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Felipe Koller

Acreditamos no Amor

Onde há amor, Deus aí está.

Afinal, o que é que pode nos salvar?

A fé cristã fala de salvação o tempo todo, mas às vezes o significado de ser salvo não fica tão claro. De que experiência estamos falando?

Sagrado Coração - Catedral do Rio

No cristianismo, fala-se o tempo todo de salvação. O próprio nome de Jesus significa “Deus salva”. Às vezes, porém, o significado de ser salvo não fica tão claro. Salvos de quê, afinal? É uma noção de difícil assimilação para quem não está habituado a ela. E isso porque aquilo que se tem por salvação, segundo os clichês do nosso imaginário, não bate com a nossa experiência do dia-a-dia.

Explico: com frequência se entende a salvação como algo que diz respeito apenas à vida além da morte, a associamos diretamente a regras às quais devemos obedecer para obtê-la ou, ainda, temos uma imagem do céu como um lugar sem a menor graça. Diante desse imaginário, a resposta mais espontânea do nosso coração é: não é isso que eu quero.

A cena da cura da hemorroíssa é uma das mais retratadas na arte paleocristã. Aqui, nas Catacumbas de Marcelino e Pedro, em Roma, séc. IV.
A cena da cura da hemorroíssa é uma das mais retratadas na arte paleocristã. Aqui, nas Catacumbas de Marcelino e Pedro, em Roma, séc. IV.

No entanto, permanece em nós um desejo de salvação, mas não no sentido desse imaginário. Todos nós nos sentimos incompletos, insatisfeitos. Temos necessidade de nos sentir seguros, de nos sentir amados, de ser libertados de nossas contradições internas e de encontrar força para conviver com o sofrimento que nos rodeia. A questão que fica então é: podemos experimentar esse tipo de salvação? É isso que a fé cristã oferece? Do que a Igreja fala quando fala de salvação?

Na sua catequese de hoje (31/08), o papa Francisco comentou o trecho do Evangelho de Mateus em que Jesus cura uma mulher que sofria com um fluxo de sangue (Mt 9, 20-22). “Ela sente que Jesus pode libertá-la da doença e do estado de marginalização e indignidade no qual se encontra há anos. Em uma palavra: ela sabe, sente, que Jesus pode salvá-la”, diz o papa.

De fato, como aponta Francisco, a noção de salvação aparece três vezes nessa pequena narração de apenas três versículos: a mulher crê que será salva ao tocar o manto de Jesus; Jesus lhe diz: “Coragem, filha, tua fé te salvou!”; e a narração se conclui dizendo que dali em diante, ela estava salva. Qual foi, então, a experiência de salvação que essa mulher teve? É simples e, ao contrário dos clichês de que falamos, é palpável e responde às exigências do nosso coração: ela descobriu que era amada com um Amor que nunca acaba.

Foi a experiência de Zaqueu, de Madalena, da mulher adúltera, de Mateus e de muitas outras pessoas cuja vida cruzou com Jesus. Na sua vida, morte e ressurreição, Deus manifestou o seu amor do modo mais claro possível: nada reservou para si mesmo e não colocou limites à sua entrega por nós. Por isso, Paulo pôde reconhecer que nada nos pode separar de um amor tão grande (cf. Rm 8, 31-39).

Também hoje nós podemos fazer essa experiência. A Bento XVI era caro o testemunho de vida de Josefina Bakhita (1868-1947). Nascida no Sudão, ela foi feita escrava aos nove anos de idade e experimentou torturas desumanas, como uma “tatuagem” feita a navalha para indicar que era uma posse, constituída de mais de cem incisões no peito, no ventre e no braço. Em outra ocasião, torceram-lhe os seios, “como panos molhados” – conta ela –, por três dias.

Josefina Bakhita (1868-1947)
Josefina Bakhita (1868-1947)

Porém, levada à Itália por um de seus senhores, ela conheceu o verdadeiro Senhor, o Deus de Jesus Cristo. “Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil”, escreve Bento XVI. Agora, porém, conheceu o Senhor dos senhores – um Senhor que é bom, que é a própria bondade. “Ela soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo ‘patrão’ supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada”.

“Agora ela tinha ‘esperança’”, conclui Bento XVI. “Já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava ‘redimida’, já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus”.

A experiência do amor é o centro da fé cristã. Só ela pode nos tornar capazes de uma mudança efetiva no mundo; só o amor é capaz de nos salvar. Por isso, Bento XVI pôde tomar 1Jo 4, 16 – “Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco” – como síntese da existência cristã. Deus é amor, e para quem o experimenta, isso não é apenas uma frase bonita, mas o olhar a partir do qual se enxerga toda a realidade.

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