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Emma Simpson/Unsplash
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Pais e filhos

O que raspar a cabeça da minha filha me ensinou sobre aceitação e amor próprio

Crises de ansiedade levavam a menina a arrancar os próprios cabelos e a mãe não sabia como lidar com a situação

Mary Widdicks, especial para o The Washington Post

A primeira vez em que fez um nó em seus cabelos, minha filha tinha pouco menos de três anos de idade. E não estou falando de um emaranhado de fios criado depois de uma noite de sono. Nem mesmo de um incidente causado por uma escova ou um chiclete que ficou preso. Estou falando de grandes e complicados nós que levavam de 10 minutos a uma hora para desembaraçar.

Minha rotina matinal se transformou em café da manhã e um momento meticuloso de desembaraço do cabelo da minha filha, seguido de crises de choro no banheiro. Então os nós começaram a aparecer com mais frequência. Aos três anos ela poderia deixar qualquer marinheiro ou escoteiro envergonhado diante da complexidade dos nós que fazia e que eram feitos tão próximos ao couro cabeludo, que matavam os folículos capilares. E para cada mecha de seus cachos loiros que se soltavam em minhas mãos, eu queria arrancar meu próprio cabelo.

Não projete suas ansiedades e angústias nos seus filhos

Comecei a desenvolver uma síndrome chamada túnel de carpo [ que causa dormência na mão e no braço, por conta de um nervo comprimido no punho] e ensinava ela a não fazer mais aquilo com seu cabelo. Eu implorava, subornava e oferecia maneiras alternativas para ocupar seus pequenos dedinhos. Tentei tudo o que se possa imagina, incluindo mergulhar o cabelo dela em óleo de coco todas as noites, antes de dormir. Nada funcionou e eu ainda precisava jogar fora seus lençóis cheios de mechas loiras. E quanto mais ansiosa eu ficava com essa situação, mais ela arrancava os cabelos. Certa vez ela fez um buraco do tamanho de uma lata de refrigerante na lateral da cabeça.

Comecei a ter medo de acordá-la pela manhã, porque tanto ela quanto eu sabíamos que haveria uma nova luta para penteá-la. Eu não podia suportar seu olhar envergonhado para mim, quando me mostrava o que havia feito durante sua noite de sono. Eu a amava menos? Claro que não.

Mas sentia que estava falhando como mãe. Comecei a imaginá-la em seu baile de formatura ou no dia de seu casamento com um belo penteado. Por mais que partisse meu coração, ver minha fila sofrer – e testemunhar a evidência física dessa dor – era pior ainda saber que meu nervosismo por vê-la arrancar seus cabelos também partia seu pequeno coração. Ela começou a se esconder com as mãos toda a vez que eu entrava no quarto porque sabia que eu ficaria decepcionada por ela ter feito mais um nó.

“Eu apresentei a alguém em desenvolvimento a vergonha e a insegurança, e lentamente destruí sua confiança em mim e em nosso relacionamento”

Suas crises eram reais, ela estava gerenciando da melhor maneira que podia e eu me tornei um tropeço em sua caminhada. Finalmente eu entendi que ela estava sofrendo de ansiedade e que isso havia começado antes mesmo dos nós no cabelo. A maioria dos adultos está familiarizada com os sintomas típicos da ansiedade: coração acelerado, peito apertado, desejo fugir sem motivo.

Mas o que eu não sabia é que nas crianças, a ansiedade pode se manifestar de maneiras inesperadas. Segundo o Child Mind Institute, algumas crianças com ansiedade se queixam de dores de estômago, outras têm pesadelos e tem aquelas que se tornam agressivas. Mas ainda há outras que desenvolvem tiques nervosos, como chupar o dedo ou puxar o cabelo.

Muitas crianças saudáveis ​​brincam de cortar ou puxar seus cabelos, e é por isso que condições compulsivas como a tricotilomania [um distúrbio de controle de impulsos caracterizado arrancar cabelos do corpo] normalmente não são identificadas até a adolescência ou a idade adulta. No entanto, se uma criança mostra sinais de ansiedade e estresse significativos ao puxar os cabelos, a condição pode piorar se não houver tratamento ou intervenção.

Independentemente dos rótulos, minha filha estava lutando e eu a decepcionei, colocando mais importância em sua aparência externa do que em seu bem-estar mental. Em vez de fazê-la se sentir segura, eu tinha mostrado a ela minha frustração e raiva por sua incapacidade de parar com aquele hábito. Eu apresentei a alguém em desenvolvimento a vergonha e a insegurança, e lentamente destruí sua confiança em mim e em nosso relacionamento.

“Quis deixar para minha filha uma mensagem de aceitação e amor próprio”

Então fomos juntas ao cabeleireiro no dia do seu terceiro aniversário e pedimos para que raspassem seus cabelos loiros e macios. Eu sonhava com seus cabelos desde quando o médico me disse que eu esperava uma menina. Como algumas mechas estavam caindo no chão, peguei uma para guardar e fiquei em silêncio vendo o restante ser varrido. Fiz uma promessa silenciosa para mim e para minha filha, de que nunca mais a deixaria me ver chateada por algo tão sem importância quanto cabelo.

Quis deixar para minha filha uma mensagem de aceitação e amor próprio, em vez de vergonha. Nós tingimos o que restou de seu cabelo de rosa e até raspamos o cabelo de uma de suas bonecas ao mesmo tempo para que elas combinassem. Conversamos sobre o quão emocionante estava sendo para ela criar seu próprio estilo e como eu estava orgulhosa por estarmos fazendo algo positivo por ela.

Nos meses seguintes, comecei a chamá-la de “mini-Pink”. Cabelos curtos se tornaram seu visual característico: algo de que ela se orgulha todos os dias. A vergonha que sentira por arrancar os cabelos se foi. Tanto os adultos que vivem com tricotilomania quanto os profissionais que tratam distúrbios comportamentais repetitivos concordam que a melhor maneira de abordar uma criança com ansiedade compulsiva é com a aceitação e a remoção suave dos gatilhos.

“Estou muito orgulhosa da minha menina, não porque agora seu cabelo é longo, mas porque ela superou sua própria ansiedade”

Antes de eu ter filhos, se alguém me perguntasse quais imagens apareciam em minha mente quando eu imaginava ser mãe, eu teria respondido três coisas: praticando esportes nas manhãs de sábado, embalando o lanche da escola e penteando os cabelos de minha filha. Cada um parecia ser uma peça de quebra-cabeça mais importante do que criar filhos felizes e saudáveis.

No entanto, a paternidade não é um quebra-cabeça solucionável. As peças estão em constante movimento, mudando, aparecendo ou desaparecendo. E pior, você nunca tem todas as peças para começar. Ser mãe e pai é mais um labirinto encantado do que um quebra-cabeça estático. Os momentos que realmente importam – aqueles que me definem como mãe – não são visíveis.

Raspar a cabeça da minha filha foi uma das coisas mais difíceis que tive que fazer como mãe. Desculpei-me algumas vezes durante o processo para organizar minhas emoções e garantir que ela nunca mais me visse nervosa ou chateada por causa de seus cabelos arrancados. Mas também é provavelmente a melhor coisa que eu já fiz para o nosso relacionamento. Sem mais cabelos. Não há mais nós. Não há mais brigas.

E depois disso, rapidamente minha filha parou de arrancar os cabelos e do seu próprio jeito. Agora, quase dois anos depois, quase consigo trançar o cabelo dela novamente. E estou muito orgulhosa da minha menina, não porque agora seu cabelo é longo, mas porque ela superou sua própria ansiedade. O cabelo cresce novamente; a confiança é mais difícil de cultivar.

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