfo do México. O risco era alto, mas o jesuíta era bem claro: “A melhor coisa que poderia acontecer é se eles fizerem de nós mártires”, dizia.

A partir daquilo que descobria, Foley atuava na conscientização da sociedade, publicando artigos, dando aulas e organizando fóruns. Ele também continuou atuando junto a instâncias públicas, propondo leis de integração racial para uma série de espaços públicos e para o comércio. O jesuíta lecionou em Spring Hill e continuou envolvido com a luta pela integração racial e pela justiça social até a sua morte, em 1990.

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Com informações de America, U.S. Catholic e Encyclopedia of Alabama.

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