| Foto: Bigstock
Ouça este conteúdo

Cada dia parecem surgir novos medicamentos e tratamentos que prometem salvar a humanidade da Covid-19. O mais recente foi divulgado pelo ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação Marcos Pontes na última quarta-feira (15), em entrevista coletiva.

Um medicamento, cujo nome foi mantido em segredo pelo ministério, apresentou 94% de eficácia contra a carga viral do novo coronavírus em estudos em laboratório. Os resultados foram identificados pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), que faz parte do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas (SP).

Se a substância se trata de um vermífugo ou não, não é isso que fará a diferença no combate ao novo coronavírus. O detalhe que as pessoas precisam ficar atentas agora, antes de tomarem-no como uma cura certa para a doença, é a etapa de testes em que esse medicamento se encontra.

CARREGANDO :)
CARREGANDO :)

Cura pelo vermífugo?

O resultado de 94% de redução da presença do vírus foi constatado pelos pesquisadores em testes in vitro. Isso significa que, em células humanas colocadas em placas de Petri e analisadas em laboratório, o medicamento apresentou esse efeito promissor. No entanto, esse resultado não garante que o mesmo seja visto quando a substância for aplicada em seres humanos, que é a próxima etapa do processo.

"Quando falamos em condições artificiais, não falamos de um corpo humano completo. Uma coisa é colocar o medicamento em um tipo de célula e ver se ele funciona. Outra é fazer a translação para o ser humano. E isso nem sempre funciona", explica Cristina Ribeiro de Barros Cardoso, imunologista membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Imunologia e docente de Imunologia da USP de Ribeirão Preto.

Outro detalhe destacado pela especialista é que, embora as células usadas nessa etapa do estudo sejam reais, a condição a qual elas são submetidas é artificial. "In vitro, eu controlo quantas células eu coloco. E no ser humano? Em quantas células da pessoa o vírus está presente? Em qual tipo de células? A dosagem [da substância] que você estabeleceu in vitro não será a mesma para o ser humano inteiro. Deve-se avaliar a toxicidade, a dose. Matar um vírus in vitro, muitas substâncias matam", explica a imunologista.

Nesse cenário de incertezas não está apenas a substância misteriosa anunciada nessa semana pelo governo, mas todas as outras em testes para a Covid-19. Confira abaixo os principais medicamentos sendo testados atualmente (conforme orientações da OMS) para o combate do novo coronavírus, e em que etapa eles estão, de acordo com os estudos clínicos divulgados pela plataforma de pesquisa clinicaltrials.gov.

Publicidade
Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

Cloroquina e hidroxicloroquina

95 estudos clínicos, distribuídos por vários países no mundo, que estudam a hidroxicloroquina (HCQ) e a possível ação contra a Covid-19. Cada um deles olha para um aspecto da substância, como por exemplo se ela seria eficaz em casos mais graves ou mesmo entre pessoas com sintomas mais leves; se comparado a outros medicamentos ela teria uma ação maior, menor ou talvez igual; a dosagem mais adequada, entre outros.

Por se tratar de um medicamento usado há décadas contra doenças como malária e condições reumáticas, os efeitos colaterais da hidroxicloroquina são conhecidos, e ela já foi testada para outras doenças, como a Zika. Sendo assim, foi possível administrá-la em pacientes com a doença instalada, e não recomeçar os testes desde o início, em laboratório - embora alguns pesquisadores estejam avaliando a substância sob a lente do microscópio também.

O mesmo acontece com a cloroquina, substância semelhante e usada para os mesmos fins que a hidroxicloroquina. São 37 estudos em andamento que a avaliam para o tratamento da Covid-19 e, da mesma forma que a HCQ, são pesquisas iniciais e sem resultados definitivos.
"Alguns estudos iniciais mostraram resultados animadores, mas são estudos que receberam críticas sobre a rigidez científica utilizada. Ou por ter um número pequeno de pacientes, ou por uma falta de controle adequados, ou por serem publicados como artigos que não foram revisados adequadamente. Essa semana saiu um estudo brasileiro que usou uma dose mais alta de cloroquina e eles não só viram que não tinha efeitos positivos como, também, na dose mais alta, teve uma certa toxicidade", explica Cristina Cardoso, imunologista.

Ritonavir e Lopinavir: antirretrovirais contra a HIV

Além da HCQ e da cloroquina, fazem parte do esforço da Organização Mundial da Saúde (OMS) em encontrar medicamentos contra a Covid-19 os antirretrovirais Ritonavir e Lopinavir. Essas substâncias também já são usadas atualmente no combate a outras doenças. No caso, o vírus HIV.

"Esses dois, e outros antirretrovirais, supõe-se que eles inibiriam uma protease [enzima] do vírus. Mas, se olhar os dados científicos, o uso do Lopinavir e do Ritonavir para a SARS e para a MERS são limitados. Contra a SARS, eles viram uma redução na mortalidade e na taxa de entubação, mas não podemos ter conclusões muito definitivas", explica a imunologista.

Dos estudos clínicos envolvendo as duas substâncias, há 25 em andamento. Há pesquisadores que também avaliam a ação das medicações juntamente com a substância interferon Beta-1b, usada no tratamento da esclerose múltipla. "Todo mundo está tentando achar [uma solução], mas não tem nada ainda que permita falar: vamos usar isso porque vai dar certo, foi comprovado em estudos com um número grande de pacientes, com eficácia comprovada. Não tem", reforça Cristina.

Especula-se, no entanto, que o fato de a África do Sul não ter tido um pico da doença com um número de casos esperado poderia se dar ao fato de que, no país, as pessoas fazem mais uso de antirretrovirais. Isso, no entanto, não está comprovado, e o número de casos (que até o dia 16 de abril chegava a 2,6 mil) pode estar relacionado às medidas de isolamento ou mesmo porque o pico pode ainda não ter sido atingido.

Remdesivir

Usado previamente no tratamento do Ebola, o medicamento Remdesivir está sendo avaliado em 11 estudos clínicos contra o novo coronavírus. Em estudos em animais, a substância mostrou-se promissora contra a SARS e a MERS, doenças também causadas por vírus da minha "família" que a Covid-19, os coronavírus. Por causa disso, a substância faz parte da ação global da OMS.

Embora apresente resultados promissores, há uma dificuldade de produção dessa substância, conforme explica Jônatas Santos Abrahão, virologista, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais. "O Remdesivir age de uma maneira diferente. Quando o vírus entra em contato com a droga, ele incorpora no genoma e ela bloqueia a síntese do genoma, ou a replicação do genoma do vírus. É muito promissora, mas tem um problema sério com relação à produção. Há uma limitação técnica, porque ela é difícil de ser reproduzida em larga escala", explica.

Dos estudos envolvendo a substância, a maioria se concentra nos Estados Unidos, onde se encontra também a farmacêutica Gilead Science Inc, produtora do medicamento. Hospitais na cidade de Chicago vem aplicando a substância em estudos clínicos, e resultados preliminares indicam que o medicamento possa ser promissor. Até o momento, no entanto, não se trata de um remédio ou uma cura para a doença.

Pressa x segurança

Em meio a uma pandemia, tudo que se pede dos pesquisadores é que tenham pressa, mas isso não garante que o medicamento seja estudado mais rápido, ou que as soluções cheguem mais rapidamente. A preocupação que deve guiar os especialistas, segundo a imunologista Cristina Cardoso, é não indicar uma substância cuja ação possa ser pior do que se deixasse a doença manter o curso.

A especialista lembra que, embora os medicamentos listados acima são conhecidos dos médicos, os efeitos colaterais e ações foram vistas entre pessoas saudáveis ou com uma doença específica. Em pacientes com a Covid-19, a ação pode ser bem diferente, pois se trata de uma doença muito nova.

"Eu uso um antirretroviral em um paciente com HIV controlado, eu sei qual será o efeito. Mas vai ser o mesmo em um paciente com Covid-19? Será que o fígado dessa pessoa vai estar bem para metabolizar um medicamento desse? O vírus [coronavírus] entra na célula por meio de um receptor que está relacionado a excreção renal. Será que os rins vão estar bem?", questiona Cristina.

As respostas a essas questões só virão pelos ensaios clínicos. "Não é algo da noite para o dia. Por mais que eu tenha plataformas de estudos desenvolvidas, por mais que tenha experiência, os processos levam um tempo natural. Não é porque o cientista está demorando. Você precisa cultivar uma célula, e isso demora. Você injeta um vírus no camundongo, você precisa esperar ele ficar doente para começar a analisar", exemplifica.

Publicidade
Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]