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Felipe Koller

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A doutrina segura

Muito se fala de obediência ao magistério do papa, de ortodoxia, de combate às heresias e de fidelidade à doutrina da Igreja. Mas de que doutrina estamos falando?

Créditos: Reverb Culture
Créditos: Reverb Culture

Pela internet, muitos grupos católicos falam da importância de ser fiel à doutrina da Igreja. Fala-se de ortodoxia, de obediência ao magistério do papa, de combate às heresias e tudo o mais. Uma coisa, porém, fica subentendida por parecer óbvia, mas na verdade causa bastante confusão: de que doutrina estamos falando? Qual a doutrina que a Igreja ensina?

Já recordamos no texto passado o que o papa Bento XVI destacou na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est: “Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.

Francisco e Bento XVI, na abertura da Porta Santa na Basílica Vaticana | Créditos: AP Photo/Gregorio Borgia

No fim de agosto, ao enviar uma mensagem em vídeo à celebração do Jubileu da Misericórdia do continente americano, que aconteceu em Bogotá, o papa Francisco fundamentou a sua reflexão no mesmo trecho da Primeira Carta de S. Paulo a Timóteo que foi lido na liturgia de ontem (11/09). Paulo diz: “Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra:  Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles!” (1Tm 1, 15). Francisco, então, sublinha o que Paulo diz: a doutrina segura é a misericórdia de Deus. É isso que a Igreja anuncia. “A fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo”, ensina o papa na encíclica Lumen Fidei. “A fé identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta a realidade e o seu destino último”.

O papa é ainda mais claro na exortação apostólica Evangelii Gaudium: “Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimir mais diretamente o coração do Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado”. Aí está o coração da fé cristã.

Chamamos esse núcleo da fé cristã de “primeiro anúncio” ou “querigma” – uma palavra grega que no Novo Testamento é justamente usada com o significado de “anúncio”, “mensagem”. Essa mensagem é a própria pessoa de Jesus Cristo, que revela com a sua vida, morte e ressurreição o amor sem medidas e sem condições que o Pai tem por nós: “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ele nos ter amado primeiro, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados” (1Jo 4, 9-10).

“Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele” (1Jo 4, 9)

Por isso, como diz o papa, esse “é o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano”: ao anseio de sermos amados, de vivermos um amor para o qual a nossa fragilidade não seja um obstáculo, um amor que nos sustente e que não tenha fim. Se realmente Deus nos manifestou esse amor em Cristo, não pode haver doutrina mais segura e fiável do que anunciar isso. “Não se deve pensar que, na catequese, o querigma é deixado de lado em favor duma formação supostamente mais ‘sólida’. Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio”, ensina Francisco.

Todos os outros elementos do ensinamento da Igreja desdobram-se a partir desse núcleo e sem ele se distorcem, como explicita o Catecismo da Igreja Católica, citando o Catecismo Romano: “A finalidade da doutrina e do ensino deve fixar-se toda no amor que não acaba. Podemos expor muito bem o que se deve crer, esperar ou fazer; mas, sobretudo, devemos pôr sempre em evidência o amor de nosso Senhor, de modo que cada qual compreenda que qualquer ato de virtude perfeitamente cristão, não tem outra origem nem outro fim senão o amor”. Pouco vale, pois, falar de castidade, de purgatório ou de sacramentos quando não deixamos claro como essas realidades manifestam o amor misericordioso de Deus em nossa vida.

Quando o cristão não põe no centro da sua vida e do seu testemunho esse amor derramado gratuitamente por Deus sobre ele e sobre cada pessoa e, pior ainda, se arvora em detentor da ortodoxia, se torna alvo da crítica de Jesus aos escribas e fariseus: “Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo” (Mt 23, 24). Apontamos as rubricas litúrgicas que o nosso pároco não segue, fazemos jejum e rezamos o terço, rotulamos rapidamente quem é “católico de verdade” e quem não é, mas, esquecendo o coração do Evangelho, tudo isso se converte, quando muito, em uma ideologia qualquer. Quem não ama, sequer conhece a Deus (cf. 1Jo 4, 8); e se não O conhece, não tem nada para dizer sobre Ele.

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