Emoção

Ele perdeu todos os movimentos, mas levou sua filha ao altar e dançou a valsa no casamento

Antônio Arcanjo Rodrigues, de 54 anos, tem Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e só consegue mexer os olhos e esboçar um leve sorriso. Mesmo assim, realizou o sonho de casar uma das filhas no último dia 8 de fevereiro, em Curitiba

  • Por Raquel Derevecki
  • 26/02/2020 16:01
Antônio Arcanjo Rodrigues, de 54 anos, tem Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e só consegue mexer os olhos e esboçar um leve sorriso. Mesmo assim, realizou o sonho de casar uma das filhas no último dia 8 de fevereiro, em Curitiba.
| Foto: Divulgação/Lar e Saúde

Com o auxílio de uma técnica de enfermagem especializada em cuidados paliativos e que facilitaria a comunicação com seu pai, a curitibana Rosangela Rodrigues de Vasconcellos decidiu dar ao primeiro homem de sua vida uma notícia muito especial: ela iria se casar. Para isso, se aproximou da cama em que o paranaense permanecia deitado há mais de 10 anos, contou como estava feliz, mas disse que o evento seria bem pequeno devido às suas condições financeiras. “Só que assim que falei em casar apenas no civil, ele estalou os olhos e fez cara de bravo”, conta a jovem.

Portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) – doença degenerativa que paralisa todos os músculos do corpo e prejudica diversos órgãos – Antônio Arcanjo Rodrigues não consegue caminhar, falar, movimentar braços e pernas ou mexer seus dedos das mãos e pés. No entanto, compreende tudo o que ocorre ao redor, ouve com nitidez e consegue expressar sua opinião por meio do olhar e de leves expressões com seus lábios. “E percebi pelo rosto dele que não tinha gostado nem um pouco do que eu havia falado”, recorda Rosangela, que pediu à técnica de enfermagem Patricia de Oliveira para perguntar o motivo da desaprovação.

A plantonista começou, então, a ditar todas as letras do alfabeto em voz alta para o paciente e formou algumas palavras com as vogais e consoantes que Antônio destacava por meio do olhar. “Ele disse que, se eu não fizesse a cerimônia e a festa, eu não casaria porque o sonho dele era me levar ao altar”.

“Ele disse que, se eu não fizesse a cerimônia e a festa, eu não casaria porque o sonho dele era me levar ao altar”

Diante desse pedido emocionante, a noiva mudou radicalmente seus planos, iniciou a procura por fornecedores para o evento e planejou uma maneira segura de transportar o pai e os equipamentos que ele necessitaria para respirar adequadamente, monitorar seus batimentos cardíacos e se alimentar. E tudo deu certo. Com uma equipe especializada de plantonistas da empresa Lar e Saúde e uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) móvel disponibilizada pela Unimed, Antônio poderia, sim, conduzir a filha pelo corredor e entregá-la ao noivo Fabio Eduardo de Vasconcelos. “Estávamos muito felizes, porque aquele casamento não era mais para mim. Era para ele, para deixá-lo feliz”, afirma Rosangela.

Mas, de acordo com ela, os dias que antecederam à festa não foram fáceis para a família. O casamento ocorreu no último dia 8 de fevereiro na Chácara dos Lagos, em Curitiba, e todos precisaram se preparar, com antecedência, para diversos imprevistos que poderiam ocorrer. Afinal, qualquer detalhe fora de controle colocaria em risco a saúde do pai. “Tanto que nós separamos uma saída de emergência para ele deixar o salão caso passasse mal e até uma rota pré-estabelecida até o hospital”.

Além disso, todos conversaram bastante com o paciente durante a semana para que o homem mantivesse a calma e aproveitasse os momentos especiais preparados para ele. “E isso aconteceu. O Antônio foi levado à festa, riu, cumprimentou todos os convidados e depois nem queria voltar para casa”, relata a técnica em enfermagem Patricia, que se emocionou ao ver o paciente levando a filha ao altar e dançando a valsa com ela. “Ele estava muito feliz e disse que esses foram os momentos mais marcantes porque trouxeram alegria e esperança para ele”.

E a emoção também tomou conta da noiva ao ver seu pai realizar um sonho tão especial. “Meu filho entrou empurrando a cadeira do avô ao meu lado e aquilo foi incrível, pois meu pai sempre foi tudo para mim”, conta Rosângela. “Para dizer a verdade, eu nem conseguia acreditar que ele estava ali comigo, porque lembrava de todas as vezes em que os médicos o desenganaram. Foram anos terríveis”.

A doença

Natural do município de Reserva, no interior do Paraná, Antônio teve uma infância difícil, perdeu a mãe por uma doença desconhecida quando tinha dois anos de idade e também viu o irmão mais velho falecer, sem explicação. “Só que ele cresceu saudável, trabalhou quase 20 anos na área de produção de em uma grande empresa de Curitiba, fazia exercícios físicos e era um homem forte”, relata sua esposa Elane Silva Rodrigues.

O problema de saúde só começou a aparecer em meados de 2007, quando o marido sentiu fraqueza nas pernas algumas vezes e ninguém sabia explicar o motivo. “Ele passou por diversos exames e fazia fisioterapia, mas a situação só foi piorando”, recorda a paranaense, ao falar do período mais triste de sua vida. “Lembro que ele começou a se afogar com a comida, foi internado às pressas e teve uma parada cardíaca”. Além disso, “foi para a UTI, entrou em coma e ficou daquele jeito por um mês”.

Quando acordou, Antônio já não falava mais e suas pernas estavam muito fracas. “Foi aí que descobriram qual era a doença e me falaram que ele só tinha mais seis meses de vida. Eu desabei”. Só que seu esposo não se entregava e, mesmo perdendo o movimento de todos os músculos nos dez anos seguintes, o homem segue firme e convicto de que ainda acompanhará a esposa e suas duas filhas gêmeas por muitos anos. “Todo dia ele está com aquele sorriso no rosto lutando para viver e é isso que nos dá forças”, afirma Rosangela.

Por isso, ela e a mãe garantem que a oportunidade de tê-lo presente no casamento é um verdadeiro milagre. “Sabemos que não era para ele estar aqui hoje, então cada dia é uma vitória e eu só agradeço a Deus por essa oportunidade”, finaliza Elane, certa de que também verá o esposo no matrimônio da segunda filha, em breve. “Foi ela que pegou o buquê, então vem festa por aí!”, adianta.

Vaquinha online

Mas enquanto Antônio não acompanha sua segunda filha até o altar, a família se esforça para adquiririr um equipamento no valor de R$ 20 mil que facilitará a comunicação dele com familiares e amigos. Esse aparelho é conhecido como Tobii e consegue decifrar informações que o homem passa por meio do movimento de seus filhos. "Assim, ele conseguirá se comunicar de maneira mas fácil e rápida", explicou a família no site da campanha. "Que Deus retribua em dobro cada um que nos ajudar!", finalizam.

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