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Felipe Koller

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“Não julgueis”: o que significa isso?

É possível viver realmente sem julgar os outros?

"Woman Caught in Adultery", de John Martin Borg, 2002, retratando o episódio narrado em Jo 8, 1-11.
"Woman Caught in Adultery", de John Martin Borg, 2002, retratando o episódio narrado em Jo 8, 1-11.

O Evangelho que a Igreja lê hoje na liturgia já deu pano para a manga para muita discussão entre católicos. “Não julgueis e não sereis julgados”, diz taxativamente Jesus. “Pois, vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes; e sereis medidos, com a mesma medida com que medirdes” (Mt 7, 1-2).

Geralmente, cai-se em interpretações que mutilam o Evangelho. Uma deles é instrumentalizar essa afirmação para se autodefender, o que não raramente denota certa hipocrisia. Outra é minimizar a aplicação dessa frase e, através de lógicas tortuosas, arrogar para si o direito de definir quem está condenado e quem está salvo. Há, ainda, quem diga que se trata de um mandamento impossível de ser seguido: sempre julgaremos.

É possível interpretar esses versículos, com fidelidade a Jesus, de maneira que não caiamos em uma atitude postiça, que julga os outros o tempo inteiro mas apenas tenta esconder esses julgamentos em algum canto da consciência ou ao menos não os expressar?

Quem examina com sinceridade a própria consciência percebe que tentar impor limites a esse mandamento não passa de uma justificativa para continuar com uma postura de arrogância diante dos outros, ou ao menos de indiferença, de incompreensão.

Santa Ângela de Foligno (1248-1309) não economizava na radicalidade com que entendia a afirmação de Jesus: “Não julguem ninguém, mesmo se virem alguém pecando mortalmente. Não julguem os pecadores. Vocês não sabem o julgamento de Deus”, ensinou ela. Seria um exagero?

Bento XVI ensinou o mesmo: “Nos nossos juízos, nunca devemos confundir o pecado que é inaceitável, com o pecador, cujo estado de consciência não podemos julgar e que, em todo o caso, é sempre susceptível de conversão e de perdão”, disse ele.

O coração do outro, mistério inacessível

O mandamento sobre não julgar não tem nada a ver com abandonar o discernimento sobre o bem e o mal. A afirmação do papa Bento esclarece o que é que não devemos – porque sequer temos capacidade para isso – julgar: o estado de consciência do outro.

Esse estado é inacessível para nós. Não podemos saber quais são as intenções dos atos dos outros. Não podemos saber se fazem o que fazem por bem ou por mal, não podemos saber o quanto as suas feridas condicionam o seu agir no mundo. Muito menos podemos saber se estão ou não com o coração voltado para Deus. É por isso que Santa Ângela explicita: “…Nem mesmo se virem alguém pecando mortalmente”.

O mesmo ensina o papa Francisco, na exortação apostólica Amoris Laetitia. “É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta de um ser humano” (n. 304), diz o papa.

Todos sabemos que pode acontecer – e de fato acontece inúmeras vezes; não se trata de nenhuma exceção – que uma pessoa exteriormente pareça viver seguindo os mandamentos de Deus, não transgredindo uma linha dessas normas, mas, no entanto, tenha o coração afastado de Deus, cheio de si, sem espaço para a graça. E o contrário também pode acontecer: a vida de uma pessoa pode não estar conforme a todos os mandamentos e, no entanto, no seu interior a pessoa vive verdadeiramente próxima de Deus, com reta intenção e aberta para o amor.

O papa Bento, ao citar a afirmação de Jesus aos sacerdotes e anciãos, dizendo que “os publicanos e as prostitutas vão antes de vós para o Reino de Deus” (Mt 21, 31), considera que uma das formas de traduzi-la para os dias de hoje seria assim: “Agnósticos que, por causa da questão de Deus, não encontram paz e pessoas que sofrem por causa dos seus pecados e sentem o desejo de um coração puro estão mais perto do Reino de Deus de quanto o estejam os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato sem que o seu coração seja tocado por isto: pela fé”.

A mesma postura leva o papa Francisco a dizer que “por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio duma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja” (Amoris Laetitia, n. 305).

O olhar de Jesus

Qual deve ser então a nossa atitude diante do outro – que para o cristão nunca é um outro qualquer, mas é seu irmão, é um rosto amado apaixonadamente por Deus? O máximo de compreensão possível. O máximo de confiança de que cada pessoa, mesmo se confusa pelas feridas que a vida e ela mesma lhe infligiram, busca em seu coração o bem.

Partindo dessa compreensão, Santo Inácio de Loyola (1491-1556) colocou como pressuposto de seus Exercícios Espirituais esta lição muito importante: “Todo bom cristão deve estar mais pronto a salvar a proposição do próximo que a condená-la; se não a pode salvar, pergunte como ele a entende, e, se a entende mal, corrija-o com amor; e se não basta, busque todos os meios para que, entendendo-a bem, se salve”.

Afinal, o que é que pode nos salvar?

É curioso que empatia quer dizer etimologicamente a mesma coisa que compaixão: sentir com, ou sofrer com. Podemos dizer que é a atitude cristã por excelência: olhar o outro com um coração sensível – lembremo-nos de que uma das formas eminentes que a Escritura usa para descrever em que consiste a salvação é a da transformação do coração de pedra em coração de carne.

Não julgar não é, pois, uma postura impossível, como se contrariasse a nossa razão. Trata-se de tentar se colocar no lugar do outro e entender o que se passa em sua vida. Não desconfiar, não considerar já a priori que aquilo que o outro faz, faz por mal. Fazer memória das vezes em que eu pratiquei e pratico o mal e ver o outro, assim, como um irmão, como alguém semelhante a mim. Não impor rótulos sobre o outro, que não fazem nada mais do que reduzir toda a grandeza da sua humanidade ao mal que ele, talvez sem culpa, pratica.

Deixar, enfim, que pela minha convivência com Jesus, o meu olhar se torne semelhante ao dele: pleno de compaixão-empatia, como vemos nos numerosos encontros que o Evangelho narra – com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11), com Zaqueu (cf. Lc 19, 1-10), com a prostituta (cf. Lc 7, 36 – 8, 3), com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-27), etc. – e na nossa própria experiência: foi assim que ele nos fitou.

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Leia também: o papa Paulo VI dá ótimas orientações sobre esse assunto na encíclica Ecclesiam Suam. Lá, ele diz claramente que a fala de quem evangeliza “exclui a condenação apriorística”. Aqui neste post você pode ver uma seleção de trechos interessantes dessa encíclica.

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