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A pornografia do nosso tempo mantém perversas semelhanças com as sangrentas lutas de gladiadores do passado, que ocorriam no Coliseu. Essa foi uma das conclusões apresentadas pelo doutor David Hilton Jr. num evento sobre infância realizado em Roma, entre os dias 3 e 6 de outubro.  Para ele, nos dois casos há uma multidão de espectadores sentindo prazer com a degradação e o sofrimento alheios.

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Hilton Jr., do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, afirma que somos uma sociedade que “facilmente cede ao voyeurismo de assistir a pessoas sendo maltratadas”. O acesso facilitado sem precedentes a conteúdo pornográfico fez surgir uma cultura que gosta de “assistir a mulheres sendo violentadas na tela”, diz o especialista à Catholic News Agency (CNA).

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“Acho que temos um Coliseu de neon, um Coliseu de telas, em que muito mais pessoas estão assistindo a outras sendo prejudicadas. E as pessoas estão gostando”, diz Hilton. “Nisso, não somos nada melhores do que os antigos romanos. De fato, de certa maneira acredito que somos piores, porque eles pelo menos faziam isso abertamente, enquanto nós nos escondemos atrás de nossas telas à noite, fazemos isso e dizemos a nós mesmos que está tudo bem”.

Hilton foi um dos palestrantes em uma conferência de quatro dias organizada pelo Centro de Proteção à Infância da Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma. A conferência, chamada “Dignidade da criança no mundo digital” contou ainda com o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, que ministrou a palestra de abertura.

 

Vício

Vários dos palestrantes notaram como, com o fácil acesso que as crianças têm à internet, elas se tornam muito vulneráveis diante de uma indústria que pode torna-las vítimas de uma ampla variedade de abusos. Hilton sublinhou o modo como o vício em pornografia afeta o sistema de recompensas do nosso cérebro. Ele citou estudos recentes que mostram que o vício em pornografia causa mudanças cerebrais idênticas ao do abuso de substâncias químicas.

As crianças e adolescentes estão particularmente ameaçadas por esse fator, porque o lobo frontal do cérebro não se desenvolve completamente até por volta dos 25 anos de idade. As substâncias químicas envolvidas no sistema de recompensas do cérebro são mais potentes em organismos que ainda estão em desenvolvimento, o que aumente a vulnerabilidade das crianças e adolescentes a mudanças substanciais e definitivas na estrutura do seu cérebro.

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Hilton chegou a citar a escritora feminista Naomi Wolf, que alertou que garotos “pornificados” desenvolvem uma mentalidade segundo a qual “as mulheres de verdade são só pornografia ruim”. Para encontrar uma solução para esse problema, Hilton alerta que é preciso encarar a questão de uma nova forma, mostrando que o assunto não deve ser relegado ao plano moral, pois envolve muito mais do que isso.

O especialista chamou a pornografia de “prostituição filmada” e recordou um estudo que constatou que 88% das cenas dos 250 vídeos pornográficos mais vistos contêm violência contra a mulher.

“Conseguimos falar da exploração não apenas de jovens que estão vendo pornografia, mas de garotas que estão sendo exploradas por uma indústria muito poderosa? Conseguimos deixar a religião fora disso e falar disso desde uma perspectiva de saúde pública?”, indagou Hilton. “Podemos realmente dizer que a pornografia é boa e que as pessoas podem consumi-la se existem pessoas que estão sendo lesadas? Ela é, então, um produto ético?”

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